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As opiniões selvagens


As palavras soltas na oralidade ou presas no papel movem sentimentos, modificam o tamanho das coisas, provocam medos e angústias, destilam conformidades e estímulos. Não basta ter uma opinião sobre algo quando você está diante de plateia. Alunos, ouvintes de programa de rádio ou telespectadores de programas de jornais televisivos, ou ainda aqueles que assistem programas de podcast, ou consomem “credos” nas redes sociais [lembro-me dos seres artificiais animados que falam na primeira pessoa com autoritarismo escravocrata a relatar benefícios especiais] são provocados a ficar no mesmo lugar, indolentes, ou a preencher vácuos de ignorâncias cimentadas tão certas das certezas em toda a trajetória de vida.

Em conversas informais diante de amigos próximos, ou em encontros ocasionais, a opinião é suficiente para se expor ou classificar as pessoas. Daí se decide manter proximidade ou aumentar o muro de vizinhança. Mas quando se fala aos outros, com o sentido ou o efeito generalizado de se influenciar comportamentos, então, é necessário muito mais do que opinar. Opiniões são posicionamentos relativos ao mundo sensível, ao sentimento imediato, longe do conhecimento. A opinião não se fixa na alma; é apenas uma baforada de palavras: pode se alterar a qualquer tempo, em segundos; não precisa de demonstração ou definição, apenas de experiência momentânea; depende do ambiente e dos interlocutores e, pela variação desses, o que era deixa de ser para se constituir na inversão do que fora.

Aos estoicos, opinião é algo fraco e ilusório, serve ao ego, não é causa de conhecimento; para Kant é relato de insuficiência subjetiva e objetiva sobre as coisas. “Esta é minha opinião” recorta territórios particulares, serve em ambientes de “festa de aniversário”, mas jamais para professar conhecimento. Opinião, por si mesma, é objeto de pesquisa para produzir conhecimento, como se faz ao se pesquisar objetos materiais. É pouco responsável ter opinião com o propósito de formar conhecimento sobre um fenômeno. É perigoso falar a plateias diversas ou difusas e terminar com o “compromisso consigo mesmo” de que aquela é “apenas minha opinião”. Melhor procurar um encontro de amigos e evitar a provocação de juízos problemáticos. Vivemos esse fenômeno, de forma aguda, no oposicionismo “Bolsonarismo x Lulismo” travestido de “esquerda x direita”: pessoas se tornaram agressivas, violentas, assassinas por motivações políticas. O regime da comunicação exige muito mais do que “esta é minha opinião”. Sendo pessoal a opinião se vincula ao subjetivo, se esconde da objetividade [ainda que lógica], não precisa ser demonstrada, somente sentida e foge dos apelos dos argumentos.

Argumento requer independência relativa do argumentador. É necessário que o argumento se sustente, mesmo que o argumentador se afaste de sua presença. É essencial que se promova a formação ...

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Em conversas informais diante de amigos próximos, ou em encontros ocasionais, a opinião é suficiente para se expor ou classificar as pessoas. Daí se decide manter proximidade ou aumentar o muro de vizinhança. Mas quando se fala aos outros, com o sentido ou o efeito generalizado de se influenciar comportamentos, então, é necessário muito mais do que opinar. Opiniões são posicionamentos relativos ao mundo sensível, ao sentimento imediato, longe do conhecimento. A opinião não se fixa na alma; é apenas uma baforada de palavras: pode se alterar a qualquer tempo, em segundos; não precisa de demonstração ou definição, apenas de experiência momentânea; depende do ambiente e dos interlocutores e, pela variação desses, o que era deixa de ser para se constituir na inversão do que fora.

Aos estoicos, opinião é algo fraco e ilusório, serve ao ego, não é causa de conhecimento; para Kant é relato de insuficiência subjetiva e objetiva sobre as coisas. “Esta é minha opinião” recorta territórios particulares, serve em ambientes de “festa de aniversário”, mas jamais para professar conhecimento. Opinião, por si mesma, é objeto de pesquisa para produzir conhecimento, como se faz ao se pesquisar objetos materiais. É pouco responsável ter opinião com o propósito de formar conhecimento sobre um fenômeno. É perigoso falar a plateias diversas ou difusas e terminar com o “compromisso consigo mesmo” de que aquela é “apenas minha opinião”. Melhor procurar um encontro de amigos e evitar a provocação de juízos problemáticos. Vivemos esse fenômeno, de forma aguda, no oposicionismo “Bolsonarismo x Lulismo” travestido de “esquerda x direita”: pessoas se tornaram agressivas, violentas, assassinas por motivações políticas. O regime da comunicação exige muito mais do que “esta é minha opinião”. Sendo pessoal a opinião se vincula ao subjetivo, se esconde da objetividade [ainda que lógica], não precisa ser demonstrada, somente sentida e foge dos apelos dos argumentos.

Argumento requer independência relativa do argumentador. É necessário que o argumento se sustente, mesmo que o argumentador se afaste de sua presença. É essencial que se promova a formação das premissas, as decorrências na história, as formas segundo as quais as sociedades se equilibraram na corda-bamba dos ventos no tempo, sobre como pensadores se apresentaram na produção desse conhecimento, quais críticas surgiram. Muito embora o que se trata em ciências humanas e ciências exatas tenha objetos de investigação diferentes [investigar uma fruta ou amostras de sangue em laboratório é distinto de pesquisas sociais sobre as interações humanas], e sendo que as ciências humanas estão “condenadas” à juventude científica [Max Weber], falar em público carrega extremos de responsabilidades que não podem ficar presas aos fios de teias de aranha das opiniões.

Ao fim, mesmo que eu pessoalmente possa me inclinar para um lado ou outro, o argumento é o equilíbrio impessoal para declarar respostas consistentes, sólidas, intensas e independentes de uma experiência pessoal sobre “como foi possível?”, “por que tal coisa aconteceu desse jeito?”, “quais as razões para isso?”. Ao se mover sentimentos e juízos, sensibilidades e provocar que conceitos e argumentos possam causar transformações espirituais, os tamanhos da responsabilidade pessoal ao se expor a plateias diversas e difusas são elevados às condições dos argumentos. “Do conceito exijo, como recompensa, uma transformação espiritual” [Gaston Bachelard]. As opiniões, por serem pessoais e provocarem os instintos mais primitivos dos humanos, traçam pontos do “homem lobo do homem” com a “selvageria” que só os selvagens podem, licitamente, ser.

 

Mestre em Sociologia Política


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