DESABAFO

Adolescente diz que amassou morangos que vendia ao ver mãe ser agredida por fiscais

Mãe e filho contam ao DIARINHO bastidores do caso polêmico que terminou com fiscal demitido

Rapaz de 17 anos afirma que vídeo mostra só a revolta, não o início da confusão (Foto: Camila Diel)
Rapaz de 17 anos afirma que vídeo mostra só a revolta, não o início da confusão (Foto: Camila Diel)

O adolescente de 17 anos que aparece exaltado em um vídeo que se espalhou pelas redes sociais, gravado na semana passada no calçadão da avenida Central, em Balneário Camboriú, explicou que amassou as caixas de morango depois de ver a mãe ser agredida pelos fiscais. Ele também foi agredido em outra fiscalização e contou ao DIARINHO sua versão dos fatos.

As imagens renderam críticas e julgamentos. No caso da agressão, a repercussão também terminou com a demissão de um fiscal temporário da prefeitura. Kauan diz que entende a reação do público, mas insiste que o vídeo corta o que, pra ele, explica tudo: “Ele gravou só a parte que me viu revoltado. O pessoal tá me julgando, dizendo que eu mereci, mas não sabe o que aconteceu antes”.

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No dia em que amassou os morangos, Kauan afirma que perdeu o controle depois de ver a mãe, Elisa Regina da Silva, ser segurada e empurrada durante uma abordagem de fiscalização. Ele diz que a confusão começou no camelódromo, com ele ao lado do carrinho de mão e a mãe correndo do outro lado. “Ela gritou pra mim: ‘Cuidado, ele tá chegando’. Aí ele veio correndo atrás dela, pegou no braço da minha mãe e jogou ela pro lado pra fazer ela parar de gritar”, relatou.

Ao ver o braço marcado da mãe, o adolescente diz que “ficou louco”. “Da onde se viu pegar no braço de uma mulher e largar ela pro lado? Não existe isso”, desabafou. Segundo ele, a revolta registrada no vídeo que viralizou veio depois desse momento.

Foi nesse contexto que os morangos foram pro chão. “Eu peguei e virei os morangos todos porque fiquei revoltado”, explicou. Kauan reconhece que se excedeu no grito e no xingamento, mas nega agressão física.

A agressão no calçadão

Depois, segundo o adolescente, veio um segundo episódio, já no calçadão da avenida Central. Ele diz que foi apenas entregar quatro caixas de morango e nada mais, e até deixou o carrinho de lado justamente pra não chamar a atenção nem abrir espaço pra confusão. “Quando eu cheguei, ele já tava me gravando”, contou.

Kauan afirma que a gravação incomodou e que foi cobrar explicação. A resposta, diz o adolescente, veio em tom de provocação. “Ele falou: ‘Tu não tinha dito que ia me pegar no outro dia?’”. A partir daí, afirma que a situação partiu para a agressão física. “Ele me pegou pela blusa e me largou no chão. Mordeu meu dedo, me arranhou o pescoço, me deixou todo lanhado”, relatou. Ele diz que tentou se levantar, mas caiu de novo, e a cena foi se repetindo num vai e vem que, inicialmente, não foi gravado.

O adolescente conta que a confusão chamou a atenção de quem passava e que gente da rua tentou separar. “Ele se prevaleceu e me deu um chute no meio das pernas. Ali eu já fiquei mal e comecei a chorar. Bem nessa hora chegou o guarda”, disse.

Indignado, ele explica que ficou com a sensação de que precisava provar, de algum jeito, que não partiu pra cima. “Eu queria muito pegar a câmera do calçadão pra mostrar que não fui eu que avancei nele. Eu só fui pra conversar”, afirmou.

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Mesmo com a revolta, ele admite que errou no jeito de reagir desde o primeiro dia: “Eu entendo que eu fui errado em xingar. Eu não fui 100% certo”. Ainda assim, volta ao ponto que, pra ele, explica a explosão que começou lá atrás: “Tu tá trabalhando com a tua mãe, debaixo do sol, nem comeu direito, e chega um marmanjo daquele tamanho e pega no braço dela?”, questiona, revoltado.

Vida difícil

A tensão, como eles contam, não nasce do nada. Ela vem da vida no limite, porque o que entra durante o dia é o que garante a janta. Elisa e os filhos vivem exclusivamente da venda de frutas nas ruas de Balneário Camboriú, sem outra fonte de renda. O dia começa antes do sol nascer e termina sem garantia nenhuma de quanto vai entrar.

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Kauan diz que ajuda os pais desde os seis anos, mas a mãe faz questão de separar trabalho de escola. “Ele nunca faltou aula, nunca reprovou”, afirmou. Elisa conta que, fora do horário escolar, levava os filhos junto para a rua porque não conseguia vaga em creche e por medo. “Eu preferia eles do meu lado. Eu tinha medo de acontecer alguma coisa ruim”, disse. O orgulho dela é poder dizer que a família sempre viveu do jeito certo, honesto, e que o filho não tem envolvimento com drogas ou com o crime.

Além da agressão, a família também lida com o prejuízo financeiro causado pela apreensão e perda dos morangos, que somaram cerca de R$ 1,8 mil. A casa ficou sem água por falta de pagamento e, em alguns dias, faltou até gás para cozinhar, que conseguiu repor graças a uma doação. “A gente trabalha pra ter o que comer”, resumiu. Ela afirma que não sabe fazer outra coisa além de vender frutas. “Eu não tenho estudo. Eu não sei ler, eu não sei escrever. Eu não sei trabalhar em outro lugar”, disse.

Relembre o caso

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O caso ganhou repercussão depois que um vídeo gravado no calçadão da avenida Central, em Balneário Camboriú, se espalhou pelas redes sociais mostrando um adolescente exaltado, xingando e amassando caixas de morango durante uma fiscalização. Dias depois, novas imagens mostraram o jovem sendo agredido por um fiscal de posturas. Após a repercussão, a prefeitura informou que o servidor era contratado em caráter temporário e foi demitido. Em vídeo, a prefeita Juliana Pavan (PSD) classificou a conduta como “reprovável” e afirmou que o município não tolera violência. A prefeitura também reforçou que a venda ambulante sem alvará não é permitida, conforme a Lei Municipal 300/1974.

A advogada Viviane Alves de Oliveira fez contato com o DIARINHO na tarde desta segunda-feira informando que representa o fiscal e gostaria de compartilhar a versão dele com o DIARINHO em razão da grande repercussão do caso, mas não retornou os questionamentos da reportagem até o fechamento desta edição.



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