Colunas


Casos e ocasos

Casos e ocasos

Rosan da Rocha é catarinense, manezinho, deísta, advogado, professor e promotor de Justiça aposentado. Sem preconceitos, é amante da natureza e segue aprendendo e conhecendo melhor o ser humano

Segurança pública não se faz com vídeos: o abismo entre discurso e realidade em Balneário Camboriú


Em Balneário Camboriú, a segurança pública virou conteúdo de rede social. A prefeita Juliana Pavan já publicou mais de uma dezena de vídeos abordando o tema, sempre com forte apelo visual e frases de efeito. Em um deles, afirma que a cidade é “uma das mais seguras do país”. Em outros, garante que não tolerará o avanço da criminalidade, repetindo o bordão “aqui não”, acompanhado de gestos ensaiados, como o já conhecido “murro na mesa”.

Também já apareceu repreendendo guardas municipais diante das câmeras, cobrando eficiência em reuniões com forças de segurança, anunciando projetos como a “Delegacia do Turista”, lançando programas com nomes de impacto como “BC + Segura” e, em uma encenação que beira o marketing político, posando com arma de fogo para celebrar a aquisição de novos equipamentos. Houve ainda troca de comando da Guarda Municipal e até a instalação simbólica de seu gabinete dentro da Secretaria de Segurança Pública.

A pergunta que se impõe é simples: isso trouxe resultado concreto?

A resposta, infelizmente, é não.

Já tem cadastro? Clique aqui

Quer ler notícias de graça no DIARINHO?
Faça seu cadastro e tenha
10 acessos mensais

Ou assine o DIARINHO agora
e tenha acesso ilimitado!

Também já apareceu repreendendo guardas municipais diante das câmeras, cobrando eficiência em reuniões com forças de segurança, anunciando projetos como a “Delegacia do Turista”, lançando programas com nomes de impacto como “BC + Segura” e, em uma encenação que beira o marketing político, posando com arma de fogo para celebrar a aquisição de novos equipamentos. Houve ainda troca de comando da Guarda Municipal e até a instalação simbólica de seu gabinete dentro da Secretaria de Segurança Pública.

A pergunta que se impõe é simples: isso trouxe resultado concreto?

A resposta, infelizmente, é não.

Enquanto o discurso oficial tenta transmitir controle absoluto da situação, a realidade nas ruas aponta em outra direção. A criminalidade — especialmente os furtos — cresce de forma visível. Diariamente, surgem nas redes sociais e na imprensa registros de arrombamentos em comércios, invasões em condomínios e abordagens a pedestres surpreendidos por criminosos em plena luz do dia.

O contraste é evidente: de um lado, vídeos cuidadosamente produzidos; de outro, uma população que começa a mudar seus hábitos por medo.

O problema central talvez esteja na forma de governar. Segurança pública não se resolve com roteiro, edição e publicação. Não se trata de comunicação, mas de gestão operacional. Quando a prioridade passa a ser a construção de uma narrativa — e não a execução de uma estratégia — o resultado é esse descompasso entre imagem e realidade.

Há ainda um ponto frequentemente ignorado: segurança eficiente depende de quem está na ponta. Para que guardas municipais atuem com motivação e eficiência, não basta discurso ou exposição pública. É necessário comando técnico, planejamento, ótimos recursos materiais e valorização profissional. Mais do que isso, é essencial uma gestão baseada em pilares concretos: presença visível nas ruas, especialmente a pé e de bicicleta; uso de inteligência para identificar padrões de crime; resposta rápida às ocorrências e integração real com a Polícia Militar.

Sem esses elementos, ao meu ver, qualquer política de segurança se torna superficial.

Criar sensação de risco ao criminoso é fundamental. E isso não se faz com vídeos, mas com presença constante. Viaturas bem posicionadas — não  circulando sem destino —, patrulhamento ativo e agentes visíveis têm efeito direto na prevenção. Da mesma forma, o monitoramento por câmeras só é eficaz quando deixa de ser passivo e passa a gerar ação imediata — com operadores atentos, comunicação direta com equipes e uso de tecnologia como reconhecimento de placas.

Outro caminho indispensável é a aproximação com a sociedade. Comerciantes, hotéis e restaurantes podem funcionar como aliados estratégicos, desde que haja canais diretos de comunicação e integração com os sistemas de vigilância.

Com pouco mais de 42 km², trata-se de uma cidade plenamente controlável do ponto de vista operacional. O desafio não está no tamanho, nem na ausência de recursos.

