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Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria


Quando o amor também sabe partir


Publicado 07/03/2026 10:41

Hoje, pesquisando poemas de Pablo Neruda, encontrei um texto que me emocionou de verdade.

 

Neruda nasceu no Chile em 1904 e se tornou um dos maiores poetas do século XX. Sua obra atravessa amor, política, natureza e memória com uma intensidade rara. Em 1971 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, consagrando uma carreira que transformou a poesia latino-americana em uma voz universal.

 

Entre tantos poemas marcantes, me deparei com “Si tú me olvidas”. É um poema de amor — mas não daquele amor cego e desesperado. É um amor que reconhece sua própria dignidade.

 

Neruda começa dizendo que tudo o leva à pessoa amada: a luz, os aromas, as coisas do mundo. Mas então surge uma virada poderosa. Ele diz que, se o amor for abandonado, ele também saberá partir. As raízes que estão naquele coração podem buscar outra terra.

 

É um poema que fala de paixão, mas também de consciência emocional. Amor profundo não precisa ser submissão.

 

E talvez seja isso que mais me tocou ao ler esses versos: a ideia de que o amor verdadeiro cresce quando é correspondido — e quando não é, encontra coragem para seguir.

 

Abaixo deixo o poema completo que me atravessou hoje:

 

SI TÚ ME OLVIDAS

 

QUIERO que sepas

una cosa.

Tú sabes cómo es esto:

si miro

la luna de cristal, la rama roja

del lento otoño en mi ventana,

si toco

junto al fuego

la impalpable ceniza

o el arrugado cuerpo de la leña,

todo me lleva a ti,

como si todo lo que existe,

aromas, luz, metales,

fueran pequeños barcos que navegan

hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,

si poco a poco dejas de quererme

dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto

me olvidas

no me busques,

que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco

el viento de banderas

que pasa por mi vida

y te decides

a dejarme a la orilla

del corazón en que tengo raíces,

piensa

que en ese día,

a esa hora

levantaré los brazos

y saldrán mis raíces

a buscar otra tierra.

Pero

si cada día,

cada hora

sientes que a mí estás destinada

con dulzura implacable.

Si cada día sube

una flor a tus labios a buscarme,

ay amor mío, ay mía,

en mí todo ese fuego se repite,

en mí nada se apaga ni se olvida,

mi amor se nutre de tu amor, amada,

y mientras vivas estará en tus brazos

sin salir de los míos.

 

 

Ao terminar de ler esse poema, fiquei em silêncio por alguns minutos. Há textos que apenas passam por nós. Outros ficam. Esse ficou.

 

O que mais me tocou foi a honestidade emocional que Neruda coloca nos versos. Ele fala de um amor profundo, daqueles que atravessam tudo: o tempo, a memória, os detalhes do mundo cotidiano. Mas ao mesmo tempo existe uma consciência muito clara ali — o amor não pode existir sozinho.

 

Se for correspondido, ele cresce, se alimenta, vira fogo vivo.

Se for abandonado, ele também sabe recuar.

 

Essa maturidade me impressionou. Muitas vezes romantizamos o amor como algo que deve resistir a qualquer custo, mas Neruda lembra que até as raízes — quando a terra deixa de nutrir — procuram outro lugar para viver.

 

Talvez seja por isso que a poesia dele continue atravessando gerações. Ele escreve sobre sentimentos universais com uma simplicidade que parece inevitável. Quando percebemos, já estamos dentro do poema.

 

Hoje foi um desses encontros que a literatura proporciona: você começa pesquisando um autor e termina com o coração mexido por algumas linhas.

 

A poesia tem esse poder silencioso. Ela nos encontra quando menos esperamos — e fica ecoando por dentro.

 

📸 ✍️ Alfa Bile

VersoLuz | Jornal Diarinho

 

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