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Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria


O apanhador de desperdícios


Publicado 03/02/2026 11:14

 

Para esta escolha, trago um dos nomes mais singulares e celebrados da literatura brasileira contemporânea: Manoel de Barros (1916–2014).

 

Embora tenha nascido no início do século XX, sua poesia ganhou reconhecimento amplo e definitivo a partir das décadas de 1980, 1990 e 2000, tornando-se um pilar da poesia contemporânea no Brasil. Manoel reinventou a linguagem a partir daquilo que quase sempre passa despercebido: a natureza miúda, o silêncio, o que sobra.

 

Curiosamente, eu não conhecia este poema. Ele me encontrou hoje, durante a pesquisa para escrever o post. E talvez isso explique o impacto imediato. Há textos que parecem nos esperar no momento exato em que precisamos deles.

 

O poema que compartilho funciona quase como um manifesto de sua obra:

 

 

O Apanhador de Desperdícios

 

Manoel de Barros

 

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

 

O que me tocou nesse poema foi a clareza com que ele assume uma postura diante do mundo. Manoel não escreve para explicar, informar ou convencer. Ele escreve para habitar o silêncio, para valorizar o que não serve, o que não rende, o que não acelera.

 

Sua chamada “invencionática” não é jogo de palavras. É ética poética. Em vez de eficiência, ele escolhe o afeto. Em vez do progresso, a observação. Em vez do grande, o mínimo.

 

Quando ele diz “Meu quintal é maior do que o mundo”, não diminui o mundo — amplia o olhar. Mostra que a imaginação e a atenção transformam qualquer espaço em vastidão.

 

Num tempo em que tudo precisa ser útil, rápido e explicativo, Manoel de Barros nos convida a atrasar, a ouvir o chão, a recolher restos como quem recolhe sentido.

 

Talvez por isso sua poesia siga tão atual.

Ela não compete com o barulho.

Ela resiste a ele.

 

📸 ✍️ Alfa Bile

VersoLuz | Jornal Diarinho

 

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