A falta de mão de obra virou um dos principais gargalos do setor em 2025, segundo a pesquisa. O estudo revela que a escassez de profissionais é a segunda maior limitação ao crescimento do setor, apontada por 28,1% dos entrevistados, atrás apenas da piora do mercado interno (40,7%). Entre as transportadoras que responderam ter veículos parados, a média é de oito caminhões por empresa.
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O impacto ocorre num segmento altamente dependente da mão de obra. Os motoristas representam 19,5% dos custos operacionais do transporte rodoviário de cargas, enquanto combustível responde por 43,2% e veículos, por 29,1%. Os três insumos concentram 92% dos custos do transporte, com aumento elevado nos últimos anos. A mão de obra foi o que mais subiu: 13,42%, em 24 meses.
Apesar da pressão das despesas, as empresas relatam dificuldades pra repassar os aumentos ao frete. Em 2025, 55,6% das transportadoras reajustaram os preços, com alta média de 6%. Outras 23,7% mantiveram os valores e 20,8% deram descontos médios de 5,7%. A defasagem média entre os custos e o frete recebido pelas empresas ficou em 10,1%, segundo o cálculo da associação.
“O Transporte Rodoviário de Cargas encerrou o ano de 2025 sob forte pressão regulatória e operacional. Embora o volume de cargas tenha apresentado melhora para cerca de 40% das empresas, a rentabilidade foi impactada por três fatores críticos que exigem a recomposição imediata dos fretes”, avalia a NTC&Logística.
Os três fatores são os novos custos com seguros, mudança no cálculo do frete mínimo e perda de produtividade. O cenário de incerteza, com 30% das empresas projetando piora em 2026, se reflete nos investimentos. Em 2025, 61,2% das transportadoras não compraram veículos. Para 2026, 61,5% não devem renovar a frota. Ainda assim, há interesse das empresas em investir em treinamento e qualificação.
Sindicato defende capacitação e investimentos em infraestrutura contra colapso
O Sindicato das Empresas de Veículos de Carga de Itajaí (Seveículos) analisa que, quando o cenário é trazido pra realidade de Itajaí, o impacto é ainda mais desafiador. “Itajaí é um dos principais complexos portuários e logísticos do Brasil. A dinâmica de importação e exportação requer uma frota capaz, altamente qualificada e em constante movimento”, ressalta o presidente da entidade, Djonas Cidclei Fernandes.
Segundo comentou em nota, a falta de um motorista não só torna a operação diária mais cara, como também ameaça a fluidez das cargas. Ele informa que as transportadoras locais, representadas pelo sindicato, vivem os apontamentos da pesquisa nacional: a dificuldade de reter talentos, a pressão dos custos e as decisões judiciais que reduzem a disponibilidade da frota.
“Tudo isso eleva o custo fixo por percurso e reduz a lucratividade das empresas, que já enfrentam a defasagem no valor dos fretes”, considera. Pra que a logística de Itajaí siga como referência no desenvolvimento regional e nacional, o sindicato destaca que é preciso priorizar o enfrentamento do colapso de mão de obra. O esforço deve ser conjunto, entre o setor produtivo e as entidades representativas, pra atrair e manter os profissionais.
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“Isso requer investimentos significativos na capacitação, além de mais infraestrutura nas estradas, segurança e condições de trabalho. É o que mais de 92% das empresas têm como objetivo realizar”, frisa o presidente. “Dado que a tecnologia já está presente nos caminhões, a eficiência dos portos não se sustenta sem o capital humano. Sem um motorista qualificado, a carga não é transportada, o porto não se movimenta e a economia não se desenvolve”, completa.
Salário e condições de trabalho desvalorizam profissão
O secretário do Sindicato dos Motoristas de Itajaí e Região (Sitraroit), Carlos César Pereira, avalia que o principal motivo pro apagão de mão de obra é o baixo salário, mas as condições de trabalho também afugentam os trabalhadores. Ele compara que um caminhoneiro ganha cerca de R$ 4 mil por mês rodando o Brasil, enquanto um motorista de ônibus urbano ganha R$ 3,5 mil, trabalhando dentro da cidade e podendo tirar até R$ 5 mil com horas extras.
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Nesse cenário, César comenta que é mais vantajoso ser motorista de coletivo, que pode estar em casa toda noite com a família e ter uma folga semanal, do que ir pras estradas, ficando dias longe de casa e correndo riscos. Ele também observa a responsabilidade do caminhoneiro com o veículo, que pode custar entre R$ 2 e R$ 3 milhões, além da carga transportada, que pode valer até mais que o caminhão.
O secretário lembra que o sindicato briga todos os anos por melhores salários, mas cita que as empresas alegam não poder pagar mais diante do baixo frete e do aumento de custos. Para ele, o reflexo é a situação atual, com a escassez de profissionais no setor. “O Sindicato dos Motoristas de Itajaí sempre alertou as empresas desse perigo, que iria chegar uma época de falta de mão de obra de motorista na cidade e no Brasil”, disse.
César explica que caminhoneiros comissionados acabam usando o valor pra despesas nas estradas, como alimentação, não refletindo em ganho real no final do mês. Com as dificuldades de contratação pelas empresas, o sindicato informa que elas buscam atrair os trabalhadores com vantagens como plano de saúde e bonificações. Ainda assim, muitos motoristas não querem mais os perigos das rodovias. “A falta de mão de obra vai continuar”, alerta César.
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Para a profissão se tornar mais atrativa, ele reforça a necessidade de melhores salários e condições de trabalho, incluindo locais pra parada e descanso nas estradas. “As condições que são oferecidas hoje e o baixo salário fazem com que o motorista se afaste. Se um motorista desse aprender um trabalho de pedreiro, ou de carpinteiro, ele vai ganhar R$ 1 mil, R$ 1,5 mil por semana, que dá R$ 6 mil por mês, e ficando em casa, com a família, sábado e domingo”, reflete.