Colunas


Véspera


Na véspera, dia 24 de dezembro, vi o sol nascer, as primeiras cores solares, os sinais de luz e calor avançando sobre a terra, vencendo lentamente a escuridão, trazendo vida em abundância.

Quero me saciar na brisa da manhã azul, admirar de perto as gotas de orvalho, antes que evaporem na cálida energia dos primeiros albores. Quero sentir-lhes o frescor, viver um frêmito de emoção, porque serei testemunha do relevante acontecimento, do pequeno milagre.

Beijarei a terra nua, em posição de respeito e acatamento, porque ela tudo nos dá e concede. Do seu ventre sagrado brotam as flores e os frutos, os alimentos do corpo e do espírito, que nos mantêm de pé durante a breve travessia, vivendo a saborosa – às vezes amarga – aventura da vida. Beijá-la em ato humilde de gratidão, sentir o aroma visceral, tocar os sais da terra, perguntar-lhe em voz baixa dos seus desígnios e dos seus mistérios.

Sentarei sob a árvore frondosa em posição confortável, de modo a percorrer em grande angular as copadas, tomando-me de surpresa nas formas e cores, pressentindo nas dobras da pele, como uma fina garoa silvestre, os eflúvios da temperatura amena e da sombra benfazeja.

Ouvirei um sabiá-laranjeira, que cantará só para mim. O canto mateiro entrará nos meus ouvidos, invadirá o meu ser, e me levará docemente para a dimensão do Tudo e do Nada, até que acorde, volte a mim e descubra que não nasci para cantar e menos ainda para voar, mas em troca me deram o privilégio de ouvir o pássaro cantor.

Na cidade, tenho hora marcada para ouvir o velho amigo. A memória recente não ajuda, mas ele lembra dos episódios remotos. Conheceu Prestes e só não entrou na Coluna porque era muito novo; a grande paixão de sua vida (que ele não sabe por onde anda) estaria hoje com 75 anos; um tronco providencial salvou-lhe a vida na enchente (de que rio? de que ano?) quando estava a afundar. Hoje, munido de todo o interesse, a atenção e a paciência de que sou capaz, ouvirei sem pressa suas histórias.

Estarei com dona Maria - nome comum de mulheres como ela. O marido a abandonou com um filho no colo e uma filha, maiorzinha. Deu um duro danado. Nunca se queixou da vida, nem mesmo em relação ao pilantra que a deixou. Os filhos estão criados - bem criados -, estudam e trabalham. Na face de Maria brota amiúde um sorriso luminoso, um brilho no olhar. Quero ver de perto a heroína que não se gaba de suas proezas, não lamenta a sorte, e com alguma sorte, saber de onde ela tira essa “estranha mania de ter fé na vida”.

No final da tarde, vou curtir um pouco o corre-corre e o sobe e desce das crianças no parquinho. Quero vê-las alegres a rodar, nas descobertas e nas emoções do dia. Afastarei de plano o pensamento intruso de que a vida lhes reservará uma cota de aflições e desenganos. Pensarei nelas assim, cheias de vida, no exercício irrequieto dos joguinhos trapaceiros e das travessuras infantis.

Quando o sol estiver para se pôr, eu que não sei cantar, cantarei baixinho uma canção de paz, de bem querer e de esperança.

Em casa, à noite, na véspera de Natal, alma leve, estarei à espera do menino.


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