Esse jovem é Alison Carvalho Saldivia, morador de Balneário Gaivota, no sul de Santa Catarina. Ele sofreu uma lesão cervical grave depois de um acidente durante um mergulho e ficou tetraplégico. A partir dali, a família e a equipe médica entraram numa corrida contra o tempo. Segundo os profissionais que acompanham o caso, Alison ainda estava dentro da chamada janela terapêutica, que é o período em que algumas abordagens inovadoras podem ter mais chance de ajudar.
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Corrida contra o tempo
A busca pela polilaminina começou logo depois do acidente. De acordo com as informações repassadas à reportagem, o médico Ângelo Formentin foi quem viu, desde cedo, a possibilidade de tentar abrir esse caminho para Alison. Foi ele quem puxou essa alternativa, avaliou se o caso se encaixava nos critérios médicos e começou a mexer os primeiros pauzinhos para tirar a ideia do papel.
Depois disso, outros profissionais passaram a atuar no caso. O neurocirurgião Rodrigo Marcelos entrou na parte técnica, com a avaliação clínica, a análise dos critérios médicos e o apoio na condução do procedimento dentro do que a ciência e os protocolos permitem hoje. Não era uma aposta no escuro. Havia um paciente com lesão grave, um prazo curto para agir e uma equipe tentando entender se ainda dava tempo de buscar essa possibilidade.
Como a polilaminina ainda está em fase de estudo, o caminho até a aplicação não dependia só do hospital. Foi preciso cumprir uma série de exigências sanitárias, regulatórias e administrativas para garantir que tudo ocorresse dentro das normas brasileiras e com segurança para o paciente, para a equipe médica e para a instituição.
A advogada Márcia Andréia Correia Herbert acompanhou os trâmites e ajudou a viabilizar as autorizações necessárias para o tratamento. Ela resumiu o clima dos bastidores em poucas palavras: “Teve muitos detalhes este caso. Lutamos contra o tempo. Mas missão cumprida”. Em outro momento, completou: “Foram dias intermináveis, mas chegou este presente.”
As falas dão a dimensão da carga emocional em volta do caso. Era uma situação grave, com pouco tempo para decidir e sem alternativa eficaz disponível. Quem acompanhava de perto sabia que cada etapa contava.
Segundo o Dr. Robson, diretor da unidade hospitalar, a possibilidade de realização deste procedimento representa um passo relevante no campo das terapias regenerativas. “Para a instituição, é também um compromisso com a ciência, com a inovação médica e principalmente com a busca por alternativas que possam melhorar a qualidade de vida dos pacientes,” completa.
A polilaminina deriva de estudos ligados à laminina, uma proteína presente na matriz extracelular e associada à regeneração neural. Pesquisadores brasileiros investigam se a substância pode estimular o crescimento de neurônios e ajudar na reconexão de circuitos danificados. Depois da aplicação, a equipe prevê acompanhamento clínico, mas deixa claro que não existe garantia de resultado.
Procedimento em Sombrio
Depois de toda essa correria, o caminho chegou ao Hospital Dom Joaquim, em Sombrio, no sul do estado. A unidade é administrada pelo Instituto Maria Schmitt (Imas). Foi ali que Alison recebeu a aplicação da polilaminina, com equipe especializada e acompanhamento hospitalar.
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O acesso aconteceu por uso compassivo, nome dado à liberação excepcional de uma terapia ainda em desenvolvimento para um paciente em estado grave, principalmente quando não existe outra alternativa eficaz.
Agora, Alison entra numa fase decisiva de acompanhamento. O que vem pela frente depende do tempo, da resposta do organismo e também do avanço dos estudos sobre a substância.
O tratamento que tomou conta das manchetes
A polilaminina ganhou espaço nas redes sociais, nas rodas de conversa e nas reportagens dos últimos dias. A substância é estudada há cerca de 30 anos pela bióloga Tatiana Sampaio, da UFRJ, como uma possível ajuda para recuperar ligações da medula espinhal depois de lesões graves.
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A repercussão cresceu depois que reportagens e postagens passaram a tratar a pesquisa como uma grande esperança para pacientes paraplégicos e tetraplégicos. Em muitos casos, o assunto chegou ao público quase com cara de cura anunciada. Mas ainda não é assim.
Pé no chão
A própria comunidade científica pede cautela. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia ressaltaram que a pesquisa ainda está em fase experimental e que a divulgação recente pode estar criando uma expectativa maior do que os estudos permitem neste momento.
As entidades defendem que a substância passe por todas as etapas dos ensaios clínicos antes de ser tratada como um tratamento consolidado. Até agora, o que existe são resultados iniciais em animais e relatos em poucos pacientes. Ainda faltam estudos maiores para mostrar, com segurança, o que de fato pode ser atribuído à polilaminina.
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Esse cuidado é importante porque, em casos de lesão medular, alguns pacientes também podem apresentar melhora com cirurgia, medicamentos e reabilitação. Sem uma comparação mais ampla, não dá para afirmar com segurança o quanto veio da substância e o quanto faz parte da própria recuperação.