A formação da religiosidade brasileira inscreve-se em um campo histórico marcado por deslocamentos forçados, assimetrias de poder, processos coloniais e intensas negociações simbólicas. As práticas devocionais associadas à Nossa Senhora dos Navegantes e a Iemanjá, especialmente as celebrações do dia 2 de fevereiro, oferecem uma oportunidade privilegiada para a observação e análise dos processos de hibridização cultural, conceito formulado por Néstor García Canclini, bem como para a compreensão histórica da religiosidade popular na região de Itajaí e Navegantes.
No catolicismo, o dia 2 de fevereiro corresponde à festa da Apresentação do Senhor no Templo, também conhecida como festa de Nossa Senhora das Candeias ou Candelária, momento liturgicamente associado à purificação de Maria e à apresentação ritual de Jesus, 40 dias após seu nascimento. O vínculo da Virgem Maria, figura da mãe protetora e acolhedora, à devoção dos navegantes remonta às tradições ibéricas no período das Cruzadas (séculos XI a XII), em que portugueses e espanhóis invocavam a proteção mariana ao cruzarem o Mar Mediterrâneo em direção ao oriente, em expedições militares e religiosas cristãs, para retomar territórios do domínio muçulmano. Envolvendo nobres e camponeses, as Cruzadas articulavam interesses religiosos, econômicos e expansionistas.
Com o processo de colonização no Brasil, nas regiões litorâneas e ribeirinhas essas tradições foram progressivamente ressignificadas pela devoção popular, que passou a invocar Maria sob a forma de Nossa Senhora dos Navegantes, atribuindo-lhe a função de protetora dos homens do mar, dos pescadores e dos viajantes das águas. No imaginário litorâneo, o mar assume simultaneamente papel de subsistência, ameaça e espaço de transcendência, favorecendo a construção de práticas religiosas de proteção, promessa e agradecimentos. As procissões fluviais e marítimas associadas à Nossa Senhora dos Navegantes funcionam, assim, como dispositivos simbólicos de ordenação do mundo e de produção de sentido diante da instabilidade da vida de quem vive próximo do mar ou dos rios.
Paralelamente ao catolicismo, nas religiões de matrizes afro-brasileiras, especialmente no Candomblé e na Umbanda, o 2 de fevereiro consolida-se como momento de culto a Iemanjá, orixá feminino associado às águas salgadas, à maternidade, à fecundidade e à origem da vida. Iemanjá também ocupa, no panteão afro-brasileiro, o lugar da mãe, figura que articula proteção, acolhimento e potência geradora, ao mesmo tempo em que mantém uma relação com a ideia de profundidade, mistério e força indomável da natureza.
A aproximação simbólica entre as figuras de Maria e Iemanjá deve ser compreendida no interior das estratégias históricas de sobrevivência religiosa desenvolvidas por africanos e seus descendentes no Brasil escravista. Diante de toda a violência sofrida pelos negros escravizados no processo colonizador, da repressão e silenciamento de suas práticas culturais, os orixás foram, em muitos casos, associados a santos católicos, produzindo um campo de correspondências que permitia tanto a continuidade de seus ritos quanto a dissimulação diante do controle do sistema colonial.
Os dias santos católicos são um exemplo de dispositivos ambíguos: oportunizaram momentos de pausa que facilitaram a manutenção e adaptação das religiões africanas através de encontros e práticas públicas discretas, mesmo sob vigilância e risco de repressão. Nesses dias, o trabalho obrigatoriamente diminuía ou era suspenso, e isso criou janelas de tempo em que pessoas escravizadas podiam se reunir, cultivar práticas religiosas próprias, trocar notícias e manter laços comunitários. A Igreja e as autoridades coloniais por vezes toleravam essas práticas, em parte as incorporavam, mas também fiscalizavam e reprimiam rituais considerados “pagãos” ou perigosos. A escravidão e o controle social limitaram fortemente a liberdade religiosa e muitas práticas tiveram que se adaptar ao sigilo e códigos.
Contudo, abordagens contemporâneas dos estudos culturais nos advertem que essa relação entre santos católicos e entidades de matrizes afro-brasileiras não pode ser reduzida a uma simples lógica de “disfarce”. É nesse ponto que a contribuição teórica do antropólogo argentino Néstor García Canclini se torna fundamental. Para o autor, o hibridismo cultural não designa uma mistura passiva ou a justaposição mecânica de elementos heterogêneos, mas processos históricos nos quais práticas, estruturas e sistemas simbólicos distintos se interpenetram, se rearticulam e produzem novas formações culturais, irreduzíveis às suas origens. O híbrido, portanto, não é o resíduo da dominação, mas o resultado instável de negociações, conflitos e reinvenções das práticas culturais.
À luz dessa perspectiva, a relação entre Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá configura-se como um campo simbólico novo, no qual o catolicismo popular e as religiões afro-brasileiras não apenas coexistem, mas se transformam mutuamente. As festas contemporâneas observadas em cidades como Salvador, Porto Alegre e Itajaí-Navegantes ilustram esse processo: nelas, procissões católicas, oferendas ao mar, rituais afro-religiosos e práticas culturais laicas convivem em um mesmo espaço-tempo ritual, sem que seja possível estabelecer fronteiras rígidas entre cristão e afro, religioso e laico, sagrado e profano.
