DESPEDIDA

Barbearia “raiz” da avenida Caninana fecha após mais de 40 anos de trabalho

Seu Valdemar, 74 anos, explica que o corpo já não acompanhava o ritmo de trabalho

 Valdemar recebe abraços e o carinho de ex-clientes, como Alexandre da Silva
( Fotos: Camila Diel)
Valdemar recebe abraços e o carinho de ex-clientes, como Alexandre da Silva ( Fotos: Camila Diel)

Depois de mais de quatro décadas de porta aberta, a barbearia dos irmãos Valdemar e Valmor Brugnago fechou na Caninana, como os moradores chamam a avenida Irineu Bornhausen, no bairro São João, em Itajaí. O ponto histórico encerrou as atividades há cerca de dois meses e deixou saudade entre clientes e amigos.

Seu Valdemar visitou o antigo ponto da barbearia junto com a reportagem do DIARINHO e, a todo momento, encontrava alguém que parava para conversar. “Faz falta? Muita falta!”, disse um ...

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Seu Valdemar visitou o antigo ponto da barbearia junto com a reportagem do DIARINHO e, a todo momento, encontrava alguém que parava para conversar. “Faz falta? Muita falta!”, disse um amigo ao reencontrá-lo na rua. Outro brincou: “Agora vamos ter que achar um barbeiro novo”.

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A cena se repete com frequência. Abraços, cumprimentos e lembranças do tempo em que a tesoura não parava. “Fez um bom trabalho por Itajaí. Mais de 40 anos”, comentou um conhecido. Teve até quem exagerasse na fidelidade: “Tem gente falando que não vai mais nem cortar o cabelo”.

O espaço marcou gerações de clientes no bairro São João. Mais do que um lugar para cortar cabelo ou fazer barba, a barbearia virou ponto de encontro para moradores antigos, que passavam por lá para conversar, dar risada e até ler o DIARINHO.

Com 74 anos, seu Valdemar conversou com a reportagem com a ajuda da sobrinha Elisabeth Schauffert. A memória já falha em alguns momentos, mas ele lembra do essencial: a amizade construída ali. “Muita amizade”, resumiu.

Idade, cansaço e menos clientela

O empresário Alexandre Vasco da Silva, dono da AVS Veículos e vizinho antigo do ponto, diz que conheceu os irmãos quando abriu a loja dele, há cerca de 25 anos. Com o tempo, a relação virou amizade pra valer. Alexandre costuma brincar que considera seu Valdemar quase como um filho, mesmo sendo 20 anos mais novo.

Ele conta que hoje procura ajudar o amigo como pode, principalmente neste momento mais delicado de

saúde. “Eu cuido dele, ajudo no que for preciso”, diz.

"Quando eu cheguei aqui eles já tinham a barbearia. Eu acho que eles têm desde a década de 80”, lembra.

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Segundo ele, o fechamento veio por um combo de idade, desgaste do trabalho e perda de clientes com o tempo. “Barbeiro fica o dia todo em pé. A idade chegou, o cansaço bateu”, diz.

O próprio seu Valdemar confirmou ao DIARINHO que o corpo já não acompanhava mais o ritmo da profissão. Segundo ele, nos últimos tempos o braço já não aguentava mais a tesoura, o que pesou na decisão de parar.

Alexandre também afirma que a clientela foi diminuindo com o passar dos anos. “O ciclo da vida vai seguindo. A clientela foi diminuindo porque os mais antigos foram morrendo”, diz.

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Tristeza

A sobrinha dos dois, Elisabeth Schauffert, conta que um dos irmãos parou primeiro e o outro seguiu por um tempo sozinho. Para ela, o afastamento mexeu com ambos. “Esse afastamento balançou tanto um como o outro”, analisa.

Alexandre diz que deu para perceber no dia a dia. “Os dois ficaram tristes. Trabalhar sozinho não é fácil”, conta.

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Elisabeth diz que os dois tios ficaram debilitados e hoje estão acamados. “Hoje, o Valdemar e o Valmor estão acamados. É muito triste”, relata, segurando as lágrimas.

 

Ponto de conversa e leitura do DIARINHO

Apesar do fechamento da barbearia antiga, a profissão segue na família. Elisabeth conta que Leandro, filho de Valmor, também é barbeiro e tem um espaço próprio.

“Passou de geração em geração, de pai para filho”, diz. A barbearia era muito mais do que um lugar para cortar cabelo. Com o passar dos anos, virou ponto de encontro da turma do bairro São João. Muita gente passava por ali só para conversar, dar risada e acompanhar as notícias do dia.

Segundo o empresário Alexandre Vasco da Silva, era comum alguém comprar o DIARINHO na padaria e levar para a barbearia. Para ele, o local funcionava quase como um pequeno clube do bairro, principalmente nas manhãs.

O morador Thiago Zanonato diz que, mesmo sendo de uma geração mais nova, sempre acompanhou o carinho das pessoas pelo barbeiro. “É um ser humano muito querido. O pessoal tem um carinho muito grande por ele”, afirma. Cliente antigo, Jaime Santana também lembra da rotina. “Todos os dias a gente passava ali para conversar, ler o DIARINHO, falar de futebol. Agora faz falta”, conta.

 

Barbearia “raiz”

A barbearia ficou conhecida por manter o jeito antigo, sem frescura. Alexandre lembra que o ambiente parecia “congelado” no tempo. “A cadeira era a mesma de 50 anos atrás. Foi a primeira e foi a última”, conta. “Era tudo bem tradicional, bem rústico”, lembra Alexandre. O atendimento era simples, sem pressa, do jeito que os clientes antigos gostavam. O corte de cabelo vinha sempre acompanhado de conversa, risada e comentário sobre as notícias do dia.

 

O que vem por aí

Local pode virar conveniência e manter movimento na região
Local pode virar conveniência e manter movimento na região

 

O espaço onde funcionava a barbearia deve ganhar um novo tipo de comércio nos próximos meses. A ideia é aproveitar o local, que por décadas foi ponto de encontro do bairro, para manter algum movimento na região.

Segundo Alexandre, existe conversa para abrir uma pequena conveniência. A proposta seria algo simples, com venda de bebidas, doces e produtos básicos, mantendo também o hábito das pessoas passarem por ali para conversar.

Quem negocia o aluguel do ponto é Luiz Carlos Jacinto, conhecido antigo dos irmãos e frequentador da barbearia há mais de 40 anos. Ele diz que ainda estuda o que pode funcionar melhor no local. “Eles deixaram um legado muito bom aqui. São pessoas muito boas”, afirma.

 

Gratidão

Valmor e Valdemar
Valmor e Valdemar

 

Elisabeth diz que a família só tem agradecimentos pelos clientes e amigos. “Só agradecer o carinho”, afirma. Ela reforça o orgulho da história dos tios. “Trabalhadores; honestos”, diz. E para o São João fica a lembrança de um lugar simples, que ajudou a costurar amizades por décadas.



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