Por Flávio Perez - Flavio@onboardsports.net
Flavio Perez é profissional de marketing e jornalista há mais de 25 anos. Especialista em esportes olímpico. Lidera a agência On Board Sports. Foi manager da The Ocean Race
Publicado 01/04/2026 20:15
A velejadora brasileira Izabel Pimentel concluiu uma das viagens mais desafiadoras de sua trajetória no mar após percorrer cerca de 8 mil milhas náutica sem uma expedição iniciada em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, com chegada a Florianópolis e, na sequência, uma nova travessia em solitário até a Antártica, retornando à capital catarinense.
O projeto uniu travessia oceânica, navegação em altas latitudes e um forte simbolismo pessoal: celebrar os 60 anos no mar, próxima à latitude 60 sul, uma das referências mais emblemáticas da navegação extrema.
A primeira etapa da jornada começou em 2 de dezembro de 2025, quando Izabel partiu de Lanzarote rumo ao Brasil. Depois de cruzar o Atlântico, chegou a Florianópolis em 14 de janeiro de 2026. Poucos dias depois, em 17 de janeiro, iniciou a segunda e mais severa perna da expedição: a descida em solitário rumo ao extremo sul do continente, com passagem pela região antártica e retorno a Florianópolis em 22 de março, encerrando uma jornada de 63 dias nessa etapa decisiva da viagem.
Mais do que uma travessia geográfica, a expedição foi concebida como uma travessia de vida. Prestes a completar 60 anos, Izabel decidiu transformar a data em um gesto simbólico e escolheu o mar como lugar de celebração. “Eu estava prestes a completar 60 anos, em fevereiro, e decidi comemorar de uma forma simbólica: navegando até a latitude 60”, resume a navegadora.
A bordo do Don, um Romanée de alumínio de 34 pés, projeto de Philippe Harlé, Izabel voltou a levar ao limite uma trajetória já marcada por pioneirismo. Natural de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, ela é uma das maiores referências da navegação oceânica brasileira.
Foi a primeira brasileira a cruzar o Atlântico em solitário e a primeira brasileira e latino-americana a completar uma volta ao mundo sozinha.
Hoje, soma mais de 100 mil milhas velejadas em solitário, sem contar as navegações em grupo, marca que reforça a dimensão de sua carreira e a coloca entre os nomes mais importantes da vela de oceano no país.
Essa trajetória começou muito antes dos grandes feitos internacionais. Tudo nasceu de uma promessa feita diante do mar de Copacabana, no Rio de Janeiro: “Eu, Izabel Pimentel, darei a volta ao mundo.” Em 1991, veio o primeiro barco. Em 2006, aos 40 anos, ela realizou sua primeira travessia oceânica, saindo da Bretanha, na França, até Paraty, no Brasil, a bordo de um veleiro de apenas 21 pés. Depois vieram muitas outras jornadas, até chegar à travessia que a levou a transformar o sonho de navegar até a Antártica em mais um capítulo histórico de sua trajetória.
Na primeira parte da expedição, entre Lanzarote e o Brasil, Izabel enfrentou mar aberto, rotina intensa de bordo e os primeiros sinais de que a viagem exigiria adaptação constante. O motor apresentou problemas, obrigando a navegadora a fazer escala em Ilhabela, no litoral paulista, para encontrar peças. Em seguida, retomou a rota e fez nova parada em Florianópolis, onde recebeu apoio do Schaefer Yachts, maior estaleiro da América Latina, além das ferragens da Nautos e do leme de vento da South Atlantic Self Steering Gears, fundamentais para a sequência da viagem.
Foi a partir de Florianópolis que a expedição ganhou sua face mais dura! Na descida rumo ao sul, as temperaturas começaram a cair, o tráfego de pesqueiros e navios aumentou e o mar passou a impor outra escala de dificuldade. Ao sul do Cabo de Santa Marta, Izabel já enfrentava vento forte e contrário, condição que exigia ainda mais do barco e da navegadora. A rota seguiu pela região do Rio da Prata, pela costa argentina, entre a Ilha dos Estados e a Terra do Fogo, até alcançar o ponto mais crítico da viagem: a Passagem de Drake.
Reconhecida como uma das rotas marítimas mais perigosas do planeta, a Passagem de Drake concentra correntes violentas, sistemas de vento cruzados, mar desordenado, ondas grandes e frio extremo. Em solitário, sem paradas e sem apoio, a travessia impõe não apenas conhecimento técnico, mas também resistência física, equilíbrio mental e capacidade permanente de decisão. Em seu relato, Izabel descreve com precisão a natureza daquele trecho: “O Drake é confuso: correntes, sistemas de vento distintos e formações cruzadas. Um verdadeiro caos marítimo.”
