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Casos e ocasos

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Rosan da Rocha é catarinense, manezinho, deísta, advogado, professor e promotor de Justiça aposentado. Sem preconceitos, é amante da natureza e segue aprendendo e conhecendo melhor o ser humano

Entre sandálias e latas: a política da indignação fabricada


Entre sandálias e latas: a política da indignação fabricada

Há tempos setores do bolsonarismo vêm apostando na construção de narrativas que frequentemente se sobrepõem aos fatos. O fenômeno não é novo. Durante os atos antidemocráticos que culminaram nos ataques às instituições em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, o país assistiu a cenas que misturavam radicalização política, desinformação e episódios que beiravam o folclórico — como manifestações em que participantes rezavam ao redor de pneus ou falavam em intervenção extraterrestre.

O que antes parecia restrito a grupos de apoiadores mais exaltados passou a ganhar eco direto em lideranças políticas, ampliando o alcance dessas narrativas.

Recentemente, uma campanha publicitária de sandálias, estrelada por uma atriz brasileira de reconhecimento internacional, convidava o público a “entrar em 2026 com os dois pés” — uma metáfora clara para dedicação integral, confiança e disposição para novos projetos. A expressão, comum na linguagem publicitária, foi suficiente para que parlamentares e influenciadores alinhados à extrema direita sugerissem, nas redes sociais, que haveria ali uma suposta referência ideológica.

A reação seguiu o roteiro conhecido: vídeos com consumidores descartando produtos da marca, acusações de viés político e ataques direcionados à atriz. A leitura literal e descontextualizada da peça publicitária ignorou que, em nenhum momento, houve menção a ideologias. A campanha falava de autoconfiança e iniciativa pessoal.

Curiosamente, enquanto a polêmica ganhava tração nas redes, a empresa registrava valorização expressiva de mercado nos últimos meses — sinal de que o impacto econômico da mobilização virtual nem sempre corresponde às expectativas de seus idealizadores.

O mesmo padrão se repetiu no carnaval. Uma escola de samba do Rio de Janeiro decidiu homenagear o presidente da República e incluiu, entre suas alas, sátiras políticas dirigidas a setores do neoconservadorismo. Em uma das fantasias, integrantes desfilavam caracterizados como latas de conserva estampadas com a imagem de uma família tradicional — pai, mãe e dois filhos.

A proposta, descrita pela própria agremiação como uso de humor crítico, foi interpretada por lideranças conservadoras como ataque à família e à religião. Rapidamente, multiplicaram-se nas redes sociais postagens de políticos e apoiadores se colocando, simbolicamente, “dentro da lata”, reafirmando valores familiares e religiosos.

A crítica da escola, no entanto, parecia direcionada não à instituição familiar em si, mas ao uso recorrente da “família tradicional” como argumento político — muitas vezes mobilizado para sustentar pautas excludentes ou resistências a direitos civis contemporâneos. Trata-se de sátira política, recurso historicamente presente no carnaval brasileiro.

Ainda assim, a reação revelou mais uma vez a força da mobilização identitária nas redes. Parte do debate deixou de lado o contexto artístico e passou a tratar a alegoria como ataque moral.

O episódio evidencia um traço marcante da política contemporânea: a transformação constante de gestos simbólicos em disputas ideológicas amplificadas digitalmente. A cada nova peça publicitária, desfile ou declaração pública, forma-se um ciclo de indignação, engajamento e polarização.

Nesse ambiente, a análise crítica cede espaço à resposta imediata. A interpretação literal substitui a leitura contextual. E a política passa a orbitar em torno de episódios episódicos, frequentemente desconectados de debates estruturais mais relevantes para a população.

O carnaval, por definição, sempre foi espaço de crítica social, ironia e contestação. A publicidade, por sua vez, vive de metáforas e jogos de linguagem. Quando esses campos passam a ser lidos exclusivamente sob lentes ideológicas rígidas, o risco é reduzir o debate público a sucessivas batalhas simbólicas.

Mais do que discutir sandálias ou fantasias, talvez seja necessário refletir sobre o padrão que se repete: a rápida conversão de qualquer fato em combustível para disputas identitárias que alimentam engajamento político.

Na era das redes sociais, a indignação tornou-se ativo valioso. E a política, cada vez mais, parece organizada em torno de sua produção contínua.

Voltamos à lata: nem tudo o que está dentro de uma lata de conserva faz mal à saúde, mas é fato que muitos alimentos industrializados contêm aditivos e substâncias químicas que, quando consumidos em excesso, podem prejudicar o organismo. A metáfora da “lata” serve para ilustrar uma postura fechada, resistente a mudanças.

Quando determinados setores se apresentam como defensores intransigentes do conservadorismo, frequentemente demonstram resistência ao progresso social e oposição a direitos civis contemporâneos, em nome da preservação da chamada “família tradicional” ou de valores morais antigos. O apego à tradição, quando não passa por avaliação crítica, pode resultar na perpetuação de práticas discriminatórias ou obsoletas, que já não dialogam com a complexidade do mundo atual.

Em muitos casos, há ênfase quase exclusiva na ordem e na responsabilidade individual, com pouca disposição para reconhecer dificuldades estruturais enfrentadas por minorias ou populações vulneráveis. Problemas sociais complexos acabam sendo reduzidos a falhas pessoais, desconsiderando desigualdades históricas e institucionais. Não raramente, também há resistência ao pensamento crítico, à ciência ou a inovações que desafiem crenças culturais ou religiosas consolidadas.

Essa perspectiva parte de uma visão pessimista da natureza humana, segundo a qual as pessoas seriam intrinsecamente falhas e necessitariam de rígido controle social ou institucional. Trata-se de uma leitura que minimiza a capacidade humana de evolução, cooperação e transformação.

Viver “dentro de uma lata”, simbolicamente, pode parecer mais simples e confortável. Exige menos confronto com o novo, menos revisão de crenças e menos disposição para mudanças. Em contextos marcados por estruturas patriarcais, isso pode significar a manutenção de hierarquias tradicionais, nas quais o poder masculino ocupa posição central, amparado por instituições historicamente consolidadas.

Para muitas mulheres, esse modelo pode representar restrições à autonomia, à liberdade e ao pleno desenvolvimento pessoal. Ao mesmo tempo, também impõe aos homens expectativas rígidas de insensibilidade emocional, sucesso permanente e autoridade incontestável — pressões que igualmente produzem sofrimento e impactos na saúde mental.

A manutenção acrítica de padrões tradicionais pode contribuir para a perpetuação de desigualdades e conflitos, afetando a qualidade de vida coletiva. Romper com estruturas rígidas não significa abandonar valores, mas submetê-los ao debate público e à reflexão crítica.

Em síntese, a conveniência de permanecer em modelos fechados pode oferecer sensação de segurança, mas tende a perpetuar tensões e desigualdades que atingem a sociedade como um todo — ainda que de formas distintas.

E, ao que tudo indica, as disputas simbólicas não cessarão tão cedo. Novas narrativas surgirão, impulsionadas por interpretações apressadas ou intencionalmente ampliadas nas redes sociais. A dinâmica se repete: cria-se a polêmica, mobiliza-se a base, alimenta-se o ciclo de indignação.

O desafio, talvez, seja romper essa lógica e recuperar o espaço da reflexão antes da reação.


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