O caso acontece na rua Felipe Schmidt há pelo menos três meses. Ali, gatos selvagens vivem entre telhados, terrenos e quintais. Muitos apresentam feridas abertas, típicas da esporotricose. São ariscos e não deixam ninguém se aproximar.
Continua depois da publicidade
Apesar da imagem que muita gente faz, o gato não é o vilão dessa história. Ele também é vítima. O fungo da esporotricose vive na matéria orgânica do ambiente, como solo, restos de plantas e áreas abandonadas. O animal entra em contato com esse ambiente, adoece e sofre, embora também acabe atuando como vetor da doença.
Doença cresce e preocupa
Os números mostram que o problema está longe de ser pequeno. Em 2025, Itajaí registrou 328 casos confirmados de esporotricose em animais. Entre humanos, foram 27 casos confirmados e 55 ainda em investigação.
Em pessoas, a doença pode causar feridas profundas, nódulos dolorosos e, em situações mais graves, atingir ossos, articulações e até os pulmões. Na metade do ano, Itajaí chegou a liderar as notificações da doença em humanos, junto com Joinville.
“Isso não é problema de uma senhora”
A denúncia partiu da filha da idosa. Segundo ela, nenhum dos gatos pertence à família. Os animais teriam migrado para a região após demolições no entorno e passaram a se esconder em terrenos com mato, telhados e áreas pouco movimentadas.
Por pena dos animais, a idosa e alguns vizinhos chegaram a colocar comida no local. Com o tempo, o número de gatos aumentou e os sinais da doença ficaram evidentes. O medo maior passou a ser a contaminação.
Tentativas frustradas de captura
A família, junto com o veterinário Marco Antônio Marques, que acompanha o caso, tentou várias vezes capturar os gatos com gatoeiras, sem sucesso. Os animais evitam as armadilhas e somem durante o dia. “Eles ficam entocados. Só aparecem à noite”, explica a filha da idosa.
Sem conseguir resolver, a idosa pediu ajuda ao Instituto Itajaí Sustentável (Inis). A resposta aumentou o desespero: “Quando pegar o gato, nos avise”.
Em mensagens trocadas com o Inis, a orientação foi clara: para que o animal fosse recolhido, era preciso capturá-lo antes. Se a idosa conseguisse colocar o gato na gaiola, deveria avisar para que a equipe fosse buscar.
Continua depois da publicidade
A família se revoltou com a resposta. “Como uma senhora de 75 anos vai capturar gatos selvagens doentes?”, questiona a filha. “Os gatos são selvagens, ariscos e essa doença passa para humanos. Não dá para jogar essa responsabilidade pra ela”, relata.
Vereadora tentava intermediar
A vereadora Renata Narciso, que também atua como protetora de animais, afirma que já acompanhava o caso havia algum tempo e tentava interceder junto ao poder público. Segundo ela, os gatos são extremamente ariscos e não entravam na gatoeira, o que dificultava a captura.
“Infelizmente, não existe uma equipe específica para ficar no local. Às vezes, a captura demora dias. Por isso, é pedido que a pessoa que está em contato com o gato ajude nesse processo”, afirmou a vereadora.
Continua depois da publicidade
Captura após questionamento
Até então, a orientação do Inis era de que o recolhimento só poderia acontecer depois que o animal estivesse capturado. Em nota inicial, o instituto informou ao DIARINHO que acompanhava o caso e que a idosa havia concordado em ajudar colocando alimento na gatoeira, já que não haveria equipe disponível para permanecer no local.
Questionado pela reportagem, o Inis afirmou que não tem estrutura para manter um profissional monitorando a área 24 horas por dia e que depende da colaboração da comunidade.
Horas depois, ainda no mesmo dia do contato da reportagem, o Inis informou ao DIARINHO que havia deslocado uma equipe até a rua Felipe Schmidt para tentar a captura. A mudança de postura teve resultado: no mesmo dia, o gato em estado mais grave foi capturado e recolhido para avaliação.
Continua depois da publicidade
De quem é a responsabilidade?
A Lei de Crimes Ambientais diz que maus-tratos a animais é crime. Isso pode incluir deixar de prestar socorro, inclusive por parte de agentes públicos, quando a responsabilidade pela situação está clara.
A Constituição também estabelece que é dever do poder público proteger a fauna e zelar pela saúde da população, o que inclui o controle de zoonoses.
Segundo o veterinário Marco Antônio Marques os animais não têm tutor. “São gatos da rua, não são domiciliados. No meu ponto de vista, a responsabilidade [da captura] seria do poder público”, afirmou.
Fungo resistente
O veterinário afirma que a situação reflete um problema maior na cidade. Segundo ele, os casos seguem aumentando e já há resistência ao tratamento mais comum. Quando é preciso usar medicamentos mais agressivos, o custo pesa no bolso. “Tem gente que não consegue pagar. Está piorando cada vez mais”, alerta.
Ele explica que a captura é fundamental para tentar conter o avanço da doença. Por viverem soltos, esses gatos circulam por telhados, terrenos, entram em quintais e áreas comuns, o que facilita a transmissão. Enquanto continuam na rua, o ciclo da doença não é interrompido e o risco segue espalhado pela cidade.
O que acontece depois da captura
Segundo o Inis, todos os animais recolhidos passam por avaliação veterinária e exames. A eutanásia só acontece em casos extremos, quando não há chance de recuperação sem sofrimento intenso.
Atualmente, 12 animais com esporotricose estão em tratamento na Unidade de Acolhimento Provisório de Animais (Uapa). O tratamento dura cerca de seis meses. Quando há chance de recuperação, o animal é tratado.
Enquanto isso, outros gatos doentes seguem soltos no centro. E o medo continua não só pelos animais, mas por quem vive ao redor deles.