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Herdeiros de nós mesmos


No princípio, quando ainda éramos coletores e nos contentávamos com a carniça dos tigres dentes de sabre, dominar alguns objetos pontiagudos como o marfim e as pedras lascadas foi decisivo para a nossa sobrevivência. Com o tempo, evoluímos para caçadores e percebemos que a carne, quando assada, poderia ser conservada por mais tempo do que quando crua. Dominamos o fogo e vários processos de conservação dos alimentos. Passamos a viver cada vez mais, com menos riscos e com mais força muscular.

Contudo, de pequenos bandos nômades nos tornamos sedentários e tribais. Com isso, começou a decisiva diferença entre o macaco e o homem: a percepção ilusória de pertencimento a algo maior e o domínio da terra. Acredita-se que as grandes batalhas que definiram a evolução do homo sapiens antigo para o humano moderno (sapiens sapiens) tenham ocorrido no final do período Paleolítico, levando ao fim dos homens de Neanderthal.

Com o tempo, aquele homo sapiens que tanto lutou para dominar a pedra lascada e o fogo teve que dominar também os metais. E foi com as armas de ferro, de aço e de bronze que se definiu a maior parte das nossas fronteiras. Depois, aprendemos a gerar energias elétricas, hidráulicas, eólicas, fósseis e até mesmo nucleares. Unidas, essas intensas forças - agora controláveis - nos levaram aos instrumentos modernos de comunicação e de deslocamento. Associando-se ao aprimoramento da linguagem, geramos um universo quase infinito de conhecimento e globalizamos o nosso mundo.

E tudo isso foi diminuindo cada vez mais o sofrimento daquele que há milhões de anos era um selvagem nada refinado. Contudo, o homem continua buscando a realização dos desejos mais primitivos. Atenuar o sofrimento não foi o suficiente para evitar que esses seres curiosos e vaidosos se mantivessem altamente ambiciosos quanto ao seu futuro. E o humano, agora com muito menos dores e com tantas possibilidades de realização das vontades, tornou-se um consumidor. Consome e destrói avassaladoramente o seu ambiente de vida, incluindo ele próprio e as suas nações.

O humano, que vinha trilhando um caminho para se tornar pessoa, parece ter se tornado tão iludido por suas ganâncias que parece cada vez mais com o selvagem que lhe deu origem. Temos aqui que fazer uma distinção entre as noções de ser humano e de pessoa. O primeiro refere-se à espécie biológica, enquanto o segundo refere-se a um agente racional. Quanto a isso, tomo aqui a perspectiva de John Locke (Ensaio sobre o Entendimento Humano) e de Immanuel Kant (Introdução à Metafísica da Moral). Segundo a perspectiva dos dois grandes filósofos, a noção de pessoa passa a ser a de uma coleção de ações e operações mentais superiores. Portanto, questiono: somos humanos e formamos povos, talvez sejamos uma só raça, mas somos pessoas?

Para nos considerarmos pessoas, não basta termos dominado a pedra, o fogo, os animais, a luz e o Facebook. Vivemos mais. Sofremos menos as intempéries deste pequeno planeta. Contudo, mesmo assim, ainda não dominamos a mente. Ainda somos humanos biologicamente muito parecidos com o Homo Cro-Magnon.

Entretanto, para nos tornarmos pessoas precisaremos de atitudes morais acima do desejo e de uma capacidade de autocontrole que se sobreponha à raiva. Portanto, herdeiros que somos das nossas atitudes físicas e posturas mentais, espero que 2013 seja um ano para que o primata humano evolua definitivamente de um selvagem refinado para pessoa que reconhece que só existimos nos outros. Sobre isso, Franz Kafka já alertava: “a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”. Enfim, que o selvagem consumista se torne pessoa. Que controle a própria mente. Que observe a si mesmo nos outros. Nos outros que somos.

Luciano Nogueira - médico neurologista


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