gressões em sala, denúncia registrada em boletim de ocorrência, suposta manipulação de notas, relatos de assédio moral e afastamento por burnout. Quatro professores que passaram por uma escola do centro de Itajaí conversaram com o DIARINHO e afirmam que deixaram a instituição após uma sequência de episódios que, segundo eles, expõem falhas graves na gestão e no ambiente escolar. Há também acertos e processos trabalhistas em andamento, e os ex-docentes pediram sigilo sobre suas identidades.
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Uma professora afirma que o desgaste virou adoecimento. Ela relata sobrecarga, violência de alunos e falta de respaldo. Diz que sofreu duas agressões no rosto, cometidas por alunos diferentes e não teve apoio algum da coordenação.
O quadro, afirma, piorou até o afastamento por burnout. “Passei a chorar todos os dias antes de sair de casa”, escreveu. A rotina, segundo ela, invadiu a vida pessoal. No fim, pediu demissão. “Desisti do emprego. E, mais doloroso ainda, desisti da profissão”, disse.
Um dos profissionais relata ter sofrido importunação sexual dentro da escola. Segundo ele, um aluno passou por trás enquanto ele estava agachado e “esfregou seus genitais” na nuca. “Fiquei desolado e em choque”, descreveu. Ao procurar a direção, diz que ouviu um: “é complicado, né?”.
Ele afirma que cobrou providências, mas que tudo foi “protelado” e que a hostilidade aumentou com as cobranças. Ao acionar instâncias acima da escola, diz que ouviu que o aluno negou o fato e que não haveria pedido de desculpas. Também teria recebido o recado claro de que estava “livre para pedir demissão”.
O professor pediu demissão e registrou BO. “Se ao menos mais pessoas souberem do que acontece lá dentro, já poderei dizer que, em parte, houve justiça”.
Manipulação de notas
Uma das denúncias mais graves mira o rigor da avaliação. Segundo os relatos, houve suposta manipulação de notas na recuperação final, com alunos aprovados sem atingir a média mínima. Um docente afirma ter conferido as provas. “Eu vi as avaliações. Nenhum tirou acima de sete, como deveria", disse. Ele diz que a orientação era rígida: nada de arredondar nota e mínimo sete para passar. O problema, afirma, foi a condução. Muitos estudantes não foram avisados. “Os pais descobriram na entrega do boletim, à noite, e a prova era na manhã seguinte. Foi um caos”. No dia, as avaliações não estavam impressas, responsabilidade da direção. Com pais pressionando e clima tenso, parte dos alunos teria sido aprovada sem fazer a prova. Outros fizeram, mas não atingiram a nota mínima. Ainda assim, passaram de ano.
A professora afirma que a jornada “não cabia no contrato”. Tinha menos de duas horas semanais de hora-atividade para planejar aulas, corrigir tarefas, organizar materiais e ainda limpar a própria sala. Ela diz que fazia horas extras e usava o horário de almoço para dar conta. Reuniões noturnas estendiam o dia para mais de 12 horas, pelo menos três vezes ao mês.
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A palavra que mais aparece nos relatos é improviso: horários mudavam, calendário não fechava e material não chegava. Um professor diz que as demandas apareciam em cima da hora. “Batia na porta da sala com a prova na mão, dizendo que precisava fazer naquele momento. Era no susto”, diz.
Demissões
As saídas não ficaram restritas a pedidos de demissão por desgaste. Após as críticas, vieram os desligamentos, segundo os relatos. Um professor afirma que voltou do recesso, em fevereiro, e foi demitido na chegada sem justificativa. Outro docente afirma que o padrão se repetiu. “Coincidentemente, quem apontava os problemas e não ficava calado foi mandado embora”, falaram.
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O que diz a escola
Em nota oficial, a escola afirma que é uma instituição privada que pauta sua atuação em princípios éticos e compromisso com a formação integral. Diz que situações do ambiente escolar são tratadas “com responsabilidade e seriedade”, de forma individualizada e interna, sem expor profissionais, estudantes e famílias.
Sobre avaliação e aprovação, afirma que os processos seguem “rigorosamente” as diretrizes da rede de educação e que “não há flexibilização de critérios” fora das normas. Sobre rotatividade, diz que é um movimento natural e parte de ciclos de planejamento.
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A instituição declara que repudia assédio moral e que mantém canais oficiais de ouvidoria e denúncia com garantia de anonimato. Acrescenta que, por LGPD e código de ética, não divulga informações internas sobre desligamentos.