Diz aí, Maurício!

"A galinha dos ovos de ouro é a natureza"

Maurício Girolamo | Fundador da Agência Interpraias e vice-presidente do conselho gestor da Apa Costa Brava

"A Interpraias já é um dos lugares mais seguros do Brasil"  (foto: Fran Marcon )
"A Interpraias já é um dos lugares mais seguros do Brasil" (foto: Fran Marcon )

Maurício Girolamo, fundador da Agência Interpraias, vice-presidente do conselho gestor da Apa Costa Brava e profissional com mais de 25 anos de atuação no mercado imobiliário, foi entrevistado pelos jornalistas Fran Marcon e João Batista. Ele falou sobre a criação da entidade, seus objetivos e missão para a região da Interpraias.

 

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O que motivou a criação da Agência Interpraias e qual é o principal objetivo da entidade?

Maurício: A Agência Interpraias está numa unidade de conservação, que é a APA Costa Brava. Laranjeiras está fora da APA, mas praticamente todas as praias têm as mesmas características. Essa foi uma região que ficou trancada por muitos anos por conta da legislação, por ser uma unidade de conservação e não ter cumprido os ritos para ter aprovada a sua legislação. Ela tem uma legislação paralela ao plano diretor e a gente teve que batalhar muito para ter essa segurança jurídica. Ela só foi aprovada em 2020. Demorou quase 21 anos para ser aprovada, tiveram várias tentativas de vários conselhos. Nisso, a gente teve que aprender a trabalhar em comunidade, porque a nossa região já era muito restritiva. As pessoas que compraram lá atrás já sabiam que era restritivo, mas teve conselhos que quiseram deixar ainda mais restritivo. A gente concordava com uma restrição, em fazer um lugar legal, mas não tanta restrição. Começamos a nos organizar em associações, fazendo, por exemplo, base de policiamento, posto de saúde... A gente começou a se envolver na comunidade e entendeu que a região poderia ter um crescimento saudável se tivesse uma legislação. [O senhor é natural de Balneário Camboriú?] Não. Moro há quase 30 anos em Balneário Camboriú, sou gaúcho. Morei 20 anos em Blumenau e agora moro no paraíso, que é Balneário Camboriú. [Qual o principal objetivo da Agência Interpraias?] Em 2020 conseguimos finalmente aprovar, no final de dezembro, a legislação e começamos a pensar qual era o melhor futuro para a região. Começamos a pensar na Agência Interpraias e hoje está virando uma realidade. Quem está iniciando a agência é um grupo de pessoas, empresários, moradores, empreendedores... A gente está com essa ideia inicial de trazer eles para dentro, para que possam investir e a gente consiga fazer todas as etapas que quer. O principal hoje é a segurança. A Interpraias já é um dos lugares mais seguros do Brasil, mas pode ficar ainda mais segura.

 

"A Interpraias já é um dos lugares mais seguros do Brasil"

 

A região da Interpraias fica numa área de APP. Como conciliar desenvolvimento imobiliário com preservação ambiental?

Maurício: As regras já estão definidas. Existe um plano de manejo de 700 páginas que foi muito bem pensado. Ele foi iniciado pelo professor Marcus Polete, de Itajaí, depois várias entidades colaboraram e ele passou de 500 para 700 páginas. Ele é a diretriz. A gente não pode pensar em descaracterizar o que está escrito lá. Por exemplo, muitas pessoas dizem: “daqui a pouco vai ter prédios lá...”. Eu digo: “não, não vai ter prédios”. Primeiro: quem gere é o conselho gestor. Esse conselho tem 27 entidades, como prefeitura, universidades, associação de moradores, OAB, Creci, Ima, que é o órgão licenciador, e o ICMBio, que controla as unidades de conservação. Por conta da legislação, ele é paritário. Ele não pode puxar nem pra construção civil, nem para ONGs, nem para a prefeitura. Tem que estar sempre olhando o plano de manejo e vendo quais são as diretrizes. O Plano Diretor praticamente não entrou ali, porque a gente já tinha votado a legislação em 2020. É uma legislação que deveria ser seguida em outros lugares, porque foi pensada nos mínimos detalhes para ter esse equilíbrio. Você deixa construir um pouco, mas tem que preservar mais. Tem que ter fachada verde, colocar itens de sustentabilidade na construção. Para ter uma ideia, o máximo que você pode construir na região é 40% do lote, que é a parte mais baixa, com até três andares. Mas, para chegar nesse máximo, você tem que manter outros 40% de vegetação dentro do lote. [E quem fiscaliza o cumprimento do plano de manejo?] O papel de fiscalizar é da prefeitura. Eu acho que ela tem que ter olhos para aquele lugar, ir a fundo, não só na licença, mas depois da licença, acompanhar a obra e também depois, porque sempre tem aquele puxadinho que o cara faz.

