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A cidade e meus olhos


Se queres ser universal, comece por pintar a sua aldeia. (Leon Tolstoi) Quando verei as ruas como cenários de beleza? Ou celebrarei minhas rugas nos cafés enquanto absorvo o cheiro aconchegante da bebida escura? Como irei esquecer a multicolorida avenida com flores da estação? Relembrar, ao longe, do sopro daquele velho navio? Sem falar das cores vibrantes de suas bateras. E não esquecerei do sotaque peixeiro que alegra os ouvidos e satisfaz a curiosidade de um estrangeiro como eu? De praias com o vento e maresia que colam na pele em finais de tarde com maré alta? Ou a música que sai porta afora no velho mercado convidando o transeunte para um chope acompanhado de risos? Ou seguirei o trajeto de moradores apressados pegando o último ônibus? E apenas sentar em uma das suas praças com burburinho dos pássaros que disputam os restos da pipoca? Gostaria mesmo de fotografar a entonação de voz daquela vendedora de bananinha que faz um som longo e agudo. Mas como? Meus sentidos de pertencimento são refeitos por aqui. Sou um estrangeiro que absorve seus trejeitos a cada dia. Serei capaz de falar dessa cidade? Conheço alguém que capta esse lugar com um sentido de pertencimento e sensibilidade como habitante desse recanto. Não é tão simples assim. A maioria olha para o horizonte e nunca vê seus recantos próximos. Drummond cantou Minas e Itabira. João Cabral falou da terra seca de Pernambuco e Guimarães descreveu Minas como ninguém. Adélia Prado descreve sua cidade e Cora Coralina falou tão docemente das vielas de Goiás. Machado de Assis e Lima Barreto falaram das ruas e personagens de um Rio antigo. Tornaram-se universais a partir de suas aldeias. Poderia eu, escritor, dizer que o Itajaí-Açu é o mais belo rio que corre nessa cidade, mas não é apenas um rio. Ele é a veia por onde circula a vida desse lugar. É preciso ter o sentido do eterno e da finitude para falar daqui. Serei capaz de falar dessa cidade? Estou ligado a essa terra, ao mangue e ao mar. As imagens de que escrevo tem seiva de árvores, cheiro de peixe e da multivariedade facial de suas ruas. Tem água e sal. Mas ainda é efêmera a minha escrita para falar de Itajaí. Teorias são belas enquanto teorias. Não nos servem para tanto. Dizer em imagens ou palavras o que é verdadeiramente uma cidade exige muito mais do que uma máquina de fotografia ou palavras para um bom poema. Não. Vai além disso. Para construir imagens dessa cidade é preciso muito mais do que foco, enquadramento ou observação. Precisa ter alma. Uma boa foto, um belo poema ou uma música precisa de alma. Mesmo que pareça redundante, não é. Conheço muita coisa sem alma que se autoproclama arte. Mas conheço alguém que capta esse lugar com um sentido de pertencimento e sensibilidade. Tem um sopro ali. Ahh conheço! Fica a dica: Exposição Fotográfica Reflexos: Um olhar contemporâneo de Alberto Cesar Russi no Sandri Art Gallery. Aberta até o dia 15 de dezembro.


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