Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 31/03/2026 14:31
Hoje é o Dia Internacional da Visibilidade Trans, uma data que existe para lembrar algo básico — e, ainda assim, constantemente negado: o direito de existir com dignidade.
A data surgiu como um movimento de conscientização sobre as vivências de pessoas trans, buscando combater a invisibilidade, a violência e a exclusão social. Mais do que celebrar, ela chama atenção para a urgência de respeito, igualdade e oportunidades reais.
O Brasil ainda lidera, ano após ano, os índices de assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo — um dado recorrente em relatórios de organizações como a ANTRA. Em média, uma pessoa trans é assassinada a cada dois dias no país. A expectativa de vida dessa população gira em torno de 35 anos, muito abaixo da média nacional.
Essa realidade não é fruto do acaso, mas de uma combinação de fatores: violência estrutural, exclusão do mercado de trabalho, evasão escolar, acesso limitado à saúde e ausência de políticas públicas efetivas. Há avanços legais — como o direito ao nome social e à retificação de registro civil —, mas a lei ainda não alcança plenamente o cotidiano.
E é importante dizer: não falamos apenas de mulheres trans. Existem homens trans, pessoas não binárias, travestis e outras existências dentro desse espectro, todas atravessadas por diferentes formas de invisibilidade e violência.
Porque existir não deveria ser resistência.
Mas, para muitas pessoas, ainda é.
Pensando nisso, escrevi este poema. Não como resposta, mas como tentativa de escuta.
⸻
Corpo em trânsito
por Alfa Bile
Nasci
sem reconhecer a própria pele.
não olhei
quando ouvi
me chamarem.
No reflexo —
alguém
sempre chegava atrasado.
Desde cedo
vivi assim:
entre a disforia
e a tentativa
(de continuar)
Sou visita dentro de mim.
não pertenço.
essa casa
nunca foi lar.
Os olhares sabiam
antes de mim.
condenação gratuita.
As feridas
— abertas —
não aprendem a fechar.
E essa voz
dentro de mim
me atravessa
com medo.
Até que
rompi.
não foi coragem:
foi sobrevivência.
Lancei ao mundo
quem sempre fui.
passos recuaram.
olhares desviaram.
em cada minuto
o gosto amargo
de existir
invisível.
Segurei o fôlego.
Sufocada pelas mãos
no meu pescoço.
Meu corpo —
uma via pública
sem leis.
Sobrevivi.
Renomeei
o que não me cabia.
Mudei.
para, enfim,
me encontrar.
Nasci
a segunda vez.
E aprendi:
Ser
não se escolhe —
se impõe
e permanece.
⸻
Esse poema fala de travessia.
Mas não uma travessia simbólica ou bonita.
Fala de sobrevivência.
De existir mesmo quando o mundo insiste em negar.
E talvez o ponto mais importante esteja no final:
ser não é escolha.
É permanência.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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