Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 01/01/2026 09:35
Alterado 01/01/2026 09:55
A Falha Poética nasceu de um incômodo.
Da sensação constante de que o pensamento não anda em linha reta — e que a poesia, muitas vezes, finge que anda.
Amo escrever há anos. Estudo poesia, formas, estruturas. Mas quanto mais aprendo, mais percebo que a mente contemporânea é fragmentada, interrompida, atravessada por estímulos, lembranças, distrações e retornos inesperados.
Então me perguntei: por que a escrita precisaria ser mais organizada do que o pensamento que a produz?
A Falha Poética não surge como erro.
Ela surge como método.
Aqui, o poema não é o resultado final de uma ideia lapidada.
Ele é o registro do processo — com suas contradições, banalidades, lapsos, silêncios e mudanças de rumo.
O texto acontece enquanto o pensamento acontece.
Não há esforço para concluir.
Não há obrigação de fechar sentido.
Se algo termina, é por cansaço — nunca por resolução.
O cotidiano entra no poema sem pedir licença.
O pão queimando, o gesto automático, o sorriso que não sustenta o dia.
A emoção não vem preparada.
Ela se mistura ao irrelevante, ao que parecia pequeno demais para virar verso.
Na Falha Poética, o poema não resolve o autor.
Ele o expõe em processo.
Por isso, os textos não recebem títulos.
São enumerados, como ocorrências, anotações de um sistema instável.
Cada um assume data, lugar e corpo.
Não são obras fechadas, mas fragmentos de um fluxo contínuo.
Não é um movimento feito para agradar.
Não busca consenso.
Reconhece que nem toda escrita quer ser compreendida — algumas querem apenas ser verdadeiras no tropeço.
Abaixo, deixo o manifesto que sustenta essa proposta e o registro inaugural da Falha Poética.
⸻
Não escrevemos para concluir.
Escrevemos porque o pensamento tropeça e segue.
A falha não é desvio.
É onde a linguagem começa.
Interrupção é forma.
Silêncio também escreve.
O poema não resolve o autor.
Ele o expõe em processo.
Aqui nada se fecha.
Se algo termina, é por cansaço.
O que antes era crítica, agora é movimento.
E não é para todos.
⸻
Falha Poética nº 1
Alfa Bile
Itajaí, 30.12.2025
Sorrir ilumina o mundo.
Nem sempre.
Escrevo isso enquanto torra o pão.
Ele demora.
Às vezes
o sorriso é só disfarce.
Quem se banha no meu riso
não seca
as lágrimas do meu pranto.
O pão torrou.
Esqueci de novo.
Distribuo sorrisos.
Minha tristeza
guardo em silêncio,
sem saber
por quê
e se isso importa agora.
Quem gosta de pão torrado?
⸻
A Falha Poética não pede permissão.
Ela acontece.
E segue.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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