O presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, outro criminoso condenado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro, já declarou em diversas ocasiões que quem decide o candidato da legenda à Presidência da República é o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.
Não se trata de metáfora política. Trata-se de realidade.
Mesmo afastado do poder institucional, Bolsonaro continua atuando como uma espécie de “comandante informal” da direita brasileira. E, como em toda estrutura personalista, o poder não se distribui: ele se concentra e, no caso, dentro da própria família.
O senador Flávio Bolsonaro surge como nome para disputar a Presidência da República. Já Carlos Bolsonaro e Renan Bolsonaro aparecem como possíveis candidatos por Santa Catarina, estado onde nunca tiveram qualquer trajetória política, administrativa ou social relevante.
A escolha não é ideológica. É estratégica.
Santa Catarina tornou-se um dos principais redutos eleitorais do bolsonarismo. É ali que a família sabe que encontrará um eleitorado disposto a votar no sobrenome antes mesmo de analisar o currículo.
Outro filho, Eduardo Bolsonaro, que já teve seu mandato cassado e foi exonerado da PF, enfrenta problemas judiciais que podem comprometer sua elegibilidade e, por isso, não aparece no momento como peça central na engrenagem eleitoral.
Mas o projeto político da família vai além das próprias candidaturas. Bolsonaro também atua na definição de nomes para governos estaduais e para o Senado, interferindo diretamente na organização da direita brasileira.
Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello talvez seja o exemplo mais evidente dessa dinâmica de poder.
Aliado fiel do ex-presidente, Jorginho já declarou publicamente que apoiará qualquer decisão tomada por Bolsonaro. A frase poderia ser interpretada como gesto de lealdade política. Mas os acontecimentos recentes mostram algo que vai além disso.
Inicialmente, o governador indicava apoio ao senador Esperidião Amin para compor a disputa ao Senado ao lado de Carlos Bolsonaro. Ao mesmo tempo, chegou a sugerir que a deputada Caroline De Toni buscasse outro partido caso quisesse disputar o Senado.
Tudo mudou quando Bolsonaro manifestou preferência por De Toni.
De forma imediata, Amin foi colocado de lado e passou-se a afirmar que as candidaturas de Carlos Bolsonaro e Caroline De Toni estavam consolidadas.
É difícil não enxergar nessa mudança abrupta algo próximo de submissão política.
Santa Catarina é um dos estados mais prósperos do país. Espera-se que seu governador lidere decisões estratégicas com autonomia e compromisso institucional. No entanto, o que se observa é uma relação que lembra mais a de um vassalo obediente do que a de um líder político independente.
E essa postura pode cobrar seu preço eleitoral.
O MDB catarinense já rompeu com o governo após a escolha do prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Partido Novo, como vice na chapa de reeleição.
Ao mesmo tempo, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, lançou sua pré-candidatura ao governo estadual, abrindo mais uma frente de disputa dentro da própria direita.
No Senado, Esperidião Amin também já sinalizou que pretende concorrer, o que amplia ainda mais a fragmentação do campo conservador no estado.
Ainda assim, a direita continua favorita em Santa Catarina. O estado possui um eleitorado majoritariamente conservador e fortemente alinhado ao bolsonarismo, o que dificulta a construção de uma alternativa competitiva pela esquerda.
Curiosamente, o maior desgaste político parece surgir dentro da própria direita — alimentado justamente pelas disputas de lealdade ao clã Bolsonaro.
Em Balneário Camboriú, as fissuras também começam a aparecer. O ex-prefeito Fabrício Oliveira, hoje secretário estadual de Planejamento, foi preterido como candidato a deputado estadual pelo governador, que preferiu apoiar o atual deputado Carlos Humberto, adversário interno dentro do próprio PL.
Restaria a Fabrício tentar uma vaga na Câmara Federal — tarefa difícil diante da concorrência interna do partido — ou buscar abrigo em outra sigla.
Já a prefeita Juliana Pavan tende a apoiar João Rodrigues ao governo estadual, além das candidaturas de Carlos Bolsonaro e Caroline De Toni ao Senado. Só apoiará Amin se João Rodrigues se aliar com o PP, o que é muito difícil.
Enquanto isso, muitos políticos continuam surfando na onda do bolsonarismo.
Mesmo cercado de polêmicas, investigações e ataques às instituições democráticas, o movimento político liderado por Bolsonaro ainda mobiliza milhões de eleitores.
Há quem acredite sinceramente nessa causa. Mas também há muitos oportunistas — políticos que se declaram bolsonaristas enquanto isso rende votos, e que abandonarão o barco no primeiro sinal de desgaste eleitoral.
Esses talvez sejam os mais perigosos.
O bolsonarismo, afinal, não funciona apenas como corrente política. Ele se comporta, muitas vezes, como uma estrutura de devoção.
Por isso a comparação que faço é inevitável: o bolsonarismo lembra uma seita política. Um movimento profundamente personalista, guiado por fidelidade quase absoluta ao líder e frequentemente impermeável a críticas, fatos ou mudanças sociais.
Enquanto essa lógica prevalecer, a política continuará sendo menos um espaço de debate público — e mais um campo de disputa por lealdade.