O assassinato de Daiane Simão pelo ex, em frente ao quartel da PM de Balneário Piçarras, chocou a região. Para falar sobre esse feminicídio e outras formas de violência contra as mulheres, as jornalistas Fran Marcon e Ana Lúcia da Silva entrevistaram Regina Santos da Silva, líder social, ativista e empreendedora. Ela é fundadora do Coletivo Mulheres do Brasil em Ação (CMBA), que tem sede em Penha e atua no acolhimento de mulheres vítimas de violência em Penha, Barra Velha, Navegantes e Piçarras.
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Santa Catarina teve redução no número de mortes em geral. No entanto, no caso do feminicídio, houve aumento: em 2024 foram 51 casos e 2025 terminou com 52. Só em janeiro deste ano, quatro mulheres já foram assassinadas. Por que tantas mulheres estão morrendo?
Regina: Já começa pelo caso que ocorreu no sábado [17/1]. Era uma mulher que estava sozinha. Ela tinha medida protetiva, mas não teve a proteção que deveria ter tido. Foi o caso da Daiane Simão, assassinada pelo ex-companheiro. Eu vejo que isso não acontece só aqui, mas no Brasil todo. Estivemos numa conferência nacional e a juíza do Conselho Nacional de Justiça entrou em contato com o CMBA para que a sociedade civil organizada possa atuar, não só em Santa Catarina, mas no Brasil inteiro, acolhendo essas mulheres. Quando a gente fala em acolhimento, não é só sobre ir para um abrigo. É acolher essas mulheres nos municípios que não têm centro de referência para atendimento.
“O homem é irracional. Primeiro ele faz, depois se arrepende, às vezes”
Dois crimes recentes chocaram a região, o da Daiane Simão, que você acabou de citar, e o da menina Isabela Borck, assassinada pelo próprio pai. Ambas tinham medida protetiva contra os agressores. Por que essas medidas não têm sido eficazes para salvar vidas?
Regina: As falhas estão nos acompanhamentos. Vou dar alguns exemplos: tivemos três casos gravíssimos recentemente. Todos os casos de mulheres faccionadas. Quando falo faccionadas, são mulheres em que o autor é usuário e envolvido com o tráfico. Eram casos em que esse autor não poderia estar solto. A gente sabia que havia risco. Em duas situações conversei com o juiz de Penha: a PM prende em flagrante à noite. De manhã, tem audiência de custódia, e esse autor vai para a rua. Não dá tempo, às vezes, de comunicar à vítima. Quando ocorre flagrante, é importante que essa mulher já vá para o acolhimento, para que ela seja resguardada e dê tempo de "esfriar" esse autor. O homem é irracional. Primeiro ele faz, depois se arrepende, às vezes. O caso dessa moça [Daiane], por ele ser faccionado, ela teria que ter sido retirada do estado. Como já fizemos inúmeras vezes. E essas mulheres, graças a Deus, estão salvas. É feito um plano de ação de 15 dias, elaborado um relatório, o Ministério Público avalia, o juiz também. A gente tem equipe com psicólogas, terapeutas, advogadas. Nosso trabalho é totalmente voluntário. Também é apartidário. É um trabalho invisível. [Quem faz atualmente esse trabalho em Piçarras?] Quem deve estar fazendo, que eu espero que esteja, é o Creas do município. Vamos falar do caso da Daiane: em outubro de 2024, ela pediu a medida protetiva, foi quando o CMBA saiu de lá. Depois que ela pediu, ela se sentiu culpada, não sabemos o porquê, e retirou a medida. Ela voltou para o ciclo da violência. Conversei com o irmão dela, o Daniel Simão, advogado. Ela passou por agressão física, patrimonial, emocional... Era mãe de quatro crianças, sendo que o de 18 anos provavelmente vai ajudar a criar os irmãos. Sozinha, não conseguiu sair da violência. Em outubro de 2025, ela foi até a delegacia e pediu a medida novamente. O autor foi preso. Geralmente, são 90 dias de prisão até a audiência. [Houve essa falha: quando ele foi solto, de ela ser comunicada e acolhida para evitar que ele a perseguisse e acabasse matando, como aconteceu...] Sim, principalmente pela frase que ele disse à família: “a família só vai vê-la no cemitério”. E ele realmente fez. Sobre ter sido na frente da PM: conheço aquele batalhão. Já fui até lá. Os muros têm portão altos. Mesmo que ela tivesse apertado a campainha, não daria tempo de os policiais chegarem. [Naquele momento ela estava indo atrás de proteção?] Ela ligou para o irmão dizendo que o ex estava “com cara de bicho”. Ele disse: vai até a delegacia. A delegacia está de plantão desde 20 de dezembro, mas fica fechada. Não sabemos se ela parou, porque ele estava com uma Biz e ela percebeu que ele não estava por perto. Ela deu a volta no quarteirão. Ele a alcançou. Foi muito rápido. O irmão ainda estava no telefone com ela. Ia dizer para não parar. Foi quando ela desceu do carro e... não se sabe se a ligação caiu. Se ela estivesse dentro do carro, com orientação e com o botão do pânico... O botão da Rede Catarina já salvou muitas vidas, ele tem geolocalizador. Se ela acionasse, ficasse no carro, algum policial a contataria.
