O professor Rogério Corrêa, novo reitor da Univali, conversou com a jornalista Fran Marcon e o colunista JC sobre os desafios à frente da maior universidade não pública de Santa Catarina. Rogério falou sobre educação, investimentos, expansão, entre outros temas.
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O senhor é químico de formação e chegou à Univali em 1993. Por que decidiu construir sua trajetória acadêmica na Univali?
Rogério: Quando eu estava fazendo faculdade, iniciando o mestrado, as pessoas me perguntavam: “O que você vai fazer da vida depois de formado?” Você vai para a indústria, vai para a academia? Eu disse: “Eu vou pra Univali, em Itajaí, porque lá eles vão montar um curso de Farmácia e vou atuar como professor e pesquisador”. Eu fui o primeiro professor a ser contratado pelo curso. Vieram me procurar lá na Universidade Federal e eu acabei, obviamente, aceitando o convite. Estou muito feliz onde eu estou e gosto muito do que eu faço. [O senhor foi eleito com 99,2% dos votos. O resultado representa a consolidação da gestão da qual o senhor fazia parte?] Sem dúvida alguma. Essa é uma votação de aprovação do caminho que a universidade passou a tomar depois de 2018. Nós tínhamos muitos nomes qualificados na nossa gestão. Eu me apresentei, fui convidado para isso, aceitei o convite e aqui estamos. [Era um desejo seu ser reitor?] Nunca pensei na figura do reitor, mas sempre pensei em colaborar com a gestão. Dos meus 33 anos de universidade, em 28 eu já participo da gestão. [Qual o desafio de dar continuidade à gestão do professor Cechinel?] O desafio é enorme, tanto que eu consegui convencê-lo a não sair. Ele acabou criando conexões, um networking extremamente importante para a Univali e nós não podíamos prescindir dessa figura, dessa força, dessa moral que ele nos deu enquanto instituição. Consegui convencê-lo a ficar.
"O destaque é a Medicina Veterinária, que devemos lançar em BC"
O senhor destacou três eixos para a sua gestão: transformação, inovação e integração. Como esses pilares serão colocados em prática no dia a dia?
Rogério: Nosso desafio é tornar os nossos processos fluidos, ágeis e que a universidade possa dar respostas para a comunidade de forma efetiva e rápida. A gente precisa transformar os nossos processos. A inovação tem sido um pilar desde 2018. Não existe inovação sem tecnologia. Precisávamos realmente assumir esse papel da universidade enquanto uma instituição inovadora. [A integração é com a comunidade interna ou externa?] Com as duas, mas o desafio maior é com a comunidade externa. O professor Cechinel fez um trabalho fantástico, literalmente derrubando os muros da universidade. Isso tem feito com que o nosso diálogo com esse meio produtivo seja muito melhor e que a formação do nosso aluno também seja melhor.
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"O professor Cechinel fez um trabalho fantástico, literalmente derrubando os muros da universidade"
A Univali superou dificuldades financeiras e hoje apresenta indicadores de estabilidade e crescimento. O que foi feito pra reequilibrar a instituição?
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Rogério: Acho que a principal estratégia foi a transparência. Nós fizemos uma série de encontros com setores representativos da sociedade, câmara, prefeitura, CDL, ACII, no sentido de mostrar a real situação da universidade, como ela funcionava, quais eram os problemas e quais eram as qualidades que ela tinha. Tivemos uma aproximação muito forte com o Ministério Público também. [Qual era a situação da Univali naquela época?] Falimentar. Era uma situação desesperadora. Nós encontramos uma dívida de mais de R$ 100 milhões, contas trancadas, limites de contas cancelados pelos bancos e questionamentos quanto a balanço... [Qual a situação hoje?] Hoje, os bancos nos procuram, nos fazem ofertas, nós tivemos investimentos da ordem de R$ 100 milhões, ou seja, do que tínhamos de dívidas nós fizemos de investimentos. Temos uma dívida, mas absolutamente controlada. [Qual foi a decisão mais difícil na gestão da qual o senhor participou?] A mais difícil de ser tomada foi no primeiro ano onde nós tivemos as demissões. Era absolutamente inviável continuar com o quadro de colaboradores que tínhamos. Nós tínhamos, por exemplo, 18 mil alunos; hoje temos 26 mil, e o número de colaboradores era praticamente o mesmo, em torno de 2,5 mil. [Como administrar uma estrutura desse porte mantendo qualidade acadêmica?] Aquela velha conta que se faz em casa: não posso gastar mais do que eu ganho. Nós temos limite para a folha de pagamento, ou seja, isso também é fiscalizado pelo MP. Nós não podemos ultrapassar um determinado percentual. Nós temos que dar conta dos investimentos necessários, a manutenção da estrutura e a expansão. Esse trabalho do reitor e da equipe administrativa é diuturno. Você tem que estar analisando as contas, tem que ser muito inteligente na hora de fazer triagem do que é necessário, do que não é, do que pode esperar, do que não pode esperar. [E tem conseguido manter a média salarial dos professores?] Nós temos mantido a média salarial, temos respeitado o dissídio coletivo, ou seja, feito os ajustes anuais.
