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A noite de Lacan


Era um domingo qualquer. No boteco da Rachel, um pançudo monopolizava o pequeno balcão. O cidadão que lhe fazia companhia, espremido contra a parede, ouvia pacientemente suas queixas. Um pouco mais afastado, eu conversava com um companheiro de boteco. O pançudo tomava uma atrás da outra. Não demorou muito, começou a incomodar: “eu bebo pra esquecer”, berrava ele, sem parar. Aí, comentei com o meu companheiro de boteco: engraçado, como as pessoas são diferentes. Eu jamais bebo pra esquecer. Bebo pra me lembrar.

Sei lá que dia era. Era uma noite qualquer de qualquer dia. Na varanda de casa, depois de tomar muitas, comecei a lembrar-me...

Foi em um período qualquer da charmosa década de 70. Um período em que a psicanálise começava a despertar a atenção das pessoas. Naquela época, minha namoradinha era a Fabiana. A Fabi era uma mulher belíssima. Mas, para ser bem honesto, era um pouco “burrinha”. Por uma dessas ironias, uma característica marcante dela era dizer: “achei muito inteligente”.

Dançar, ir ao cinema assistir filmes xaropes e comer pizza com guaraná eram algumas das coisas que a Fabi achava “muito inteligente”. Naquele sábado íamos assistir à palestra de um psicanalista francês, da escola lacaniana, radicado no Brasil. A Fabi estava muito entusiasmada... O nome? Calma, porra! Você me interrompeu só para perguntar o nome do francês? Não acabei de dizer que bebo pra me lembrar? Ainda não bebi o suficiente. Espere eu beber mais um pouquinho, e lembro o nome do francês. Como eu dizia... A Fabi estava muito entusiasmada e quis compartilhar com a mãe:

- Mamãe, vamos assistir àquele show “muito inteligente” que te falei.

- Não é show, Fabi. É palestra.

- Não importa, amor. Vai ser “muito inteligente” da mesma forma.

O teatro não comportava mais ninguém, todos ávidos para assistir a palestra do psicanalista francês... O nome dele? Droga! Interrompendo-me novamente? Vou repetir pela última vez: eu bebo pra me lembrar. Ainda vou beber mais, hoje. Aí, lembro o nome do francês.

O mestre de cerimônia convidou o brilhante psicanalista francês, radicado no Brasil, Dr. Henry Montepalier (está satisfeito agora, babaca?), para comparecer ao palco. A Fabi estava quase cochilando. Afinal, aquela experiência passava longe da dança, filmes e pizza com guaraná. O Dr. Henry deu início à apresentação:

“Senhores, senhoras, autoridades presentes, membros da comunidade científica... muito boa noite. Pretendo compartilhar com os senhores, hoje, os experimentos que desenvolvi fundamentado na teoria do psicanalista francês Jacques Lacan. E, de início, faço uma provocação: as pessoas buscam excessivamente a consistência. Por quê? Buscam a consistência baseadas em equívocos históricos e, sobretudo, culturais. Equívocos que acabam por levá-las a uma leitura aleatória dos níveis da consciência. Ora, a consistência nasce da inconsistência. Então, na realidade, a consistência não é consistente, é inconsistente. Em última análise e de forma simplista, para o entendimento de todos, eu afirmo que somos inconsistentes, justamente por sermos consistentes. Aonde isto nos leva? Senhores, senhoras, muita calma nesse momento, mas devo dizer: eu não sou eu. Sou o outro. Da mesma forma, os senhores. Portanto, nós não somos nós”.

Estudei a fisionomia das pessoas acomodadas à nossa frente. Um indivíduo de meia idade, calvo, com as maçãs do rosto salientes e nariz afilado, exibia um sorrisinho boçal, como quem diz que “havia entendido tudo” e nós, nada. Confesso que tive vontade de chutar seu traseiro. A Fabi dormia! O Dr. Henry prosseguia...

... “Ora, Lacan teve contato, em determinado período de seus estudos, com a linguística de Saussure. Depois, passeou pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss e posteriormente, bebeu um pouco da lógica e da topologia. Para Lacan, o EU era a instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. Através do simbólico, influência de Lévi-Strauss, aprofundou os estudos sobre a ligação do desejo com a lei e a falta, através do complexo de Édipo. O desejo, enquanto metonímia, de acordo com Lacan, nada mais é que algo metaforizado na interdição edipiana. Aonde isto nos leva? Senhores, senhoras, muita calma nesse momento, mas devo dizer: ora, se o EU é instância de desconhecimento, de ilusão... Nós não somos nós. Somos os outros, como disse anteriormente”.

Observei a reação das pessoas em meu entorno. Na poltrona da frente, a loira (oh!) perguntava ao namorado se edipiana tinha alguma relação com rotariana.

O Dr. Henry finalizou a palestra ovacionado em pé, por uma multidão. Inclusive pela Fabi, que acabou sendo despertada pelo barulho dos aplausos. Só não compreendi o que ela aplaudia, se tinha dormido a palestra inteira. Enquanto aplaudia, comentava:

- Foi maravilhoso! Achei “muito inteligente” quando ele disse “senhores, senhoras, autoridades presentes, membros da comunidade científica...”

- Mesmo? E o que mais você achou inteligente, Fabi?

- Ah, tudo. Foi impecável! Tive a impressão que sonhava.

- Não foi impressão, Fabi. Você realmente sonhava. Vamos comer uma pizza?

- Oba, com guaraná. O que você acha?

- Claro, Fabi. “Acho muito inteligente.”


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