ALERTA

Guerra no Irã: alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

Mas há o risco de o efeito ser o contrário e haver uma corrida ainda maior pela exploração de petróleo e gás

O estreito de Ormuz situa-se entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, separando o Irã (ao norte) da Península Arábica (ao sul) (CREDITO NASA GSFC-Domínio Público)
O estreito de Ormuz situa-se entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, separando o Irã (ao norte) da Península Arábica (ao sul) (CREDITO NASA GSFC-Domínio Público)
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Agência Pública | Por Giovana Girardi | Edição: Mariama Correia

Dois meses após os Estados Unidos invadirem a Venezuela, por interesse confesso de Donald Trump nas maiores reservas de petróleo no mundo, o ataque dos americanos e de Israel ao Irã traz um alerta ...

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Dois meses após os Estados Unidos invadirem a Venezuela, por interesse confesso de Donald Trump nas maiores reservas de petróleo no mundo, o ataque dos americanos e de Israel ao Irã traz um alerta estridente para a diplomacia climática do mundo: a de que os combustíveis fósseis, de seguros, não têm nada.

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Este costuma ser um dos principais argumentos de quem defende que ainda não podemos prescindir de petróleo e gás – apesar do claro dano que sua queima desenfreada há mais 150 anos nos trouxe, ao aquecer perigosamente o planeta. A ideia de que sem eles corremos o risco de perder segurança energética. De que essas fontes são muito mais estáveis e confiáveis do que as renováveis, como eólica e solar. Pelo contrário. Manter a dependência dos fósseis é o que deixa nossos sistemas energéticos inseguros e nossas economias fragilizadas.

Pois veja o tamanho da encrenca agora. O Irã, que é um dos maiores produtores de petróleo e tem uma das maiores reservas – exportando quase toda a sua produção para ninguém menos que a China –, também controla o Estreito de Ormuz, uma faixa de apenas 34 km que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico e é a principal rota de transporte do petróleo produzido no Oriente Médio. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo do mundo.

Na tarde desta segunda-feira, 2 de março, o Irã fechou o estreito e ameaçava incendiar navios que ali estivessem. Antes mesmo disso, o tráfego de petroleiros já tinha despencado e toda a situação da guerra já estava elevando os preços do petróleo no mundo. 

Por outro lado, em reação aos ataques de Estados Unidos e Israel, o Irã atingiu aliados dos dois países no Oriente Médio. Foram lançados drones contra a maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita. E o Catar teve de suspender sua produção de gás natural liquefeito (GNL) depois de ser atingido. Só que o Catar é um dos maiores produtores de GNL do mundo, principal fornecedor da Ásia, em especial da China e, em menor parte, da Europa.

“A nova guerra contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz expõem os custos horrendos de um mundo preso aos combustíveis fósseis. Quando a segurança energética global pode ser abalada por um único ponto crítico, isso demonstra o quão instável e arriscada é nossa dependência do petróleo e do gás”, afirmou, por meio de nota, Olivia Langhoff, diretora administrativa da ONG 350.org, focada em combustíveis fósseis.

Segundo ela, somente as fontes renováveis fornecem energia produzida internamente “que permanece segura e acessível, independentemente dos choques geopolíticos”.

Tudo isso na conta, e quem já está esfregando as mãos são os exportadores de GNL dos Estados Unidos, país que lidera a produção mundial do combustível e deve se colocar como alternativa de fornecimento.

“Esta incursão é uma mina de ouro para os exportadores de GNL dos EUA e uma catástrofe para todos os outros. O Catar suspendeu as exportações após suas instalações industriais terem sido danificadas. Isso nunca aconteceu nos 30 anos de história das exportações de GNL do Catar. A perda de volume em termos de oferta é potencialmente comparável à perda de gás russo por gasoduto para a Europa em 2022”, afirma Seb Kennedy, analista global de gás da EnergyFlux.news, agência europeia especializada em energia e, especificamente, o mercado de gás natural e GNL.

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Kennedy compara o momento atual com outra situação de guerra, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e o suprimento de gás russo para a Europa foi cortado. De lá para cá, a Europa buscou diversificar suas fontes de energia, mas é justo dizer que duas guerras seguidas pouco trouxeram de aprendizado para o mundo superar a dependência de combustíveis fósseis. Nem para mostrar que a confiança no gás como um combustível de transição – ele é menos poluente, por exemplo, que o carvão, mas sua queima ainda emite gases de efeito estufa – pode ser um tiro no pé.