"Era absolutamente inviável continuar com o quadro de colaboradores que tínhamos"
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A Univali vai lançar ou extinguir algum curso?
Rogério: Recentemente um curso que deixamos de ofertar, bastante tradicional, foi o de Turismo e Hotelaria. [Por quê?] Porque não houve mais procura pelo curso. Do presencial nós passamos para o EAD e do EAD a gente parou a oferta. Hoje tem tecnólogo em turismo, tem os profissionais da área de gestão como administração, logística, comércio exterior que também atuam de certa forma na área do turismo. Precisa-se reinventar isso enquanto curso universitário e a gente precisava desse tempo para remoldar e poder novamente ofertar. [Tem esse desejo?] Tem essa perspectiva, de curto prazo, de fazermos uma oferta do curso na forma EAD. E pra sentirmos novamente o mercado, já com uma matriz curricular nova e havendo a demanda, passar também pro presencial. Sobre cursos novos, eu acho que o grande destaque é a Medicina Veterinária, que devemos lançar em Balneário Camboriú. É um curso que fizemos todo um estudo de mercado e ele se justifica muito. [Por que Balneário?] Pela questão do campus. Em Itajaí, hoje, nós temos um problema muito sério de espaço físico, coisa que Balneário nós ainda temos uma certa folga e conseguimos investir nisso. Um fator que também facilitou foi o fato de, recentemente, nós conseguirmos obter a nossa autonomia universitária para o lançamento de cursos. Ou seja, não preciso mais mandar um processo para o MEC e esperar a aprovação, o que, às vezes, levava três anos. Nós fizemos, sim, um protocolo no MEC, mas já podemos lançar. Isso só foi possível pelo conceito 5, que conseguimos no MEC.
"Em Itajaí, hoje, nós temos um problema muito sério de espaço físico"
A Univali investe na expansão, com a construção de dois novos edifícios e a unidade no Sapiens Parque, em Floripa. Qual a importância dos projetos?
Rogério: Em Itajaí essas expansões foram feitas pela absoluta necessidade. No atual momento nós não temos mais salas de aula. Estamos com matrículas abertas e vamos ter que, inclusive, usar os nossos auditórios e outras salas para acomodar os alunos. Esse é o que o pessoal chama de bom problema. A forma de reagir foi a construção desses 7 mil m² que prevê 28 salas de aula, área administrativa, área de lazer, galeria, enfim, uma série de estruturas. Nós temos o primeiro bloco que deve ficar pronto em junho, já com 14 salas, e o outro bloco em novembro, com mais 14, acho que aí já conseguimos contemplar bem. E no Sapiens, como o próprio programa diz, a inovação é um pilar. [A Univali segue a parceria com o Elume, o Distrito de Inovação de Itajaí?] Sim! Itajaí é a nossa sede, com toda certeza vamos estar lá no Elume e aumentar nossa participação.
"Nós estamos batendo 6 mil alunos no programa Universidade Gratuita"
O governo do estado oferece bolsas de 100% no programa Universidade Gratuita. Qual é o impacto desse programa pra Univali e pros estudantes?
