Colunas


A culpa é do mordomo


A culpa é do mordomo! José Roberto, o mordomo.

Um assassinato. Sangue com cheiro e sangria recente. Vestígios de luta: vidros quebrados, cadeiras caídas, móveis arrastados. Da porta da casa se vê, primeiro, um pé se sapatos que inaugura a sensação de um corpo sem movimento, inepto. Os olhos abertos, sem luz, a olhar para o nada. Dali não haverá reflexo de vida, se sentido das coisas. O mundo fora daquele corpo não existe mais. O tempo nosso já não é mais compartilhado. Daqui para frente eu sigo, ele para. Não há mais sequencia dali em diante porque o tempo ficou parado para ele e eu sigo bebendo o sacral do perpétuo até meu próprio corpo ficar sem reflexo.

Um assassinato e a culpa, por falta de culpado, é do mordomo.

José Roberto, o mordomo, leva seu carro para abastecer como se fugisse de sua própria condição de ser culpado pelos erros que acontecem no chão em que pisa. E, sem misericórdia angelical se vê desprotegido da salvação divina. Olha para o posto de abastecimento e lê mais um aumento do preço da gasolina. Abre sua carteira de couro que ganhou de presente, observa as notas e pede para abastecer pelo limite da cédula que tem. Os últimos 50 reais se vão!

Com o olhar na nota, procurando garantias de pagamento, o frentista faz seu trabalho. Pronto; em poucos instantes o abastecimento é concluído! José liga o rádio e ouve o presidente protestar, como se tivesse sua própria indignação, que o presidente da fornecedora de combustíveis seria o culpado. Que a forma de se estabelecer os valores da gasolina eram coisas feitas às escondidas, na calada da noite, como um torpedo lançado contra um navio.

A seguir, o apresentador da rádio diz que não há submarinos a atacar nossa armada e que não houve disparo de qualquer míssil. Que o preço dos combustíveis é uma fórmula feita à luz do dia, aceita e mantida. É como se a gasolina fosse exportada para o Canadá: quanto seria o valor do combustível se o que fazemos aqui fosse vendido para um canadense? Isso levaria em conta o valor do petróleo em dólares e a relação entre o valor do Real e o valor do Dólar. Conta simples: para a Petrobras é o canadense que vai comprar a gasolina.

José Roberto é brasileiro, nascido em família pobre, com graduação em uma Universidade que se diz grande, mas que não o ensinou a escrever com ousadia, ler como hábito e interpretar com facilidade. Seu salário, contado o que tem para comprar pão, carne e arroz, não chega ao final do mês sem que ele faça trabalhos extras.

Ele já não sabe como chegará em casa para encarar, olho no olho, seus filhos, sua mulher e os agregados que lá estão em visitas longitudinais. Ele se sente acusado, mas não culpado. Acusado porque não consegue dizer ao presidente que não adianta culpar o mordomo pelo assassinato que ocorrera onde ele pisa; sente-se prisioneiro das circunstâncias de propinas e privilégios daqueles que roubam, escondem o dinheiro na cueca e se dizem vítimas da insegurança. Sente-se acuado pelos que, sabendo que são responsáveis pelo sangue que escorre no tapete da sala e encontra o chão de madeira ilegal, sempre arranjam culpados pelo assassinato. José Roberto é brasileiro, mordomo!


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

O comércio deve abrir no Dia do Trabalhador?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Regra é ignorada por médicos, e farmacêuticas investem em presentes

Conflito de interesse

Regra é ignorada por médicos, e farmacêuticas investem em presentes

Assassinatos dobram no Brasil em um ano, aponta Pastoral da Terra

Conflitos no campo

Assassinatos dobram no Brasil em um ano, aponta Pastoral da Terra

Luxo, bebidas, lista vip e after em Floripa: bets ostentam poder durante evento em SP

BETS

Luxo, bebidas, lista vip e after em Floripa: bets ostentam poder durante evento em SP

Entenda por que comer no Brasil ficou tão caro

Inflação de alimentos

Entenda por que comer no Brasil ficou tão caro

Santa Catarina quer ir além do rótulo e se firmar como potência da arquitetura brasileira

Brasil

Santa Catarina quer ir além do rótulo e se firmar como potência da arquitetura brasileira



Colunistas

Sumiu

JotaCê

Sumiu

Coluna Esplanada

“Venezuraima”

Começou a febre do álbum da Copa

Charge do Dia

Começou a febre do álbum da Copa

Dois sóis

Clique diário

Dois sóis

Parceria praticamente selada

Coluna Acontece SC

Parceria praticamente selada




Blogs

Agora é o Momento

Papo Terapêutico

Agora é o Momento

Igreja Matriz e rua Tijucas no radar

Blog do JC

Igreja Matriz e rua Tijucas no radar

Desertos

VersoLuz

Desertos

Detox natural no organismo!

Blog da Ale Françoise

Detox natural no organismo!

Novas tecnologias e ética

Blog do Magru

Novas tecnologias e ética






Jornal Diarinho ©2026 - Todos os direitos reservados.