“Historicamente, os combustíveis fósseis foram vistos como promessa de entregar quatro coisas: liberdade, democracia, crescimento e, acima de tudo, segurança. Esta guerra ilegal e desnecessária é uma lembrança de que isso é obviamente falso e, pelo menos em termos de segurança, é uma ilusão”, afirma Pauline Heinrichs, pesquisadora de Estudos de Guerra, com foco em clima e energia, do King’s College London.

“Nossa estratégia de segurança atualmente se resume a responder às crises induzidas pelos combustíveis fósseis, e me refiro tanto aos próprios combustíveis fósseis quanto às potências que dependem deles para sustentar seu poder, incluindo os Estados Unidos. E isso tem um custo para as pessoas, o planeta e a segurança. Se quisermos levar a estratégia de segurança a sério, precisamos reduzir a insegurança causada pela dependência dos combustíveis fósseis”, diz.

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Heinrichs e Kennedy conversaram com a imprensa internacional que cobre a crise climática nesta segunda para analisar os possíveis impactos da guerra no Irã aos mercados globais de energia, indo muito além dos países diretamente envolvidos no conflito, e como isso pode respingar nos esforços de transição energética necessários para o combate ao aquecimento global.

Se, por um lado, essa situação poderia funcionar, finalmente, como um choque de realidade para abalar essa ilusão de segurança – de modo a, talvez, acelerar a transição energética –, por outro, os preços mais elevados do petróleo podem gerar o efeito contrário, incentivando ainda mais os outros produtores de combustíveis fósseis a tentar se colocar como alternativa para o fornecimento do produto para Europa e Ásia. Tentar ocupar as lacunas abertas pela guerra.

“O argumento a favor de um mais fontes de fornecimento sempre surge quando a oferta é interrompida. A verdadeira questão é se os mercados de capitais e o retorno sobre o investimento apoiam o investimento em projetos de exploração e produção em bacias de hidrocarbonetos em fase de maturação”, pondera Kennedy.

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Vejamos a situação da China. A invasão dos EUA à Venezuela já tinha prejudicado o acesso dos chineses ao petróleo venezuelano. Agora, ao iraniano. De acordo com o site americano Politico, 17% da importação de petróleo pela China vinha dos dois países. Por mais que os chineses estejam investindo pesado na eletrificação dos transportes e em baterias para armazenar a energia de fontes renováveis, não será num piscar de olhos que vão substituir uma fatia tão grande de combustível. 

Se os preços do petróleo dispararem, como estimam alguns analistas, haverá um impacto também sobre os países mais pobres que hoje dependem da importação dos combustíveis por não terem localmente outras fontes de energia.

“Isso expõe o real preço da nossa dependência de combustíveis fósseis. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e a inflação global disparou na esteira da alta do petróleo, 71 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento foram empurradas para a pobreza, segundo o Fórum Econômico Mundial. Os lucros extraordinários das petroleiras na ocasião foram revertidos para seus acionistas e não para a transição energética. O mundo ficou mais pobre, mais inseguro e mais instável climaticamente”, pontua a rede brasileira Observatório do Clima.

“Mais uma vez, as famílias pagarão o preço por meio da inflação impulsionada pelos combustíveis fósseis: custos de combustível mais altos, contas de energia crescentes e, consequentemente, alimentos mais caros. Tudo por causa de um sistema atrelado a uma indústria volátil e repleta de conflitos”, complementou Olivia Langhoff.

Tudo vai depender do prolongamento do conflito, que, agora, é impossível de prever. Bem no momento em que havia uma expectativa de que o mundo talvez começasse a desenhar o caminho para abandonar a dependência dos combustíveis fósseis. Era isso que se esperava da Conferência da Clima da ONU que ocorreu em Belém, a COP30, no fim do ano passado. E é sobre isso que estão debruçados especialistas e diplomatas brasileiros, em uma tentativa de propor saídas tanto para esse debate em nível internacional quanto para a transição energética do próprio Brasil. 

Em abril, também será realizada na Colômbia a primeira Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. É de se esperar que as guerras em curso vão direcionar os debates. Só podemos torcer para que seja no rumo de buscar formas de diminuir a dependência dos fósseis. E não que façam com que os países se fechem ainda mais nas velhas crenças de que só o domínio de petróleo os deixará seguros. 

Não vai. É o que tanto as guerras quanto os impactos cada vez piores das mudanças climáticas deixam cada vez mais evidentes. Vide as mais de 70 mortes em Minas Gerais recentemente.

 



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