“O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher”
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Como a sociedade pode cobrar o envio de recursos, de emendas parlamentares para projetos de acolhimento e prevenção? O coletivo que você integra já recebeu alguma proposta de parceria com verbas desse tipo?
Regina: Desde 2025, e até antes, a gente teve um apoio muito grande da bancada feminina da Alesc. A deputada Paulinha [da Silva], a Luciane Carminatti, a Ada [de Luca]. Inclusive, neste ano, a deputada Paulinha doou um veículo, porque a gente não tinha carro. [Vocês podem receber emendas parlamentares porque são uma ONG. Vocês chegam a receber?] Este ano, a gente recebeu uma emenda da deputada Paulinha, no valor de R$ 100 mil. A Câmara Municipal de Penha também contribuiu, cada vereador destinou um valor. Agora, em março, devem vir aproximadamente R$ 235 mil. Esse é o recurso que temos para atuar neste ano.
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“A própria medida protetiva prevê que, se o autor estiver armado, a arma deve ser retirada”
Em 2024, houve resistência em Barra Velha para autorizar uma manifestação dentro da câmara de vereadores, que seria feita com um varal de roupas de vítimas de violência. Como você encara esse tipo de resistência à mobilização das mulheres?
Regina: Eu vejo que as mulheres de Santa Catarina estão aprendendo a ir para a rua. O Varal da Vergonha é da Eliane Belfort. Ele é patenteado, e o CMBA tem até autorização para trazer esse movimento para cá. O que acontece em Barra Velha? Enquanto não for criado o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, como nós lutamos para ter em Piçarras, as coisas vão continuar paradas. A gente precisa começar a trabalhar a questão do machismo e do patriarcado. Santa Catarina tem essa questão da branquitude, da cultura alemã. Precisamos falar mais sobre violência doméstica, sobre abuso sexual. Pela escuta que fazemos no CMBA, a maioria das mulheres que atendemos sofreu abuso ainda na infância, por pai, padrasto, tio, vizinho, pessoas próximas. Sem esse tratamento desde a infância, muitas acabam conhecendo seu primeiro agressor na adolescência ou juventude. Não denunciam, não passam por atendimento psicológico e seguem repetindo o ciclo da violência. Nosso atendimento é voltado para ajudar a mulher a sair do ciclo da violência.
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“O homem é irracional. Primeiro ele faz, depois se arrepende, às vezes”
Em cidades do litoral há casos de vereadores com medidas protetivas, inclusive um que atua no comércio de armas. Falta conscientização do eleitorado sobre a vida pregressa dos candidatos?
Regina: Em primeiro lugar, é preciso criar uma lei que impeça a candidatura de quem tem medida protetiva contra si. Mas, acima de tudo, a gente precisa saber em quem está votando. Este é um ano político. É o momento de escolher alguém que realmente nos represente. Às vezes, votamos no "Zezinho da padaria", no pastor, mas será que essa pessoa está qualificada? Vai saber criar leis? É esse tipo de reflexão que a população precisa fazer. Para isso, é necessário preparar o eleitorado.
“As mulheres de Santa Catarina estão aprendendo a ir para a rua”
Além de Barra Velha, quais as outras cidades que não têm o Conselho Municipal de Direitos da Mulher na região?
