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Rosan da Rocha é catarinense, manezinho, deísta, advogado, professor e promotor de Justiça aposentado. Sem preconceitos, é amante da natureza e segue aprendendo e conhecendo melhor o ser humano

O mundo caminha para uma nova guerra global?


O mundo caminha para uma nova guerra global?
O mundo caminha para uma nova guerra global? (Foto: Imagem gerada por IA)

O mundo nunca esteve tão próximo de vivenciar uma nova grande guerra mundial. Não apenas pela ganância ou pela crueldade de governantes de países com elevado poder bélico, mas sobretudo pela crescente presença de discursos e práticas marcadas pela desumanização, pela violência e pela ausência de princípios morais e consciência coletiva.

A história demonstra que grandes guerras não surgem do nada. Elas são resultado de processos acumulados, tensões mal resolvidas e decisões políticas equivocadas.

A Primeira Guerra Mundial teve início em 1914, impulsionada pelo nacionalismo exacerbado, pelo imperialismo, pelo militarismo e por um rígido sistema de alianças entre as potências europeias. O estopim foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, na cidade de Sarajevo.

Após o atentado, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. A Rússia saiu em defesa dos sérvios. A Alemanha apoiou o Império Austro-Húngaro e declarou guerra à Rússia e à França. A invasão alemã da Bélgica levou a Inglaterra a entrar no conflito. Em poucas semanas, a Europa estava mergulhada em uma guerra de proporções inéditas.

O conflito só terminou em 1918, com a rendição da Alemanha. No ano seguinte, o Tratado de Versalhes impôs duras punições aos países derrotados, especialmente à Alemanha, que perdeu territórios, foi obrigada a pagar pesadas indenizações, teve seu exército drasticamente reduzido e assumiu a culpa formal pela guerra.

Essas punições, longe de garantir uma paz duradoura, lançaram as bases para a Segunda Guerra Mundial.

Em 1939, a Alemanha nazista, liderada por Adolf Hitler, invadiu a Polônia. O regime nazista rejeitava as imposições do Tratado de Versalhes e defendia a expansão territorial alemã. O nazismo pregava o militarismo, o nacionalismo extremo e o racismo como pilares ideológicos do Estado.

Após a invasão da Polônia, Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha. Com a entrada de diversas nações, o conflito tornou-se verdadeiramente mundial. A Alemanha foi derrotada após ser atacada pelos aliados em duas frentes: pelo leste, pela União Soviética, e pelo oeste, por Estados Unidos, Inglaterra e França. Diante da derrota iminente, Adolf Hitler suicidou-se em abril de 1945. A rendição alemã ocorreu oficialmente em 8 de maio de 1945, encerrando a guerra na Europa.

No entanto, o Japão continuou lutando. O país havia ingressado na guerra com o objetivo de expandir seu território, garantir acesso a recursos naturais e reagir às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. O ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, em 1941, levou à entrada direta dos EUA no conflito. Como resposta final, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Pouco depois, a União Soviética declarou guerra ao Japão, que se rendeu em setembro de 1945, encerrando definitivamente a Segunda Guerra Mundial.

Observa-se, assim, que a Primeira Guerra Mundial foi fruto das rivalidades entre potências europeias e de alianças militares rígidas, enquanto a Segunda Guerra Mundial resultou diretamente das punições impostas após a primeira, da crise econômica global e da ascensão de regimes totalitários.

Atualmente, o mundo volta a presenciar sinais preocupantes. A Rússia, ao invadir a Ucrânia em 2022, deu início a uma guerra em larga escala, embora o conflito já se arrastasse desde 2014, quando anexou a Crimeia e passou a apoiar separatistas no leste ucraniano. A ofensiva russa está relacionada à oposição à expansão da Otan e ao desejo de manter influência geopolítica sobre a Ucrânia, especialmente após a revolução popular de 2014, que afastou um presidente alinhado a Moscou e aproximou o país da União Europeia e dos Estados Unidos.

Além disso, a Ucrânia possui uma das maiores riquezas agrícolas do planeta, com solo extremamente fértil, sendo conhecida como o “celeiro da Europa”, fator que também desperta cobiça geopolítica.

Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm uma política externa marcada por intervenções. Durante o governo Trump, realizaram ações militares ou ataques em países como Venezuela, Nigéria, Síria, Irã, Iêmen e Somália, sob o argumento de combater ameaças à segurança nacional. Contudo, é evidente o interesse estratégico em manter a hegemonia do dólar, além do forte apetite por minerais e petróleo. A Venezuela, detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, ocupa papel central nesse tabuleiro geopolítico.

Outro exemplo é a Groenlândia. Os Estados Unidos já demonstraram interesse direto no território por sua posição estratégica no Ártico, suas riquezas naturais e pela disputa crescente com Rússia e China. Com o derretimento das calotas polares, novas rotas comerciais e áreas ricas em recursos estão surgindo. A Rússia intensifica sua presença militar na região, enquanto a China investe em mineração e infraestrutura, o que leva os EUA a considerarem a Groenlândia peça-chave para a defesa da América do Norte.

Diante desse cenário, observa-se a combinação de fatores de risco reais que podem, se mal administrados, conduzir a um conflito global. O maior perigo surge quando grandes potências entram em confronto direto ou indireto: Estados Unidos e Rússia, no contexto da Ucrânia; Estados Unidos e China, em torno de Taiwan e do Mar do Sul da China; ou ainda Otan e Rússia.

A disputa por recursos estratégicos — como petróleo, gás, água, terras raras e alimentos — tende a se intensificar diante do crescimento populacional, das mudanças climáticas e das crises econômicas. Historicamente, grandes crises econômicas precederam grandes guerras, ao aumentarem tensões sociais, fortalecerem regimes autoritários e estimularem conflitos externos como forma de desviar a atenção interna.

Some-se a isso o enfraquecimento das instituições internacionais. A Onu, criada após a Segunda Guerra Mundial, mostra-se cada vez mais limitada e necessita de profundas reformas. Tratados internacionais são frequentemente desrespeitados, e a diplomacia vem sendo gradualmente substituída pela força militar. Sem mediação eficaz, os conflitos tendem a escalar.

Por fim, talvez o fator mais preocupante seja a ascensão de nacionalismos extremos e ideologias autoritárias. Esses movimentos enfraquecem a diplomacia, alimentam discursos de ódio e inimigos externos e facilitam decisões militares agressivas. Não por acaso, foi esse ambiente que quase levou o Brasil a um golpe de Estado recente, colocando sua democracia em sério risco.

A história já mostrou, mais de uma vez, onde esse caminho pode levar.


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