Rogério: Nós estamos batendo 6 mil alunos no programa Universidade Gratuita e, de fato, está possibilitando que pessoas que não teriam condições de estar na universidade, agora estejam. Paralelo a isso, a própria universidade tem dado um auxílio para os alunos mais carentes. O programa dá 100% de bolsa, mas às vezes o aluno chega e não tem dinheiro pra comer. Tem que ficar o dia inteiro na universidade. Ele vem do Santa Regina a pé, porque não tem dinheiro pra pegar um ônibus.
O Conseg de BC alega que a Univali não cumpriu as contrapartidas previstas na lei 1590/1996, que incluíam a ampliação do campus, novos cursos, construção de um hospital-escola e de um centro de convenções na doação do terreno do bairro dos Municípios. Como o senhor vai resolver o impasse?
Rogério: Está sendo resolvido. Houve um problema de interpretação por parte do Conseg e falta de acesso à documentação. Não foi que a universidade não quis construir, foi porque não houve um acordo com o município também na época. Nós doamos o terreno onde está o Ruth Cardoso. Aquele terreno era da Univali. Houve esse acordo para substituir essa necessidade de construir o hospital. Nós construímos um auditório e colocamos à disposição do município, tanto que nunca cobramos o acesso quando é do poder público... Esses acordos ocorreram, estão registrados e me parece que num primeiro momento o Conseg não teve acesso a essa documentação e se baseou na primeira lei. Mas isso tudo já foi encaminhado, já foi resolvido.
"O destaque é a Medicina Veterinária, que devemos lançar em BC"
A universidade tem forte atuação na prestação de serviços e no relacionamento com empresas como Portonave, Porto de Itajaí, Petrobras e WEG. Quais outras parcerias se destacam?
Rogério: Acredito que a gente tem uma inserção forte no pool logístico de Itajaí. Nós, por exemplo, devemos ter quase 10 salas parceiras de empresas dessa área da logística. Com o poder público municipal, nós temos muitos projetos. Acho que um destaque é o PGO - Programa de Gestão de Obras - que faz a fiscalização, a gestão no que se refere aos relatórios de obras, relatórios técnicos de obras que foram relacionadas àqueles financiamentos grandes com o Fonplata, por exemplo. Nós temos 12 projetos com a Weg de mais de R$ 20 milhões.
Em 2022 a Univali assumiu a responsabilidade pelo restauro do Herbário Barbosa Rodrigues, mas a obra não teve início. O que falta?
Rogério: A obra é bastante grande, até porque é uma edificação que exige cuidados muito especiais. [...] Nós temos uma série de emendas parlamentares aprovadas pra, digamos assim, fechar o orçamento final da reforma do Herbário. Só que se eu der o start antes de essas emendas serem liberadas, não vou conseguir prestar contas depois. Eu não vou conseguir usar o recurso dessa emenda. [Qual o valor da reforma?] R$ 5 milhões.
Um diferencial da Univali é oferecer vagas desde a pré-escola até o pós-doutorado. Como essa estrutura fortalece o vínculo com a comunidade?
Rogério: A gente tem tantas histórias lindas de pessoas que iniciaram lá na pré-escola e estão saindo do doutorado dentro da universidade. Muitas vezes se questionou a pertinência de se manter pré-escola, ensino fundamental, porque normalmente são atividades que não se pagam financeiramente. Elas demandam muito mais investimento. Hoje, nós temos uma situação social complexa que são os alunos que têm necessidades especiais. Tem colégios que não aceitam. E ainda dizem: vai para a Univali, porque a Univali aceita. [Como está o processo de internacionalização com programas de dupla titulação...] A internacionalização é algo importantíssimo e que não tem mais volta. Estamos chegando à tripla, em alguns casos, tanto na graduação quanto no mestrado e doutorado, ampliando cada vez mais esses horizontes, indo para outros países. [Intercâmbio a universidade tem realizado...] Na área de saúde, por exemplo, nós estamos recebendo enfermeiras da Noruega que vêm pra cá porque lá não tem essa casuística rica que nos dá o SUS. Pra nós é interessante ir pra lá e ver a tecnologia, por exemplo, os robôs. O nosso aluno tem esse tipo de experiência e eles, quando vêm pra cá, ficam maravilhados de poder botar a mão na massa aqui no SUS.
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