Regina: Penha ficou parado por alguns anos, mas agora saiu o edital para credenciamento. O processo teve que voltar para a câmara para algumas mudanças. Em Luiz Alves estávamos tentando ajudar a psicóloga Ana Laura, que estava conduzindo a criação do conselho. Já em São João do Itaperiú, ainda não existe. A intenção é que, futuramente, todos os municípios do litoral norte tenham o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.
“A gente precisa começar a trabalhar a questão do machismo e do patriarcado. Santa Catarina tem essa questão da branquitude, da cultura alemã. Precisamos falar mais sobre violência doméstica, sobre abuso sexual”
Você já formou turmas de Promotoras Legais Populares (PLPs) em Penha e outras cidades da região. O que são as PLPs?
Regina: A Promotora Legal Popular começou em 2019, em Balneário Piçarras. Eu trouxe o modelo de São Paulo, porque lá eu já era promotora legal. Trouxemos a formação, que enfrentou bastante resistência. Quem nos deu força foi a Eliane Belfort, do Varal da Vergonha. A formatura da primeira turma, com 36 promotoras legais populares, contou com a presença da desembargadora Rosana Fachin, esposa do ministro Edson Fachin, que apoia o CMBA. Se hoje existe uma casa de referência, se o CMBA apresentou projeto ao Conselho Nacional de Justiça, que será implantado em todo o Brasil, foi graças ao apoio dela. Ela faz parte do CMBA e sabe da importância de termos esse projeto em todo o país, especialmente em SC, de onde ela é natural. Entre as 36 mulheres da primeira turma, havia participantes de Penha, Blumenau, Navegantes, Barra Velha, Joinville e Araquari. A partir dessas mulheres, o CMBA deixou de ser apenas um coletivo, criamos uma diretoria, com algumas PLPs, como a doutora Ângela Parisotto.
O CMBA instalou a Casa de Referência da Mulher no fórum de Penha. Qual a diferença entre uma Casa de Referência e uma Casa de Acolhimento? Que serviços cada uma oferece?
Regina: No acolhimento, ela passa por atendimento psicológico, estabilização emocional, as crianças também são atendidas e alimentadas. Ela não se sente sozinha. Depois, quando estiver mais fortalecida, essa mulher retorna com a Polícia Militar, e tudo é checado. Se o autor descumprir a medida, o acolhimento também serve como proteção. Na casa de referência, as técnicas são especializadas, temos advogadas, psicólogas, terapeutas. Também oferecemos aulas de yoga, defesa pessoal, e temos o CMBA Jovem. A diferença é que, na casa de referência, a mulher recebe esse suporte enquanto permanece em sua própria casa.
"A maioria das mulheres que atendemos sofreu abuso ainda na infância [...] Sem esse tratamento desde a infância, muitas acabam conhecendo seu primeiro agressor na adolescência ou juventude. Não denunciam, não passam por atendimento psicológico e seguem repetindo o ciclo da violência. Nosso atendimento é voltado para ajudar a mulher a sair do ciclo da violência."
Como você vê propostas que defendem a disseminação de armas como forma de autodefesa?
Regina: Eu sou contra. O feminicídio acontece simplesmente pelo fato de a mulher ser mulher e não ter força física para enfrentar o agressor. Por isso existe a medida protetiva. No caso de Piçarras, por exemplo, ele pediu uma arma e uma Biz emprestadas. O homem que cedeu foi preso e isso serve de alerta para que outros pensem duas vezes antes de emprestar arma a alguém. A aula de defesa pessoal tem também outro objetivo. Eu fui atleta, consigo desarmar um homem com faca, mas nem toda mulher tem esse preparo. A defesa pessoal, junto com outras atividades como a yoga, serve para fortalecer mentalmente essas mulheres. E o mais importante: é preciso agir antes do feminicídio. Tirar essa mulher do ciclo de violência antes que chegue à agressão física. A gente já começa a atuar desde os primeiros sinais. [Como é possível perceber os sinais de violência antes de chegar ao crime?] Existem as palestras. Este ano, vamos retomar as ações de prevenção nas escolas. Acho que precisamos melhorar muito isso. Meu neto, de 15 anos, entende o que é violência doméstica. Desde pequeno, participava conosco nas PLPs. E ele me conta absurdos da escola em que estuda. No dia em que ocorreu o feminicídio, uma coleguinha dele me ligou e perguntou: “Tia, qual a diferença entre feminicídio e homicídio?”. Esse tema não está sendo trabalhado nas escolas. A gente precisa preparar professores, monitores.
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