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Herbário Barbosa Rodrigues


Vale ainda hoje a queixa do Patriarca da Independência: “Quase nada temos feito a favor da natureza”. Em todos os recantos de nossa terra, preciosas matas vão sucumbindo, vítimas do fogo e do machado, da ignorância e do egoísmo.

Não é somente a árvore, em cujo favor Plínio diz ser “o maior presente dos deuses”, que desaparece nas derrubadas, mas com ela, milhares de outros não menos admiráveis espécimes vegetais de utilidade próxima e remota, como também animais indígenas que habitam lugares bem circunscritos de nossas matas.

Do reino vegetal dependem o animal e o homem. Se o protegermos ele nos dará vida e força com seus alimentos, agilidade com seus frutos e alegria com suas flores.

Os filhos do sertão são dum físico muito mais avantajado aos da cidade porque eles vivem mais diretamente das plantas, respiram o ar oxigenado por suas folhas e sentem mais de perto todos os efeitos dos seus benefícios.

No intuito de deixar aos nossos pósteros a documentação das riquezas de nossas selvas que tendem a desaparecer, e para tornar as plantas amigas mais conhecidas ao homem, foi em tempo fundado o Herbário Barbosa Rodrigues, que se está aparelhando sempre melhor para suas finalidades patrióticas.

Bons passos já têm dado. Constam suas coleções de quatro a cinco mil números de plantas estudadas por 39 especialistas botânicos nacionais e estrangeiros de três continentes. A nova sede com sua biblioteca especializada e laboratório serão em breve um orgulho para nossa cidade.

A flora do município de Itajaí está sendo estudada com todo o carinho. Diversas excursões botânicas, de resultados positivos, já foram levadas a efeito no litoral e “hinterland” desse município privilegiado.

É digna de nota a excursão realizada, em princípios de 1948, no cume do Morro do Baú. Em companhia do Pe. Afonso Reitz, vigário de Luís Alves, fomos galgando a escarpa rochosa daquele soberbo bloco conglomerático. Cada gota de suor correspondia a um interessante achado. O dr. Lyman B. Smith, do United States National Museum de Washington, que determinou grande parte do material, escreveu em carta: It has been difficult to name your plants, but well worth the effort because they are good and species that rare ou lacking in yor herbarium”. [Foi difícil classificar suas plantas, mas bem valeu o esforço porque havia bons espécimes e espécies que eram raras ou até mesmo inexistentes em nosso herbário].

Pagou, pois, bem a pena o tempo gasto nos três dias que exploramos o cume daquela montanha cuja altitude ascende a 850 metros. Cerca de 300 espécies de plantas foram coletadas no Morro do Baú e seus arredores. Parcialmente também foi estudada a vegetação de S. Brás, Escalvados, Brilhante, Praia de Itajaí, Cabeçudas, Praia Brava e diversos outros lugares. Nos dois últimos lugares os estudos foram realizados em companhia do dr. Mulford B. Foster, grande botânico norte americano e especialista em plantas e artes tropicais. Representa o conjunto uma boa contribuição para o estudo fitogeográfico do município de Itajaí.

Mesmo que amanhã as matas nativas estejam já em grande parte destruídas pelo homem, todo amigo da nossa flora, revendo o material do Herbário Barbosa Rodrigues, poderá reconstruir o ambiente primitivo de uma selva local. Um caminho de grandes realizações está à nossa frente. Somente o levantamento das dezenas de milhares de espécies de nossas plantas é um ideal digno de conquistas.

Com a instalação da nova sede, montagem do laboratório técnico, essa sociedade científica pretende, auxiliada pelos poderes públicos e pela compreensão dos itajaienses, lançar-se ao estudo árduo, mas profícuo de nossas riquezas vegetais.

Anuário de Itajaí, 1949


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