Força regional
Quanto custa comprar um imóvel no litoral?
Valorização segue firme e reorganiza o mercado na região da foz do Itajaí-açu
Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]
O litoral norte de Santa Catarina mantém uma trajetória consistente de valorização imobiliária. Dados do índice FipeZap de fevereiro confirmam o que já se percebe no ritmo de lançamentos e nas negociações do dia a dia: a região continua entre as mais desejadas do país, com Balneário Camboriú, Itapema e Itajaí no top 5 do ranking do metro quadrado mais valorizado do Brasil.
O índice considera preços de anúncios de apartamentos em 56 cidades brasileiras e funciona como referência para o mercado. Mais do que indicar preços, ajuda a compreender movimentos e tendências dentro do cenário nacional.
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Para o corretor de imóveis e administrador Custódio Ribeiro Júnior, diretor comercial do Grupo CRI, com sede na Praia Brava, em Itajaí, o índice traduz dados relevantes, mas, na prática, os valores podem ser ainda mais altos em nichos específicos da região.
Em termos de volume, o diretor explica que o grupo segue forte. “Nós temos hoje um estoque de imóveis à venda que chega a R$ 6 bilhões, mas é um estoque nichado, focado principalmente nas áreas nobres de Itajaí, Balneário Camboriú e Itapema”, afirma.
Qualidade de vida
Custódio revela dados de vendas de imóveis pelo Grupo CRI, apurados entre 10 de dezembro do ano passado e 28 de fevereiro último, que mostram que 23% dos compradores são estrangeiros. “Temos suíços, ingleses, alemães, chilenos, paraguaios e americanos comprando na nossa região”, conta. “Isso se deve à qualidade de vida, à segurança e ao alto padrão dos imóveis”, completa.
Um desses compradores é médico, nascido no Havaí, que trocou os Estados Unidos pela Praia Brava. Ele mantém a clientela americana e atende on line, aproveitando a flexibilidade da profissão. “Optou pela Brava pela qualidade de vida”, resume Custódio.
Disputa no topo
Os dados mais recentes do FipeZap mostram que o topo do ranking nacional segue concentrado no litoral norte catarinense. Analisando mais de perto, o destaque não está apenas na liderança, mas na diferença entre os primeiros colocados.
Balneário Camboriú continua na primeira posição, mas já não com a mesma distância de antes. Em fevereiro de 2025, a diferença para Itapema era de R$ 471 por metro quadrado. Um ano depois, caiu para apenas R$ 44. Na prática, os dois mercados passaram a operar praticamente no mesmo patamar.
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O movimento reposiciona a leitura do setor. Balneário Camboriú segue como referência consolidada, mas Itapema deixa de ser coadjuvante e passa a disputar diretamente o topo do ranking.
Essa aproximação tem explicação no ritmo de valorização. Enquanto Balneário Camboriú registrou crescimento de 6,1% no período, Itapema avançou 9,4%, a maior alta entre as principais cidades da região.
Itajaí completa o cenário com um comportamento mais equilibrado. A valorização de 7,4% mantém a cidade na quarta colocação nacional no índice FipeZap e confirma um mercado consistente, sustentado por diversidade de produto.
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O dado mais relevante, no entanto, vai além das variações individuais. O ranking evidencia a força regional. Com Balneário Camboriú em primeiro, Itapema em segundo e Itajaí em quarto, o litoral norte concentra três das principais posições do país.
Outro ponto importante é o comportamento das taxas de crescimento. O cenário indica um ritmo mais moderado, com menor volatilidade e maior previsibilidade — sinal de amadurecimento do mercado.
A leitura é compartilhada pelo setor. Para Luiz Alberto Duarte Filho, engenheiro civil e sócio-diretor da Clarus Construtora e Incorporadora, a aproximação entre Balneário Camboriú e Itapema reflete uma mudança estrutural.
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“A valorização deixou de estar associada apenas à localização e passou a depender da capacidade de desenvolvimento das cidades. Mobilidade, qualificação urbana, serviços e planejamento passaram a ter impacto direto no valor do metro quadrado”, avalia. Nesse cenário, segundo ele, Itapema avançou ao estruturar melhor sua expansão e ampliar sua atratividade.
Itajaí, por sua vez, ganha protagonismo por outro caminho. “É uma cidade que combina crescimento econômico, geração de empregos e expansão urbana. Isso amplia o potencial tanto para moradia quanto para investimento, com uma base mais diversificada de produtos”, afirma.
Para o executivo, o principal erro hoje é olhar apenas o preço. “Não basta acompanhar o metro quadrado. É preciso entender o contexto que sustenta essa valorização no médio e no longo prazo”, completa.
