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Como surgiu o projeto Ressignificando Vidas e quem pode participar dele?
Bel: O projeto surgiu no início do ano de 2023. Em 2022, a minha filha desencarnou num acidente de moto, vindo do trabalho em Itapema, na BR 101. Uns quatro dias antes, ela falou muito sobre a morte. Nós não éramos espíritas. Ela falava sobre lei da atração, universo, sinais, conexão, que nada era por acaso, que tudo estava interligado. Ela me falava sobre Deus, que Ele era todo esse universo, e enviava sinais. Um bichinho que pousasse na gente era um sinal de Deus, uma mensagem. Ela olhou muito sério pra mim e falou: “Mãe, nós precisamos ficar atentos aos sinais”. Ela insistiu nessa conversa. Eu falei: “Eu acredito”. Ela olhou pra mim de novo e disse: “Mãe, fica atenta aos sinais”. Depois ela olhou pra mim e falou: “Mãe, sabias que eu não tenho medo da morte?!”. Eu falei: “Eu tenho, porque eu não tenho certeza...”. Ela falou: “Eu não tenho dúvida, eu tenho certeza que a morte não existe, que a gente só faz uma passagem, que isso aqui é só matéria e que eu vou continuar sendo a Desirée, eu só vou passar pro outro lado...”. “Mãe, pra mim não faz diferença estar aqui ou do outro lado. O meu único medo é a dor de quem fica, mas principalmente a tua. Tenho medo de você não aguentar”. Ela falou: “Ah, mãe, sabias que a gente pode se comunicar com quem já partiu?”. Ela disse: “Basta estudar”. Quatro dias depois ela desencarnou e quando chegou a notícia pra mim, a primeira coisa que eu pensei foi isso: “A gente pode se comunicar, basta estudar”.
"Dez meses depois do desencarne da minha filha, nós estávamos fazendo a primeira psicografia em Itajaí"
Tem algum tempo para se conseguir a comunicação com uma pessoa desencarnada?
Bel: Na hora que eu soube, antes mesmo do corpo chegar no velório, eu agarrei na minha irmã, que acreditava e falei: “Me leva onde tu vai, porque eu preciso me comunicar com ela”. Durante todo o velório era como se ela falasse comigo: “Mãe, eu estou aqui”. Eu acreditava naquilo com muita força, mas existe aquela dor. Não vou dizer mais do luto, mas a perda física. Eu dizia pra ela, em pensamento: “Eu tenho certeza que tu estás bem, eu não tenho dúvida que tu aceitasses a morte, mas esse corpo é a única coisa que eu tenho nesse momento...” Eu comprei o Livro dos Espíritos, o livro dos médiuns, eu devorei. Eu queria entender o processo. Eu passava a noite lendo, estudando. Eu entendi que não existe tempo, depende de como o espírito partiu. Eu acreditava que a minha filha era capaz de se comunicar com rapidez. Lendo tudo aquilo, eu só pensava: psicografia.
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"Ninguém perde um filho à toa"
Como você conheceu o médium Nilton Stuqui? Você já tinha contato ou conhecia o trabalho de outros médiuns que atuam com psicografia?
Bel: Eu sabia um pouco sobre Chico Xavier, sobre as cartas, mas não profundamente. Eu sabia que existia psicografia, só que eu pensei: o Chico morreu. Eu não sabia da possibilidade de outros médiuns escreverem. Eu comecei a estudar e pesquisar. Até que descobri que tinha o Orlando, em Curitiba. Eu sentia ela dizer pra mim: “Mãe, fica calma, vai dar tudo certo” [Você sente ou você meio que ouve a voz dela dentro da tua consciência?] Eu não ouço a voz. É como se eu tivesse outro pensamento falando comigo, dentro do meu cérebro. Lá, no meio da psicografia, eu ouço: “Fica calma, mudança de plano, não é mais aqui...” Eu entrei em pânico, comecei a chorar porque eu entendi que não receberia a carta. Quando comecei a chorar veio uma mãe que havia perdido o filho há três meses, me abraçou e falou: “Não posso ver uma mãe chorando assim”. Ela falou: “Eu passei meu telefone pro teu marido, porque existe outro lugar que também escreve as cartas”. Eu encontrei na fila uma mãe que já estava no quarto ano indo e não recebia a carta... A gente [ela e a irmã] foi pra Minas Gerais. Lá a gente conhece a casa do Chico Xavier. Em cada casa, ela dizia: “Mãe, fica calma, tua carta não é aqui. A tua carta é em São Paulo”. No começo, a gente não quer acreditar, tu ficas na dúvida se o que tá passando na tua cabeça é real, se não é loucura. A gente vai numa casa espírita, do irmão José, e lá sai uma mensagem pra minha irmã. Na mensagem não sai nada pra mim. Sai apenas “um abraço fraterno a todos”. Eu comecei a questionar porque ela não botou nada pra mim. Eu comecei a brigar com ela: “Um abraço fraterno a todos. Puxa! Nem um mãe, eu te amo”. Ela dizia assim pra mim: “Mãe, a tua carta é maior, a tua carta é em São Paulo, aqui é uma mensagem”. Eu pensava: eu fico criando isso pra não sofrer tanto. A gente foi pra uma última casa. Era um médium bem conceituado. Eu saio pra comprar água, porque eu queria ficar sozinha. Uma joaninha pousou em mim. Eu perguntei pra ela: “Foi tu que mandou pra mim?”