Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 09/02/2026 09:01
Da impossibilidade da neutralidade
Ontem, o mundo que esperava apenas um show de música assistiu a um acontecimento histórico.
No intervalo do Super Bowl, um artista latino — hoje o mais ouvido do mundo — ocupou o centro do espetáculo global não para agradar, mas para significar. Bad Bunny levou ao palco algo que não cabe em estatísticas: identidade, memória, letramento cultural e amor em forma de performance.
Nada ali era neutro.
As roupas, o cenário, a ordem das músicas, os corpos em cena, a língua falada, os gestos. Tudo comunicava. Tudo dizia. Tudo lembrava que existir também é um ato político.
O mais potente não foi gritar uma mensagem direta, mas fazer-se entender. Mostrar. Ocupar. Permanecer. Quando a arte se move assim, ela atravessa onde o discurso costuma falhar.
Ali estavam representadas todas as Américas — não apenas como mapa, mas como corpo vivo. O resgate do molho latino, da alegria que não pede desculpa, da mistura que não se explica, do direito básico de existir inteiro. Não como concessão, mas como presença.
Isso segue me emocionando desde aquele momento surreal. Não pelo espetáculo em si, mas pelo que ele desorganizou. Pela lembrança incômoda de que neutralidade, muitas vezes, é apenas outra forma de apagamento.
Foi a partir desse atravessamento que escrevi o poema abaixo. Ele não é comentário do show. É extensão do que senti. Uma tentativa de externar algo que não cabe em análise fria.
⸻
Da Impossibilidade da Neutralidade
Por Alfa Bile
📍 Itajaí, 2025
Em tempos de neutralidade,
bocas contidas,
corpos expostos.
Viver exige mais
do que passagem.
Exige presença.
estar
preenche,
respira,
incomoda.
Há corpos que sobem ao palco
sem pedir.
Carregam língua,
rua,
memória.
Não atuam —
ecoam.
O corpo em movimento
interfere.
O gesto
toma lugar.
Estamos aqui.
A pele sabe
o custo do agora.
O palco reúne
quem atravessou
para existir.
As luzes apenas revelam
o que sempre esteve ali:
a cor,
a mistura,
o excesso.
O canto atravessa
onde o discurso falha.
Não há neutralidade
em existir inteiro.
Nem inocência
em ocupar o centro.
Quando corpos dançam
sem pedir espaço,
o mundo entende —
mesmo fingindo que não.
Viver
não se retira.
⸻
Esse poema nasce da certeza de que não existe posição neutra quando o corpo está em cena. Silenciar também é escolher. Fingir imparcialidade diante da existência alheia é, muitas vezes, colaborar com o apagamento.
Ontem, o palco foi ocupado.
E isso, por si só, já disse tudo.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 06/02/2026 20:15