Diversidade e equilíbrio de mercado
Itajaí ocupa posição estratégica ao combinar valorização com diversidade de produto. A cidade cresce de forma consistente, impulsionada tanto por empreendimentos de alto padrão quanto por opções de médio padrão e habitação mais acessível.
O avanço dos imóveis compactos reforça esse cenário e evidencia uma mudança no perfil de consumo e investimento. Dados do Sinduscon da Foz do Rio Itajaí mostram que os lançamentos saltaram de 307 em 2022 para 1228 em 2025.
Para o corretor Rafael Feijó, essa tendência acompanha uma transformação no estilo de vida urbano. “As pessoas estão priorizando a localização estratégica e a proximidade com o trabalho ou lazer em vez de grandes metragens, adotando um estilo de vida mais ágil e minimalista”, afirma.
O movimento também passa por uma mudança na lógica de investimento. Segundo o corretor Leo Rostro, há dois perfis bem definidos: o investidor que busca ganho na revenda e o que aposta na renda com locação.
“No primeiro caso, compra na planta e vende na entrega. No segundo, o imóvel se paga com o aluguel e o proprietário começa a formar uma carteira de renda”, explica. Na prática, imóveis de menor valor tendem a ser mais estratégicos, pela maior liquidez e facilidade de ocupação. Ainda assim, localização segue como fator decisivo. “Proximidade com comércio, serviços e mobilidade facilita tanto a valorização quanto a locação”, afirma.
Essa mudança também aparece no tipo de produto que o mercado vem absorvendo. Segundo Luiz Alberto Duarte Filho, da Clarus Construtora, o comprador atual é mais criterioso e toma decisão com base no uso real do imóvel. “O que antes era percebido como diferencial hoje se tornou requisito básico. O cliente quer funcionalidade, quer que o imóvel resolva a rotina”, afirma. A localização ganhou ainda mais peso nesse processo. “Existe uma busca clara por reduzir deslocamentos e melhorar a qualidade de vida no dia a dia”, diz.
Ao mesmo tempo, os empreendimentos passaram a incorporar estruturas mais completas. Áreas de lazer, convivência e bem-estar passaram a influenciar diretamente a decisão de compra. “O mercado não absorve mais apenas metragem ou padrão construtivo. Ele busca um produto que entregue experiência, que funcione bem na prática”, resume. Esse equilíbrio sustenta a dinâmica do mercado local e amplia as possibilidades para diferentes perfis de comprador.
Compactos redefinem o perfil dos lançamentos em Itajaí
Itajaí triplicou o número de imóveis compactos lançados em quatro anos. As unidades passaram de 307 em 2022 para 1228 em 2025, segundo dados do Sinduscon da Foz do Rio Itajaí. O avanço não é pontual — revela uma mudança estrutural no mercado local.
O perfil do comprador mudou. Hoje, a maior parte das aquisições vem de investidores que buscam renda com locação ou ganho na revenda. Nesse cenário, os compactos ganham força por combinar menor valor total, maior liquidez e alta demanda de ocupação.
Na prática, o mercado já opera com dois níveis bem definidos. Nos empreendimentos de smart living, mais comuns em áreas centrais, o tíquete médio varia entre R$ 550 mil e R$ 650 mil. Já os estúdios de alto padrão, concentrados principalmente na Praia Brava, partem de R$ 1,6 milhão e podem chegar a R$ 1,9 milhão.
O desempenho nas vendas confirma a tendência. Empreendimentos compactos têm registrado absorção acelerada. Projetos recentes chegaram a vender 100% das unidades em poucas semanas. “Quanto mais acessível o valor total, maior o número de compradores e mais rápida é a venda. Isso aumenta a liquidez e puxa a valorização”, afirma o empresário André Pereira, da NF Empreendimentos.
Mais do que área reduzida, o que sustenta esse movimento é o conceito de produto. Os empreendimentos passaram a incorporar serviços como coworking, lavanderia compartilhada, concierge e áreas de convivência.
Para o mercado, o raciocínio é direto: valor menor amplia o público comprador e sustenta a velocidade de vendas. Ao mesmo tempo, a demanda por locação — impulsionada pelo crescimento da cidade — mantém esses ativos em alta ocupação. “Hoje, quem compra compacto está olhando para renda. É um produto que se paga e ainda valoriza”, resume um operador do mercado local.
A tendência é de continuidade. A projeção da Brain Inteligência Estratégica indica que a região pode absorver até 15 mil novas unidades compactas nos próximos cinco a 10 anos.
Redação DIARINHO
Reportagens produzidas de forma colaborativa pela equipe de jornalistas do DIARINHO, com apuração interna e acompanhamento editorial da redação do jornal.