Aliás, recursos existem, contudo são mal aplicados. As viaturas policiais, muitas delas,  estão circulando em péssimas condições. Pior ainda é quando dentro da Secretaria de Segurança Pública existem vários grupos distintos, que aparecem com a mudança de governo e de secretários, havendo favorecimentos e perseguições, promovendo uma desunião interna, refletindo no psicológico e na atuação de cada profissional.

Balneário é uma cidade compacta, verticalizada, com áreas de circulação bastante previsíveis. E isso, em segurança pública, não é uma desvantagem — é uma oportunidade. O furto que cresce hoje na cidade não é violento, nem sofisticado. É oportunista. Ele acontece onde sempre aconteceu, nos horários em que sempre acontece, e com vítimas que repetem os mesmos comportamentos.

Praia, bares, ruas movimentadas, estacionamentos mal iluminados. O roteiro é conhecido. O criminoso não precisa inovar porque o ambiente facilita. E quando o risco é baixo e o retorno é alto, o resultado é inevitável: repetição.

Outro ponto crítico é a integração. A cidade conta com Guarda Municipal e Polícia Militar, mas muitas vezes atua como se tivesse dois sistemas paralelos. Em segurança pública, isso é um erro caro. Quando forças não compartilham informação em tempo real, o criminoso encontra exatamente o que procura: lacunas.

Talvez o ponto mais negligenciado seja o foco nos reincidentes. Em qualquer cidade, uma pequena parcela de indivíduos é responsável por grande parte dos furtos. Ignorar isso é insistir em enxugar gelo. Segurança moderna não combate apenas o crime — combate quem o pratica repetidamente.

Balneário Camboriú também enfrenta um fenômeno inevitável: o turismo. A cidade se transforma na alta temporada, multiplica sua população e expõe riqueza de forma intensa. Isso atrai não só visitantes, mas também criminosos. E aqui está outro erro comum: tratar verão e inverno com a mesma estratégia. Não são a mesma cidade.

A consequência de tudo isso não é apenas o aumento dos furtos. É algo mais profundo: a erosão da confiança. Pequenos crimes, quando constantes, mudam comportamento. As pessoas passam a desconfiar, a se proteger excessivamente, a evitar espaços. E isso afeta diretamente a qualidade de vida — e, em uma cidade turística, a própria economia.

Com planejamento adequado, é viável reduzir drasticamente os furtos em pouco tempo. Para isso, não é necessário reinventar a roda, mas aplicar o básico com disciplina: presença visível onde o crime acontece; resposta rápida e mensurável; integração real entre forças; uso ativo da tecnologia e foco em reincidentes. Nada disso é teórico. É operacional.

O debate sobre segurança pública costuma cair em extremos: ou se pede mais rigor, ou mais investimento. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso gestão. Porque, em cidades como Balneário Camboriú, o problema não é falta de meios. É falta de ajuste fino.

E, sobretudo, na escolha da prefeita entre governar para a realidade ou para as redes sociais.


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

Naturismo na praia do Pinho deve ou não ser abolido?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Epstein e a pedofilia como mercadoria de luxo da elite global

VIOLÊNCIA SEXUAL

Epstein e a pedofilia como mercadoria de luxo da elite global

Laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

CRISTÁLIA

Laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

Brasil gasta R$ 20 bi para pagar salários que a Constituição proíbe

CUSTO DO PRIVILÉGIO

Brasil gasta R$ 20 bi para pagar salários que a Constituição proíbe

Guerra no Irã: alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

ALERTA

Guerra no Irã: alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país

GUERRA

Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país



Colunistas

Amin será entrevistado ao vivo no DIARINHO

JotaCê

Amin será entrevistado ao vivo no DIARINHO

Geometria da fé

Clique diário

Geometria da fé

Campanha vacina contra gripe

Charge do Dia

Campanha vacina contra gripe

Casos e ocasos

Segurança pública não se faz com vídeos: o abismo entre discurso e realidade em Balneário Camboriú

Entre Receitas e Despesas

O perigo de administrar a empresa apenas pelo saldo da conta




Blogs

Anna Carolina bate asas e se filia ao Republicanos

Blog do JC

Anna Carolina bate asas e se filia ao Republicanos

Búzios Sailing Week 2026 abre regatas na Páscoa e mantém patrocínio da Energisa

A bordo do esporte

Búzios Sailing Week 2026 abre regatas na Páscoa e mantém patrocínio da Energisa

Memória que cai das árvores

VersoLuz

Memória que cai das árvores

Bom dia, empresários!

Blog da Jackie

Bom dia, empresários!






Jornal Diarinho ©2026 - Todos os direitos reservados.