ITAJAÍ
Conselheira denuncia crise na rede de saúde mental de Itajaí
Problemas incluem falta de equipe, estrutura e até corte de luz; MP entra com ação
Camila Diel [editores@diarinho.com.br]
Corte de energia, denúncia de falta de alimentação e uma ação do Ministério Público escancararam problemas na rede de saúde mental de Itajaí nesta semana. Os casos envolvem o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi) e o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (Caps AD) e reforçam críticas ao atendimento no município.
A denúncia mais recente aponta que as duas unidades ficaram sem luz por falta de pagamento. Segundo Veronica de Marchi, conselheira do Comusa (Conselho Municipal de Saúde), o Capsi tinha cinco contas atrasadas e o Caps AD, três. A situação teria interrompido parte dos atendimentos.
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Além disso, há queixas de que, desde dezembro, os serviços não estariam oferecendo alimentação adequada aos usuários que passam longos períodos em atendimento. “A falta de alimentos afeta consideravelmente a vida dos usuários, que passam boa parte do dia nos serviços”, relatou.
Veronica afirma que levou o problema à secretaria de Saúde durante reunião do Comusa no início de março, o que gerou reação entre trabalhadores da área. Para ela, os episódios refletem um cenário mais amplo. “Temos assistido um desmanche silencioso da saúde mental no município”, disse.
Prefeitura aponta falha administrativa
Em nota, a Prefeitura de Itajaí informou que o corte de energia ocorreu por uma “inconsistência administrativa” no processo de pagamento das contas, que não foram incluídas no sistema do Fundo Municipal de Saúde. Segundo o município, os valores estavam previstos e foram quitados assim que o problema foi identificado.
A administração afirmou ainda que pediu o religamento imediato e que a energia foi restabelecida no mesmo dia.
Sobre a alimentação, a prefeitura negou interrupção total. Disse que as marmitas foram mantidas e que houve apenas redução nas opções de lanches, situação já regularizada. Segundo o município, acolhimentos e visitas domiciliares também foram mantidos.
MP aponta falhas no Caps infantil
No mesmo período das denúncias, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) ajuizou uma ação civil pública contra o município por problemas no Caps infantojuvenil.
De acordo com a promotoria, a unidade apresenta falta de profissionais, estrutura inadequada e dificuldades no atendimento. O local atende mais de 200 pacientes por semana, com média superior a 40 atendimentos por dia, acima do recomendado.
Relatórios técnicos também apontaram ausência de médicos psiquiatras, número insuficiente de psicólogos, demora no início dos atendimentos e problemas no espaço físico, como infiltrações e falta de acessibilidade.
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O Ministério Público pediu que a prefeitura regularize o serviço em até 60 dias, com contratação de profissionais, melhorias na estrutura e apresentação de um plano para mudança da unidade.
Prefeitura diz que busca soluções
Em resposta à ação, a secretaria de Saúde informou que já iniciou medidas para ampliar o atendimento, incluindo levantamento de profissionais que podem ser remanejados e a busca por um novo espaço para o Capsi. Segundo o município, 14 imóveis já foram vistoriados.
A pasta também reconheceu dificuldade para contratar profissionais, afirmando que não há mais candidatos disponíveis em concursos vigentes para áreas como psiquiatria, psicologia e serviço social.
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Apesar disso, a prefeitura afirma que tem adotado medidas para manter os serviços e ampliar a capacidade de atendimento, com aumento de carga horária e apoio de empresas conveniadas.
Problema antigo
Segundo a conselheira do Comusa e integrante da Comissão Intersetorial de Saúde Mental, a precarização não começou agora. Veronica de Marchi explica que a cidade cresceu, a demanda aumentou e os serviços não acompanharam esse avanço.
A conselheira também chama a atenção para a falta de leitos psiquiátricos em Itajaí. Ela diz que quando usuários precisam de internação, muitas vezes acabam transferidos para outras cidades, como São José e Joinville, no caso de crianças e adolescentes.
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A discussão sobre o tema deve ganhar novos capítulos. A Comissão Intersetorial de Saúde Mental prepara um encontro com profissionais da área para ouvir como estão os atendimentos no dia a dia e reunir informações sobre a situação dos serviços no município.
Camila Diel
Camila Diel; jornalista no DIARINHO; formada pela Univali, com foco em jornalismo digital e produção de reportagens multimídia.