A travessia do Drake começou em 8 de fevereiro. Nos dias seguintes, o cenário se tornou ainda mais severo. O barômetro despencou, o mar cresceu e o vento se intensificou. Em 11 de fevereiro, data em que completou 60 anos, Izabel enfrentou uma tempestade em pleno oceano austral, sozinha, sob frio cortante, ondas pesadas e vento forte. Era o aniversário no lugar mais extremo possível. “Agora, sim, estava no fim do mundo”, escreveu.
Ao se aproximar da Antártica, a navegadora encontrou a paisagem que justificava toda a travessia: gelo no mar, icebergs, neve, nevoeiro e o branco absoluto do continente. O ambiente era tão severo que até o spray das ondas congelava sobre o barco. Izabel ainda tentou avançar em direção à área da base brasileira, mas a entrada estava tomada por vento forte, corrente intensa e pedras, o que a obrigou a recuar. Logo depois, enfrentou outro momento crítico: sem motor e com a bateria descarregada, precisou manter distância da costa em meio a gelo à deriva e correntes fortes.
Foi justamente nesse cenário que a travessia assumiu sua dimensão mais poderosa. Sozinha, no frio extremo, cercada por gelo, vento e isolamento absoluto, Izabel encontrou na própria experiência a força para seguir. “Sem motor, cercada por gelo e correntes fortes, mantive distância da costa. Ainda assim, eu estava feliz”, escreveu. Na sequência, resumiu em uma frase a grandeza íntima daquele momento: “Completei 60 anos no Drake, naveguei entre icebergs e me senti poderosa.”
Entre os episódios mais marcantes da expedição está o instante em que o Don rompeu uma camada de gelo. A imagem traduz a escala do desafio enfrentado por uma mulher sozinha em um veleiro de 34 pés nas águas austrais. “Ali estava eu, no fim do mundo, a bordo do meu pequeno barco, encarando um iceberg”, relatou. Em outro momento, cercada pelo ambiente mais inóspito do planeta, fez um café e resumiu em voz alta o que aquela experiência exigia: “aceitação”.
O retorno ao Brasil não foi mais fácil. Próxima à Ilha Elefante, cercada por blocos de gelo, Izabel precisou esperar o vento para iniciar a volta. Quando ele veio, soprou contrário por boa parte da longa subida até Florianópolis. Foram mais de 30 dias entre o Drake e o litoral catarinense, em uma sequência de calmarias, vento acima de 35 nós, ausência de sol e desgaste físico acumulado. Ainda assim, em meio à dureza da travessia, houve espaço para momentos de rara contemplação, como o encontro com albatrozes pousados ao redor do barco.
A conclusão da viagem reforça o lugar singular de Izabel Pimentel na história da navegação brasileira. Em um universo ainda marcado pela predominância masculina, sua trajetória representa um marco de resistência, pioneirismo e protagonismo feminino. Ao somar mais de 100 mil milhas velejadas sozinha, cruzar oceanos, completar uma volta ao mundo em solitário e agora avançar rumo à Antártica em uma rota de altíssima exigência, Izabel reafirma seu nome entre os maiores da vela oceânica e amplia o espaço das mulheres em um dos cenários mais duros da navegação mundial.
Ao fim da expedição, o sentimento registrado é de transformação. O retorno a Florianópolis encerra não apenas uma rota de extrema exigência, mas um projeto de vida construído em torno do mar, do tempo e da travessia. Em seu próprio balanço, Izabel resume a experiência com a lucidez de quem sabe o tamanho do que viveu: “Cheguei mais leve, com alguns quilos a menos — mas com a certeza de ter vivido algo extraordinário.” E conclui: “Os sonhos possíveis, de fato, podem ser realizados.”
Depois da viagem, Izabel seguirá compartilhando os bastidores da expedição em compromissos públicos no Brasil. Em 30 de março, fará palestra no Iate Clube de Santa Catarina, em Florianópolis.
Em seguida, participa do Rio Boat Show 2026, que será realizado de 11 a 19 de abril, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. No evento, a navegadora também fará uma palestra no dia 12 de abril, às 14h, apresentando detalhes da travessia, os desafios enfrentados e os bastidores inéditos da jornada.
SERVIÇO
Palestra com Izabel PimentelData: 30 de março de 2026
Local: Iate Clube de Santa Catarina, Florianópolis (SC)
Rio Boat Show 2026Data: de 11 a 19 de abril de 2026
Local: Marina da Glória, Rio de Janeiro (RJ)
Palestra com Izabel Pimentel no Rio Boat ShowData: 12 de abril de 2026
Horário: 14h
Sobre Izabel Pimentel
Natural de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, Izabel Pimentel é uma das maiores navegadoras brasileiras de oceano. Foi a primeira brasileira a cruzar o Atlântico em solitário e a primeira brasileira e latino-americana a completar uma volta ao mundo sozinha. Com mais de 100 mil milhas velejadas em solitário, sem contar navegações em grupo, construiu uma trajetória marcada por pioneirismo, resistência e grandes travessias internacionais, tornando-se referência para a vela oceânica e para o protagonismo feminino no esporte.
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