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O humor dos estadistas (2)


Na coluna anterior, falei da reação de Tancredo Neves na véspera do colégio Eleitoral, em 1985, quando soube que um deputado andava falando mal dele: “Mas como, se não lhe fiz nenhum bem?” Tancredo abordava, com fina ironia, o tema da ingratidão. O doutor Ulysses Guimarães, a respeito, volta e meia soltava esta: “O dia do benefício é a véspera da ingratidão”.

Ulysses jogava muito bem no time do humor. O senador Auro Moura Andrade era presidente do congresso quando, com o vozeirão que tinha, declarou vaga a presidência da República, na deposição de João Goulart, em 1964. Ulysses não gostava de Moura Andrade e não deu mole: “É uma voz à procura de uma ideia”.

Em 1974, doutor Ulysses teve um encontro secreto com o general Golbery do Couto e Silva. Quando o encontro veio ao conhecimento público, foi um Deus nos acuda. Havia versões para todos os gostos. Ulysses nunca abriu o jogo sobre a reunião: “O mal das conversas secretas é que sempre haverá três versões: a sua, a do outro e a verdadeira”.

Mesmo estadistas “austeros”, como Abraham Lincoln, têm seus momentos de graça. Em plena guerra da Sucessão ele contraiu varíola, uma doença altamente contagiosa. Acamado, costumava dizer às visitas: “Sim, é uma doença grave. Mas tem suas vantagens. Pela primeira vez desde que assumi a presidência, agora tenho alguma coisa que posso passar aos que me visitarem”.

Na contramão de sua fama de vaidoso, Fernando Henrique Cardoso, às vezes, encara o humor autodepreciativo. No ano de 1960, FHC traduziu ao vivo uma conferência de Jean-Paul Sartre no Brasil. O ex-presidente não dominava com perfeição o idioma francês, mas conhecia bem o pensamento do filósofo existencialista e deu conta da missão. Uma amiga admirou-se: “ Fernando, não sabia que você fala francês!”. E FHC: “E não falo. Mas não conte para o Sartre!”

O grande Nelson Mandela era um gozador, dos outros e de si mesmo. Ele conta que em 1994, foi abordado por um casal de turistas nas ilhas Bahamas. O homem perguntou: “O senhor é Nelson Mandela?” “Não, sempre me confundem com esse sujeito”. Mas a mulher insistiu: “O senhor é Mandela, sim. O senhor é famoso em que, mesmo?”

Quando Mandela foi libertado, depois de 27 anos de prisão, fez um discurso para uma multidão na cidade do Cabo, um apelo à paz e à concórdia na África do Sul. Recebeu milhares de cumprimentos de todo o mundo. Na autobiografia, ele menciona apenas um, o telegrama que recebeu de uma mulher branca: “Estou muito feliz que o senhor está livre, e que o senhor está novamente com sua família, mas o seu discurso de ontem foi muito entediante”.

A presidenta Dilma também tem um, digamos, estilo de humor. Vejam o que ela disse, literalmente, no dia das crianças, em 2013, no Rio Grande: “Se hoje é o dia das crianças, ontem eu disse: o dia da criança é o dia das mães, dos pais e dos professores, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”.


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