CÂNCER DO COLO DO ÚTERO
75% dos casos são diagnosticados em estágio avançado em SC
Ginecologista Luiz Fernando Sommacal, autoridade brasileira no combate ao câncer, defende genotipagem do HPV para reduzir mortalidade
Juvan Neto [editores@diarinho.com.br]
Um dos principais nomes da luta contra o câncer em Santa Catarina está fazendo um apelo a gestores públicos para ampliar o combate ao câncer do colo do útero entre mulheres catarinenses. Trata-se do ginecologista Luiz Fernando Sommacal, de Florianópolis, membro da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. Em ano eleitoral, ele vai além de sugerir: cobra dos agentes públicos a adoção do rastreamento do câncer por meio da genotipagem do HPV.
Em entrevista ao DIARINHO, Sommacal reforçou o alerta ao destacar que o câncer de colo do útero segue como grave problema de saúde pública. A doença é responsável por cerca de 331 mil mortes anuais no mundo. No Brasil, são aproximadamente 18 mil novos casos por ano, com cerca de oito mil mortes. Diante desse cenário, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu a meta de eliminar esse tipo de câncer até 2035. Em Santa Catarina, porém, o avanço assusta: cerca de 75% dos diagnósticos acontecem em estágio avançado.
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Professor e diretor de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sommacal explica que, historicamente, o rastreamento é feito pelo exame de citologia oncótica, popularmente chamado Papanicolau. “Esse método contribuiu para reduzir a mortalidade, mas tem limitações, como resultados falso-negativos e a necessidade de repetição frequente”, afirma.
Segundo ele, a genotipagem do HPV — incorporada pelo Ministério da Saúde em 2024 — permite identificar o vírus causador com mais antecedência, ampliando as chances de diagnóstico precoce. A oferta desse rastreamento, embora mais cara, salvaria muito mais vidas. Acompanhe a entrevista exclusiva de Luiz Fernando Sommacal ao DIARINHO.
"A questão do câncer de colo de útero passa por vacinas"
DIARINHO: Dr. Sommacal, como esse novo gênero de rastreamento poderia ser implantado?
Luiz Fernando Sommacal: Gestores públicos devem adquirir os insumos necessários. O kit de genotipagem deve ser direcionado aos centros de saúde. A estrutura, principalmente primária de saúde, deve treinar os profissionais para exames de colposcopia, nos quais o médico visualiza o colo com lente amplificada. À medida em que nós utilizamos a pesquisa do HPV oncogênico, vamos aumentar muito a indicação das colposcopias.
DIARINHO: Esse processo de modelo de rastreamento é caro? O que precisaria para implantá-lo?
Sommacal: O rastreamento biomolecular é muito mais oneroso que o citológico. Mas aqui nós estamos falando em salvar vidas. Então o que no início é bem mais oneroso, com o tempo nós vamos minimizar, porque a citologia precisa ser repetida anualmente, muitas vezes, enquanto para toda aquela população que for negativa na pesquisa do HPV de alto risco oncogênico, essas mulheres passarão a fazer o exame somente a cada cinco anos, e não anualmente. A partir daí, o custo vai baixando muito. E como vamos estar rastreando o câncer numa fase muito precoce, diminuiremos os milhões de reais que nós gastamos com internações demoradas, cirurgias de alta complexidade e de alto custo, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e tudo o que envolve um câncer avançado. Os benefícios concretos são a maior detecção de lesões, redução de casos avançados, otimização de recursos e, sobretudo, redução direta da mortalidade.
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DIARINHO: Há alguma cidade despontando no sentido de identificação precoce da doença em SC? O senhor teria exemplos ou poderia citar se há avanços aqui no litoral norte catarinense?
Sommacal: Lamentavelmente, em Santa Catarina, hoje, de 70% a 74% dos casos de câncer de colo diagnosticados são em mulheres jovens, muito jovens, e em estágios muito avançados. Nem cirurgia mais podemos fazer. Então o impacto é muito grande: a primeira causa de morte em mulheres até os 36 anos por câncer e a segunda causa de morte em mulheres até os 60 anos por câncer. É uma situação dramática. O exemplo que estamos seguindo vem de Indaiatuba, pequena cidade de SP, onde um professor da Unicamp implantou esse sistema, apoiado pelo gestor da cidade, com resultados muito positivos. Aqui, em SC, não temos nenhuma experiência via estado; temos em nível privado, que não conta.
DIARINHO: Estamos em ano eleitoral. Não seria importante fazer com que os candidatos a governador de SC olhassem com mais atenção a questão do câncer, inserindo-a em seus planos de governo?
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Sommacal: Sim. Isso passa pela gestão em saúde. Eu já conversei com secretários de saúde, com deputado estadual, com vereador, com o Ministério Público, o Conselho Regional de Medicina. Estamos procurando todos os gestores para que a gente possa avançar. O governo do estado é, talvez, bastante conservador no que diz respeito à questão de vacinas. E a questão do câncer de colo, como todos bem sabem, passa por vacinas. Eu estou tentando sensibilizar todo mundo, pois essa chamada da OMS para a sua erradicação até 2035 passa por um programa amplo de vacinações. E nós temos um problema muito sério quanto à questão da vacina, um problema de todo mundo. E só força de vontade e reuniões não vão fazer com que o câncer diminua. Anote: 90% das nossas mulheres em idade precisam estar vacinadas, 70% das mulheres em idade de rastreamento, ou seja, 25 a 65 anos, devem estar sendo rastreadas por método de alta sensibilidade, como é a genotipagem, e 90% das lesões precursoras devem ser tratadas. Se não for algo estrutural, se não for algo in loco, nós não obteremos esse sucesso.
Juvan Neto
Juvan Neto; formado em Jornalismo pela Univali e graduando em Direito. Escreve sobre as cidades de Barra Velha, Penha e Balneário Piçarras.