A água aparece como elemento simbólico central: matriz de vida, espaço de travessia, fronteira entre o conhecido e o desconhecido, lugar simultâneo de origem e dissolução. Essa centralidade reforça a leitura segundo a qual Maria e Iemanjá, mais do que figuras concorrentes, ocupam posições estruturalmente homólogas no imaginário religioso brasileiro, funcionando como diferentes linguagens para a mesma necessidade antropológica de proteção, amparo e mediação com o invisível.
Então quando se refere às festividades de 2 de fevereiro, fala-se do culto a duas figuras diferentes cujas práticas de devoção são hibridizadas: a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes é também a Festa de Iemanjá. Nesse sentido, essa data pode ser compreendida como um marco ritual privilegiado de manifestação do hibridismo cultural brasileiro. Nele, não se observa a simples sobreposição de calendários religiosos, mas a emergência de uma forma cultural complexa, na qual heranças europeias, africanas e locais se reorganizam continuamente. O culto a Nossa Senhora dos Navegantes e a Iemanjá é um exemplo de como, na cultura brasileira, o sagrado não se estrutura pela exclusão, mas pela negociação simbólica, pela tradução e pela convivência de diferenças.
Na região de Itajaí, as festividades dedicadas à Nossa Senhora dos Navegantes remontam ao final do século XIX, quando comunidades ribeirinhas, pescadores e estivadores e portuários passaram a realizar procissões fluviais e celebrar a padroeira dos pescadores. Como nos traz o historiador José Bento Rosa da Silva, a população negra escravizada da região de Itajaí, após a abolição da escravatura em 1888, passou a desenvolver atividades como agricultura, construção civil e a estiva, na carga e descarga de navios de comércio. Essa população de ex-escravizados, vinculada a atividades marítimas, também compunha o grupo de fiéis que celebravam o 2 de fevereiro.
Desde então, a festa se consolidou em torno de novenas, missas, rezas, cantorias e da tradicional procissão marítima pelo estuário do Itajaí-Açu, mobilizando paróquias, irmandades, associações de pescadores, fiéis cristãos e das religiões afro-brasileiras, evidenciando a diversidade e o caráter híbrido dessa importante manifestação de fé. Ao longo do século XX a festa se tornou um rito de identidade comunitária, preservando laços entre famílias de pescadores e memórias locais.
Desde 2015 ocorre também uma caminhada pela Praia de Cabeçudas dedicada a Iemanjá, que vem ganhando mais espaço a cada ano, e contribuindo para uma maior conscientização e combate à intolerância religiosa. O evento une diversos grupos religiosos de matrizes afro-brasileiras, bem como fiéis cristãos, turistas e simpatizantes.
A continuidade dessas festividades é fundamental para salvaguardar a memória coletiva e o patrimônio cultural da nossa região. Não são somente atos religiosos: são um repositório de práticas, saberes e símbolos que articulam identidades locais. Os rituais de vitória das embarcações, as novenas, as procissões fluviais, oferendas, músicas, ofícios artesanais e a estética da ornamentação dos barcos testemunham modos de vida ligados ao mar e à pesca que se transmitem entre gerações.
Manter essas celebrações vivas garante a continuidade de saberes e expressões imateriais que dificilmente se preservariam apenas por registros escritos ou musealização. Além disso, a festa produz lugares de sociabilidade, redes de parentesco e cooperação entre pescadores, irmandades e lideranças religiosas, que fortalecem a coesão social e a resiliência comunitária frente às mudanças econômicas e ambientais.
Do ponto de vista do patrimônio, a celebração integra bens materiais e imateriais: imagens, capelas e embarcações, bem como práticas festivas, ritos e memória oral. Sua preservação contribui para minimizar a perda de referências históricas pela pressão de modernização, turismo e especulação imobiliária. Também possibilita políticas públicas locais mais justas, quando o reconhecimento formal por estudos, inventários, tombamento e editais culturais garante recursos para manutenção, formação e transmissão dessas tradições.
Quando o patrimônio é preservado com respeito às comunidades locais, fortalece o senso de pertencimento da população, contribui para a valorização da história da cidade e incentiva o turismo cultural, sendo também uma via de fortalecimento da economia.
Valorizar a festa de Nossa Senhora dos Navegantes e o culto a Iemanjá é proteger a história, reconhecer a diversidade religiosa, combater o preconceito e a intolerância e fortalecer os saberes e as relações sociais de Itajaí e Navegantes.
Salve Nossa Senhora dos Navegantes, Salve Iemanjá!
Referências
CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Heloísa P. Cintrão e Ana Regina Lessa. 2.Ed. São Paulo: Edusp, 1998.
OLIVEIRA, Didymea Lazzaris de. O Navegantes que eu conto. Itajaí: autora, 2004.
PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SILVA, José Bento Rosa da. A Itajahy do século XIX: História, poder e cotidiano. 2. ed. Florianópolis/ Itajaí [SC]: Ed. Udesc/ Casa Aberta, 2018.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 6. ed. Salvador: Corrupio, 2002.
* Historiadora, mestra em Patrimônio Cultural e Sociedade pela Universidade da Região de Joinville – Univille. Docente nos cursos de História, Sociologia e Ciências da Religião na Universidade do Vale do Itajaí – Univali, nas disciplinas: História Medieval, História da América e Estágio Curricular (História), Sociologia Brasileira e Estágio Curricular (Sociologia), Narrativas e Textos Sagrados, e Linguagens e Fenômenos Religiosos (Ciências da Religião).