 

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"A Interpraias já é um dos lugares mais seguros do Brasil"

 

As praias agrestes têm um perfil bem diferente da praia central. Qual é o modelo de desenvolvimento que vocês defendem para a região?

Maurício: A linha está traçada: a gente vai ter baixíssima densidade. Isso foi calculado no plano de manejo. A gente tem 20% do território de Balneário Camboriú. Todo mundo fala que é adensado, vertical e tal, mas esses 20%, fora as outras morrarias, estão dentro de um modelo de conservação. Se você somar Laranjeiras e Morro da Aguada, tem bastante área verde. A gente pretende manter isso e desenvolver de uma forma correta. A gente não matou a galinha dos ovos de ouro. A galinha dos ovos de ouro é a natureza. Todo mundo entende que está vindo empreender em uma região restritiva, mas com regras muito claras. Como a gente ficou muito tempo travado, ela não desenvolveu de forma errada.

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"A gente não matou a galinha dos ovos de ouro"

 

A Agência Interpraias foi fundada semana passada e gerou um certo desconforto com alguns presidentes de associações de moradores, que alegaram não ter sido convidados. Houve falta de convite?

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Maurício: A gente sempre trabalhou em conjunto com as associações. Tanto que todos os requerimentos que a gente encaminhava à prefeitura, nos últimos 10 anos, eram assinados por todas as associações. Por questões estratégicas, no ano passado, a gente fez um lançamento para apresentar a ideia da Agência para os incorporadores, que eram as pessoas mais interessadas inicialmente na região. Agora, fizemos um novo encontro com incorporadores, moradores e proprietários de grandes áreas. O passo seguinte seria convidar as associações. Não tem nada contra ninguém. A gente tem que entender que, para fazer o que queremos, principalmente na área de segurança, precisa de dinheiro. A ideia inicial é instalar 100 câmeras e depois chegar a 300. O que houve foi um pouco de ciúme. Acabou saindo matéria no DIARINHO, eles viram e gerou essa reação. [Mas tinha representantes das associações na reunião?] Tinha, sim. O pessoal do Estaleiro e de Taquaras participou. Já o pessoal do Estaleirinho acabou não indo. Mas a reunião era aberta.

 

"A galinha dos ovos de ouro é a natureza"

 

Quais os cuidados que a Agência toma para que a população se sinta representada?

Maurício: São estratégias. Primeiro fazer um estatuto para a associação, convidar as pessoas e convencer elas a se engajar. Já estamos colocando 100 câmeras na região. [Quantos associados a agência tem hoje?] A gente ainda está estruturando, mas a ideia é fazer uma chamada de capital, para cada empresário contribuir com mil reais por mês. Não é um valor pequeno, nem muito grande, mas a ideia é chegar a R$ 30 mil mensais. O investimento anunciado é de R$ 720 mil ao longo de dois anos, principalmente para segurança e também para promover a região. Outra frente que vamos trabalhar é o branding. A ideia da Agência é se apropriar desse nome tão forte, que é Interpraias, e transformar isso em um produto local. Você pega essa região entre Laranjeiras e Estaleirinho, com todos os atributos que ela tem. Você tem parques, tem Bandeira Azul, tem a rota cênica Interpraias, tem destino de casamentos, de esportes, como surfe e ciclismo, e transforma isso em um produto chamado Interpraias. Essa é uma das ideias da associação. Já falamos com a prefeita sobre isso. A prefeitura tem muito a ganhar se apropriando dessa cultura.

 

"A ideia inicial é instalar 100 câmeras e depois chegar a 300"

 

O sistema de monitoramento com cerca de 100 câmeras foi anunciado como uma das primeiras ações da Agência. Como esse projeto vai funcionar na prática e quem vai mantê-lo?