. Ela falou: “Eu mandei pra te acalmar, não é aqui a tua carta...” A joaninha começou a andar no meu braço, e eu a tirava. Botava ela em cima da jaqueta, ela voltava. Quando ela falou: “Olha, ela é tão linda”. Eu reparei a joaninha tava com o casco quebrado... Eu soltei ela no chão. Eu não recebi a carta e fui pro hotel. No hotel, eu olhei pra jaqueta, que era dela, porque eu carregava a jaqueta dela comigo, a joaninha tava andando na jaqueta. Quando eu vi a Joaninha, eu disse: “Eu já entendi tudo”. [Em São Paulo, você conhece o Nilton?] No outro dia a gente partiu pra Neves Paulista, na casa do Gabriel Martins, que é onde o Nilton psicografa. Eu tava com uma camiseta com a foto da minha filha, com o rosto bem sorridente, quando ele olhou pra mim e falou: “Ela tá muito feliz”. Ele perguntou assim: “Tem alguém contigo?”, “ela escreveu alguma vez?”. Eu falei: "Pra mim não, mas para a tia teve uma mensagem". Quando a minha irmã chegou, ele fala: “A dinda, muito amor”. Só que eu não tinha dito que ela era a dinda. Ela se emocionou e ele: “Muito amor. Essa noite ela psicografa pra gente”. Eu olhei pra camiseta dele e tinha o desenho de uma joaninha. Uma joaninha gigante, que era do projeto de uma mãe de Nova Prata.
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"O teu filho não desencarna jovem, principalmente como a minha filha, que saiu sorrindo de casa e voltou num caixão. Não é à toa isso"
Você recebeu 40 cartas. O que há nelas que o médium não saberia e atesta a autenticidade delas?
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Bel: Não sei te dizer quantas cartas, mas eu já recebi muitas, mais de 40. Naquela noite saíram mais de 50 cartas e aquilo me chocou, porque eu lembrei de Curitiba, que eram pouquíssimas cartas. Quando eu saí dali, eram quatro meses que eu não sabia o que era sorrir. Eu saí gargalhando. Eu ria durante a viagem. [Como você sabia que a carta era dela, que era legítima?] Eu sabia que era pra mim por conta de todos os sinais, quando eu vi a joaninha na camiseta dele, eu não tive mais dúvida de que eu receberia a carta. Quando a gente subiu, ele olhou para mim e falou assim: “Que menina, briguenta pelas causas, né?”. “Muito evoluída, acima da idade. Quer ver pelas causas dos negros, né?”. Meu marido é negro, minha filha tem uma mistura entre mãe branca e pai negro, mas ele estava diante de duas mulheres loiras. Assim que ela desencarnou, eu brigava muito com Deus. Eu ia pra minha janela e eu dizia: “Tu és mau. É maldade tirar um filho de uma mãe. Eu não quero o teu até breve. Porque o teu até breve é mentiroso...”. Na carta ela fala: “Mãe, Deus não é mau, Deus é bom. Eu sei que o até breve, ela coloca aspas, vai demorar. Até lá eu estarei aqui te esperando...” No final a gente comprou o livro que o Nilton escreve. O Nilton psicografa o espírito Gabriel. Eu passei com o livro para a dedicatória, eu olhei pra ele e falei: “Vamos pra Itajaí, vamos pra Santa Catarina”. A minha filha me trouxe até aqui, porque essa joaninha que tu tens na camiseta, ela me mandou antes. Ela me falou que seria contigo por conta da tua joaninha. Ele colocou o telefone dele atrás da minha carta. Eu vim com aquela carta feliz da vida. Vim decidida que eu ia trazer pra Itajaí. [Com o retorno para Itajaí, você iniciou o projeto Ressignificando Vidas?] Quando eu voltei, eu mandei uma mensagem pra ele agradecendo, e ele colocou assim pra mim: “Sua filha é luz”. Isso era novembro, soube que em janeiro eles estariam em Nova Prata. Eu fui pra lá e recebi três cartas: sexta, sábado e domingo. Todas as coisas que eu ia para o hotel à noite pensando, ela me respondia no outro dia. Era muito automático. Eu vejo cartas que falam sobre o tênis que a criança gostava, a minha filha nunca mandou nada disso. Ela dizia assim: “Mãe, nós não estamos aqui pra convencer ninguém de nada, nem provar nada pra ninguém. Cada um tem direito de acreditar naquilo que quer”. O meu marido não acredita e ela botou na carta: “Pai, eu respeito as tuas crenças”. Lá em Nova Prata, eu convidei o Nilton novamente e ele falou: “Bel, precisa de um espaço grande, porque dá muita gente”. Eu olhei pra ele e falei: “Eu não tenho medo. Eu tô acostumada a fazer evento. Eu sou dona de escola”. Sete dias depois ele me ligou e a gente marcou a primeira data em Itajaí, que foi em abril de 2023. Dez meses depois do desencarne da minha filha, nós estávamos fazendo a primeira psicografia em Itajaí. [Qual a periodicidade desses encontros?] Duas vezes ao ano. Esse ano já foi a primeira vez. [Já tem a data para o próximo?] A segunda data ficou para 7 e 8 de novembro.
