A história demonstra que grandes guerras não surgem do nada. Elas são resultado de processos acumulados, tensões mal resolvidas e decisões políticas equivocadas.
A Primeira Guerra Mundial teve início em 1914, impulsionada pelo nacionalismo exacerbado, pelo imperialismo, pelo militarismo e por um rígido sistema de alianças entre as potências europeias. O estopim foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, na cidade de Sarajevo.
Após o atentado, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. A Rússia saiu em defesa dos sérvios. A Alemanha apoiou o Império Austro-Húngaro e declarou guerra à Rússia e à França. A invasão alemã da Bélgica levou a Inglaterra a entrar no conflito. Em poucas semanas, a Europa estava mergulhada em uma guerra de proporções inéditas.
O conflito só terminou em 1918, com a rendição da Alemanha. No ano seguinte, o Tratado de Versalhes impôs duras punições aos países derrotados, especialmente à Alemanha, que perdeu territórios, foi obrigada a pagar pesadas indenizações, teve seu exército drasticamente reduzido e assumiu a culpa formal pela guerra.
Essas punições, longe de garantir uma paz duradoura, lançaram as bases para a Segunda Guerra Mundial.
Em 1939, a Alemanha nazista, liderada por Adolf Hitler, invadiu a Polônia. O regime nazista rejeitava as imposições do Tratado de Versalhes e defendia a expansão territorial alemã. O nazismo pregava o militarismo, o nacionalismo extremo e o racismo como pilares ideológicos do Estado.
Após a invasão da Polônia, Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha. Com a entrada de diversas nações, o conflito tornou-se verdadeiramente mundial. A Alemanha foi derrotada após ser atacada pelos aliados em duas frentes: pelo leste, pela União Soviética, e pelo oeste, por Estados Unidos, Inglaterra e França. Diante da derrota iminente, Adolf Hitler suicidou-se em abril de 1945. A rendição alemã ocorreu oficialmente em 8 de maio de 1945, encerrando a guerra na Europa.
No entanto, o Japão continuou lutando. O país havia ingressado na guerra com o objetivo de expandir seu território, garantir acesso a recursos naturais e reagir às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. O ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, em 1941, levou à entrada direta dos EUA no conflito. Como resposta final, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Pouco depois, a União Soviética declarou guerra ao Japão, que se rendeu em setembro de 1945, encerrando definitivamente a Segunda Guerra Mundial.
Observa-se, assim, que a Primeira Guerra Mundial foi fruto das rivalidades entre potências europeias e de alianças militares rígidas, enquanto a Segunda Guerra Mundial resultou diretamente das punições impostas após a primeira, da crise econômica global e da ascensão de regimes totalitários.
Atualmente, o mundo volta a presenciar sinais preocupantes. A Rússia, ao invadir a Ucrânia em 2022, deu início a uma guerra em larga escala, embora o conflito já se arrastasse desde 2014, quando anexou a Crimeia e passou a apoiar separatistas no leste ucraniano. A ofensiva russa está relacionada à oposição à expansão da Otan e ao desejo de manter influência geopolítica sobre a Ucrânia, especialmente após a revolução popular de 2014, que afastou um presidente alinhado a Moscou e aproximou o país da União Europeia e dos Estados Unidos.
Além disso, a Ucrânia possui uma das maiores riquezas agrícolas do planeta, com solo extremamente fértil, sendo conhecida como o “celeiro da Europa”, fator que também desperta cobiça geopolítica.
Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm uma política externa marcada por intervenções. Durante o governo Trump, realizaram ações militares ou ataques em países como Venezuela, Nigéria, Síria, Irã, Iêmen e Somália, sob o argumento de combater ameaças à segurança nacional. Contudo, é evidente o interesse estratégico em manter a hegemonia do dólar, além do forte apetite por minerais e petróleo. A Venezuela, detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, ocupa papel central nesse tabuleiro geopolítico.
Outro exemplo é a Groenlândia. Os Estados Unidos já demonstraram interesse direto no território por sua posição estratégica no Ártico, suas riquezas naturais e pela disputa crescente com Rússia e China. Com o derretimento das calotas polares, novas rotas comerciais e áreas ricas em recursos estão surgindo. A Rússia intensifica sua presença militar na região, enquanto a China investe em mineração e infraestrutura, o que leva os EUA a considerarem a Groenlândia peça-chave para a defesa da América do Norte.
Diante desse cenário, observa-se a combinação de fatores de risco reais que podem, se mal administrados, conduzir a um conflito global. O maior perigo surge quando grandes potências entram em confronto direto ou indireto: Estados Unidos e Rússia, no contexto da Ucrânia; Estados Unidos e China, em torno de Taiwan e do Mar do Sul da China; ou ainda Otan e Rússia.
A disputa por recursos estratégicos — como petróleo, gás, água, terras raras e alimentos — tende a se intensificar diante do crescimento populacional, das mudanças climáticas e das crises econômicas. Historicamente, grandes crises econômicas precederam grandes guerras, ao aumentarem tensões sociais, fortalecerem regimes autoritários e estimularem conflitos externos como forma de desviar a atenção interna.
Some-se a isso o enfraquecimento das instituições internacionais. A Onu, criada após a Segunda Guerra Mundial, mostra-se cada vez mais limitada e necessita de profundas reformas. Tratados internacionais são frequentemente desrespeitados, e a diplomacia vem sendo gradualmente substituída pela força militar. Sem mediação eficaz, os conflitos tendem a escalar.
Por fim, talvez o fator mais preocupante seja a ascensão de nacionalismos extremos e ideologias autoritárias. Esses movimentos enfraquecem a diplomacia, alimentam discursos de ódio e inimigos externos e facilitam decisões militares agressivas. Não por acaso, foi esse ambiente que quase levou o Brasil a um golpe de Estado recente, colocando sua democracia em sério risco.
A história já mostrou, mais de uma vez, onde esse caminho pode levar.