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O consumo dos bens políticos


A Política pode ser pensada como uma economia que tem sua própria lógica econômica. Produtor e produção, transporte, formas e condições de consumo e do consumidor são fenômenos a serem estabelecidos e bem definidos para se escapar do “economicismo político”. É especialmente interessante descrever as diferentes maneiras de apropriação de alguns desses bens políticos pelos consumidores e as condições sociais e políticas pelas quais o consumo acontece.

As preferências e os gostos pelos “bens políticos” não se constituem como um dom natural, uma clarividência atribuída à formação genética especializada. Todo o processo é resultado da formação social do indivíduo, dos valores sociais e culturais do grupo social no qual está inserido, e das condições materiais e educacionais associados ao nível educacional apreendido. À hierarquia social da Política corresponde a hierarquia social dos consumidores dos bens políticos.

O resultado dessa hierarquia é a formação das condições diferenciadas dos modos de apropriação desses bens políticos e a construção da legitimidade dos modos de apropriação. Podemos logo nos referir às diferenças entre o esquema de “percepções sensíveis” definidas pelo gosto e pelas preferências forjadas pela trajetória social do indivíduo. Há a disposição primária, como nível arqueológico da disposição, uma “camada primária dos sentidos”, apressada, movida por vídeos forjados nas redes sociais. Um pouco mais abaixo, há a camada “dos sentidos secundários” da disposição, orientada por conceitos, apoiado por teorias e leituras de livros, que tenta afastar a fusão afetiva dos pensamentos e da pré-disposições.

A operação de decifração e de decodificação das formas de consumo dos bens políticos requer um inventário sobre os instrumentos de apropriação e suas formas. É saber que o “olho” é produto ...

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As preferências e os gostos pelos “bens políticos” não se constituem como um dom natural, uma clarividência atribuída à formação genética especializada. Todo o processo é resultado da formação social do indivíduo, dos valores sociais e culturais do grupo social no qual está inserido, e das condições materiais e educacionais associados ao nível educacional apreendido. À hierarquia social da Política corresponde a hierarquia social dos consumidores dos bens políticos.

O resultado dessa hierarquia é a formação das condições diferenciadas dos modos de apropriação desses bens políticos e a construção da legitimidade dos modos de apropriação. Podemos logo nos referir às diferenças entre o esquema de “percepções sensíveis” definidas pelo gosto e pelas preferências forjadas pela trajetória social do indivíduo. Há a disposição primária, como nível arqueológico da disposição, uma “camada primária dos sentidos”, apressada, movida por vídeos forjados nas redes sociais. Um pouco mais abaixo, há a camada “dos sentidos secundários” da disposição, orientada por conceitos, apoiado por teorias e leituras de livros, que tenta afastar a fusão afetiva dos pensamentos e da pré-disposições.

A operação de decifração e de decodificação das formas de consumo dos bens políticos requer um inventário sobre os instrumentos de apropriação e suas formas. É saber que o “olho” é produto de uma cadeia de produção da história. Cada indivíduo é resultado de um conjunto de relações sociais erguidas antes mesmo do parto desse mesmo indivíduo. Ao mesmo tempo, cada indivíduo se imagina autônomo sobre o que pensar, como se posicionar e de que forma reagir às divergências e diferenças no consumo dos bens políticos.

A suposta autonomia é uma forma de controlar o consumidor dos bens políticos, de lhe impor a “docilidade de aceitação” sem resistência, sem autonomia – é para si e não em si. Tudo isso parece tornar objetiva a sensação de liberdade de pensamento e expressão, quando define a aceitação da reprodução do que foi fabricado ao longe, distante das necessidades “reais” do cotidiano da vida do consumidor de bens políticos. É como consumir “salgadinhos” porque é “gostoso”, definido o sabor e o saborear longe das necessidades do degustador. O que é “gostoso” é definido em alguma “fábrica” distante, e define também o gosto do consumidor.

Trata-se de uma arte que produz e reproduz a imitação da liberdade e da autonomia, a definição do que deve ser preferido. É pelo “sabor” e não pelo pensamento autônomo que é gerada a preferência, a disposição e a predisposição ao gosto. Em nada se faz a liberdade individual, a autonomia à disposição individual. O que está na prateleira aos “olhos” do consumidor é algo embalado, já feito, prático para levar e para consumir. E quando o consumidor dos bens paga pelo seu desejo, deixa, como moeda, a própria liberdade de pensar, a autonomia reflexiva, as disposições soberanas de posicionamento.

Ainda que seja inescapável pensar, agir e sentir pelos entornos da vida social e coletiva, é escapável fazer a troca da liberdade de pensamento pelo consumo de bens políticos enlatados. A liberdade possível está na autonomia do pensamento e não na quantidade de dinheiro que se tem para se apropriar de bens materiais.


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