Maurício: É o primeiro projeto, porque entendemos que arquitetura assinada, bons empreendimentos e qualidade das praias, nada supera a segurança. A gente já é seguro hoje. As ocorrências representam cerca de 2% do que acontece no município de Balneário Camboriú, mas a ideia é dizer: a Interpraias é uma das regiões mais seguras do Brasil. A gente já tem um projeto piloto há dois anos em Taquaras. Tivemos testes em Taquaras, Estaleiro e Estaleirinho. A empresa que atendia Estaleiro e Estaleirinho não correspondeu às expectativas. Já Taquaras funcionou muito bem. Hoje, são 22 câmeras em Taquaras, Laranjeiras tem mais 15, e a Agência vai fomentar esse sistema para chegar a 100 câmeras. O sistema permite integrar câmeras instaladas nas casas das pessoas. Esse sistema é integrado com a guarda municipal e a polícia militar. As câmeras têm identificação facial e OCR, que lê a placa dos veículos para verificar se há algum problema. Também vamos ter totens em pontos mais movimentados. O totem vai ficar instalado e, se alguém perceber alguma ocorrência, pode acionar e abrir uma comunicação direta com a central responsável. [Semelhante àqueles que existem no Pontal Norte?] Não é tão robusto. A gente quer melhorar isso com o tempo. Tem um conselho formado, com nomes como Marcos Gracher, Patrícia Tedesco, Thomas Fischer, Gil Koeddermann, que é consultor ambiental, além de outros empresários. Eu também faço parte do conselho.

 

"Os incorporadores daqui pra frente vão começar a chamar a região de Interpraias"

 

Na época da discussão do plano de manejo, a preocupação era que as regras poderiam travar o desenvolvimento. Como avalia o plano?

Maurício: Eu entendo que o resultado final do plano foi muito bom. Hoje existem basicamente dois ordenamentos. Na parte mais plana, até a cota 25, é permitido construir apenas 40% da área, com até três andares. Já da cota 25 até a cota 100 do morro, a ocupação é limitada a 10%, com até dois andares. Antes, era permitido dois pavimentos e meio. Para construir tanto na parte mais alta quanto na parte mais baixa, é preciso cumprir uma série de exigências de sustentabilidade no empreendimento ou na casa. Entre elas estão ventilação cruzada, telhado verde e captação de água da chuva. Dos 13 itens da lista, que ainda pode ser ampliada, é obrigatório cumprir pelo menos seis. Isso garante o chamado Selo Interpraias. Hoje, por exemplo, uma casa no morro precisa ser mimetizada, ou seja, integrada à paisagem. Antes, era comum fazer casas com dois pavimentos e meio, com o último avançando para frente e pintadas em cores chamativas, o que destoava da paisagem. Agora, a proposta é diferente. As casas devem ser integradas ao ambiente natural, com ocupação reduzida, pavimentos desencontrados e cores que se misturem à vegetação.

 

"O plano de manejo permite o desenvolvimento, mas de forma integrada e inteligente"

 

Como o senhor avalia o fato de a praia do Pinho deixar de ser de naturismo?

Maurício: Na minha opinião, não posso falar pela associação, fui a favor de retirar o naturismo. Tenho imóvel ali há 25 anos e nunca tomei banho de mar na praia do Pinho. Nunca levei a minha família até lá. Sempre foi uma praia reservada a poucas pessoas. Esse grupo usufruiu por mais de 30 ou 40 anos. Eu sempre tive um pouco de inveja, mas não me dispunha a ir lá sem roupa. Quantas pessoas você conhece que são naturistas? Eu não conheço nenhuma. Conheço muito mais gente que prefere ir à praia de roupa. Agora isso faz parte do passado, e a praia se transformou em um espaço aberto a todos. Muito mais gente vai poder usufruir, não apenas o grupo dos naturistas. [Tem empreendimento previsto para o Pinho?] As praias de Taquaras, Pinho, Estaleiro e Estaleirinho, desde o final de 2020, já têm uma legislação que permite fazer empreendimentos. A legislação já estava lá. Poderia ser feito tanto com naturismo quanto sem naturismo. Não houve nenhuma mudança para beneficiar isso. [Tem algum empreendimento para se instalar lá?] Não que eu saiba.

 

"A ideia da Agência é se apropriar desse nome tão forte, que é Interpraias, e transformar isso em um produto local"

 

A lagoa de Taquaras tem um ponto histórico considerado impróprio para banho. O que causa a falta de balneabilidade?

Maurício: A gente tem um problema ainda a ser resolvido, que é a famosa Lagoa de Taquaras. Eu acho que Balneário Camboriú tem 100% de coleta de esgoto. A nossa região também está totalmente saneada. Eu estive conversando com o Nelson, secretário de Meio Ambiente, e ele disse que eles estavam com um projeto muito interessante, trazido do exterior, para sanear aquela lagoa. Ainda é um pouco obscuro e não se sabe exatamente o que acontece.

 

"A prefeitura tem muito a ganhar valorizando a Interpraias e se apropriando dessa cultura"



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