"Me considero privilegiada pelas pessoas que compraram a ideia comigo"
Mais de 500 pessoas procuraram cartas de entes queridos em Itajaí no final de semana, eram familiares de vítimas de acidentes ou mortes violentas?
Bel: Nesse final de semana, no sábado deu mais de 400 pessoas e no domingo deu mais de 200 pessoas. Vêm de todos os tipos: mães, parentes, que perderam alguém assassinado, em acidente, por doença, na época do covid, pessoas que perderam um ente querido há muito tempo, mas que têm ainda essa necessidade de saber. Nós tivemos uma carta nesse final de semana de uma mãe que perdeu há quatro meses a primeira filhinha e há três meses o segundo filho. Ela recebeu carta dos dois filhos. Foi linda a carta dela. A gente recebeu a carta, não sei se vocês sabem o caso do Biel, que morreu queimado na oficina. A mãe dele também recebeu cartas. [O acesso à psicografia, à carta, é gratuito?] É gratuito. Não tem nenhum tipo de cobrança. [Você comentou cerca de 600 pessoas, todas receberam cartas?] Não. Nesse final de semana saíram 115 cartas. Não tem como todas receberem. Eu digo que a minha filha não faz coisa pequena. Ela me induziu a chegar nele. Eu digo que eu preferia ela aqui. Eu costumo dizer que eu não queria ter esse projeto, mas eu agradeço por ele. Se eu pudesse, eu queria ter ela aqui. Mas já que não foi possível, eu agradeço ao projeto. Agradeço todos os voluntários que contribuem, que ajudam, sem eles não existiria o Ressignificando.
"Eu nunca fiz a pergunta: "Por que comigo?". Porque seria egoísmo meu, porque eu não sou melhor do que ninguém"
Não posso imaginar a dor de perder um filho. Nessa ânsia de fazer conexão, quais os cuidados que as pessoas devem ter pra não cair em uma fraude?
Bel: O que eu digo pra elas é estudar. Não é ruim. Tu vais ter o direito de tirar a tua concepção se aquilo pode ser real ou não. Leia, estude. Tem os livros do Gabriel que são de fácil entendimento. Leia o Livro dos Espíritos porque são perguntas e respostas. Assista aos filmes. Primeiramente, Allan Kardec, que daí tu vai saber de onde surgiu a doutrina espírita. [Como saber se aquela pessoa que se diz médium é confiável...] Tu vais prestar atenção aos detalhes... Quando passou o calor da emoção, eu fui pesquisar sobre toda a vida dele, se já havia saído alguma notícia negativa a respeito dele, e nunca tinha saído. Pelo contrário, no SBT já saiu notícia dele. Teve cartas do Nilton que já foram usadas em tribunais.
"Eu digo que preferia ela aqui. Costumo dizer que não queria ter esse projeto, mas agradeço por ele"
Depois de sete edições do projeto, quatro anos de desencarne, você ter tanto contato com a sua filha, você se considera uma privilegiada?
Bel: Eu não sei se é privilégio. Eu nunca fiz a pergunta "por que comigo?". Porque seria egoísmo meu, porque eu não sou melhor do que ninguém. Eu me considero privilegiada pelas pessoas que compraram a ideia comigo. Eu me considero privilegiada por minha filha ter me levado até o Nilton e poder acalmar outros corações. Eu acho que cada um tem um propósito e precisa buscar o seu. Ninguém perde um filho à toa. O teu filho não desencarna jovem, principalmente como a minha filha, que saiu sorrindo de casa e voltou num caixão. Não é à toa isso. [Como uma pessoa pode entrar em contato com o Ressignificando Vidas?] No Instagram: @ressignificandovidas29.
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