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O que muda do que fica


A liberdade tem como condição de existência a limitação. Dois momentos se firmam em nossos desejos e práticas de liberdade. O primeiro se refere aos incrementos de satisfação sobre as escolhas: poder decidir sobre as coisas pode ser difícil em algum momento, mas é muito prazeroso como exercício e sentimento de controle. O segundo diz respeito aos efeitos das escolhas: todas as decisões têm consequências a serem administradas logo em seguida. A liberdade está limitada pelas consequências das decisões assumidas. Pense bem antes de fazer!

Em torno de nossas escolhas há um conjunto de estruturas e processos desencadeados por essas mesmas estruturas sobre nossa vida. Decidimos de acordo e diante de um mundo que já existe sobre nós, acima de nós, que nos condiciona e regula nossos movimentos. Na maioria das vezes, senão em sua totalidade, você não é capaz de decidir sobre os ritos religiosos aos quais se vincula, tampouco sobre os métodos de ensino nas escolas, ou sobre os processos institucionais estruturados de trabalho; você não paga impostos por sua própria vontade [nesse caso a explicitação da obrigação estrutural está na própria identidade impositiva]. Até mesmo os horários das práticas cotidianas estão fora de seu alcance: não é uma escolha! Você não usa relógio para controlar o tempo, mas para o tempo condicionar seus movimentos no dia.

Assim é formada nossa vida social e política: com um pouco de nossas atividades que podem vir a provocar mudanças nas estruturas sociais e nas institucionalidades estruturadas, e um muito de cargas já prontas, estruturas que disponibilizam os sets de desempenho e cenários de vida vivida por cada um de nós. Você é livre para fazer o que quiser, desde que siga as regras sociais da vida que já estão prontas.

O mito de Sísifo [Albert Camus] pode nos ajudar aqui. Sísifo foi um rei notado por ser astuto por enganar a todos. Contra as ordens dos deuses, aprisionou Tânato [personificação da morte ...

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Em torno de nossas escolhas há um conjunto de estruturas e processos desencadeados por essas mesmas estruturas sobre nossa vida. Decidimos de acordo e diante de um mundo que já existe sobre nós, acima de nós, que nos condiciona e regula nossos movimentos. Na maioria das vezes, senão em sua totalidade, você não é capaz de decidir sobre os ritos religiosos aos quais se vincula, tampouco sobre os métodos de ensino nas escolas, ou sobre os processos institucionais estruturados de trabalho; você não paga impostos por sua própria vontade [nesse caso a explicitação da obrigação estrutural está na própria identidade impositiva]. Até mesmo os horários das práticas cotidianas estão fora de seu alcance: não é uma escolha! Você não usa relógio para controlar o tempo, mas para o tempo condicionar seus movimentos no dia.

Assim é formada nossa vida social e política: com um pouco de nossas atividades que podem vir a provocar mudanças nas estruturas sociais e nas institucionalidades estruturadas, e um muito de cargas já prontas, estruturas que disponibilizam os sets de desempenho e cenários de vida vivida por cada um de nós. Você é livre para fazer o que quiser, desde que siga as regras sociais da vida que já estão prontas.

O mito de Sísifo [Albert Camus] pode nos ajudar aqui. Sísifo foi um rei notado por ser astuto por enganar a todos. Contra as ordens dos deuses, aprisionou Tânato [personificação da morte] e, com isso, livrou os mortais da condição de mortal. Em seguida, aprisionando Tânato no mundo dos mortos, Sísifo enganou Hades e conseguiu voltar ao mundo dos vivos. Descoberto, Zeus o condenou a rolar uma pedra montanha acima e, cada vez que estava a chegar ao topo, a pedra rolava morro abaixo. Tânato tinha a dura rotina, como castigo, de empurrar a pedra até o topo da montanha que, seguidamente, voltava para baixo. Para Tânato, a vida poderia ser sem sentido, frustrante, como se as ações humanas não pudessem se constituir em conquistas. Camus termina esta obra expondo que o mundo pode parecer indiferente aos esforços de cada indivíduo, mas havemos de buscar satisfação no próprio esforço. Por exemplo, não é a memorização da tabuada que produz o entendimento matemático, mas o domínio do sentido lógico das operações matemáticas que nos libertam da ignorância. Dominar o fundamento lógico das operações da vida é uma grandiosa conquista.

O processo eleitoral no qual estamos inseridos também pode ser traduzido como oportunidade de mudar algo. As condicionantes estruturais eleitorais estão fixadas e parecem imutáveis. A maior parte do comportamento eleitoral [partidos eleitorais, candidatos, apoiadores; informações, meios de informações e agentes de informação...] são sistemas configurados e já parcialmente conhecidos. Por outro lado, votar não é empurrar uma pedra morro acima que volta a rolar à base da montanha. É grande oportunidade de avançarmos!

Por óbvio não podemos determinar o comportamento político e eleitoral pelas eleições passadas, embora estas sejam fundamentais para entender a caminhada e nossas marcas no caminho. Ao mesmo tempo, sendo a política a ‘arena privilegiada da esperança’, abrem-se possibilidades de renovação de nossos próprios atos ao futuro. Como na tabuada, não é apenas mudar os personagens-candidatos, mas dominar a lógica como forma de libertação política. O voto a ser definido é resultado do relacionamento íntimo de nossa experiência anterior com as expectativas de vida que se farão. Na política, como na vida, o passado [fenômeno concretizado] é fonte de transformação [fenômeno a se fazer]!

Mestre em Sociologia Política

 


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