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Quando uma mulher é morta, não é só uma vida que se perde


Quando uma mulher é morta, não é só uma vida que se perde

Por Marlene Fengler*

Ana Paula Farias tinha 42 anos. Era terapeuta, tinha sonhos, planos e uma vida inteira pela frente. Foi morta dentro da própria casa, em Balneário Camboriú, por asfixia, segundo a investigação policial, cometida pelo ex-marido. Uma morte violenta, difícil até de imaginar. Infelizmente, não é um caso isolado. É o sétimo feminicídio registrado em Santa Catarina só neste começo de ano.

Quando a gente olha para uma notícia dessas, não dá para enxergar apenas como mais um número. É uma história interrompida. É uma família que perde uma filha, uma amiga, uma mulher que tinha um papel importante na vida de muitas pessoas. E é também um alerta que precisa incomodar todos nós.

O Brasil terminou 2025 com um dado que assusta: foram 1470 feminicídios registrados, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na prática, isso significa que quatro mulheres foram assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. É uma realidade que não pode ser tratada como algo distante ou inevitável.

Na maioria das vezes, o feminicídio não começa no dia do crime. Ele costuma vir acompanhado de sinais que aparecem antes: ameaças, agressões, controle, violência psicológica. Muitas mulheres tentam pedir ajuda, mas nem sempre encontram acolhimento ou proteção suficiente. Cada sinal ignorado pode custar uma vida.

Nos últimos dias, o país deu um passo importante com a assinatura do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio pelos Três Poderes. A ideia é unir forças para trabalhar prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores. Mas esse pacto só fará diferença se sair do papel e virar política pública de verdade, com estrutura e continuidade.

Existem iniciativas que mostram que é possível mudar essa realidade. A Espanha, por exemplo, conseguiu reduzir os índices de feminicídio com leis específicas, tribunais especializados, monitoramento de agressores e campanhas permanentes de conscientização. Não existe solução simples para um problema tão complexo, mas existem caminhos que funcionam quando há prioridade e compromisso.

O feminicídio não destrói só a vida da vítima. Ele deixa marcas profundas em filhos, familiares e em toda a comunidade. Casos como o da Ana Paula não podem ser tratados apenas como tragédias individuais. Eles revelam um problema coletivo que precisa ser enfrentado com responsabilidade e continuidade.

Combater o feminicídio não é apenas punir agressores. É construir uma cultura onde respeito não seja exceção e onde nenhuma mulher precise ter medo dentro da própria casa. Enquanto isso não for realidade, cada nova vítima será um retrato daquilo que ainda precisamos mudar.

*Secretária-geral da Alesc


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