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A bordo do esporte

Flavio Perez é profissional de marketing e jornalista há mais de 25 anos. Especialista em esportes olímpico. Lidera a agência On Board Sports. Foi manager da The Ocean Race


A revolução silenciosa da eletroestimulação muscular no esporte de alto rendimento


Publicado 11/03/2026 14:40

Aumento de 27% na força máxima. Explosão muscular 15% superior. Os números estão ligados a estudos sobre a eletroestimulação muscular de corpo inteiro — conhecida internacionalmente como WB-EMS (Whole Body Electro Muscle Stimulation) — tecnologia que começou a ganhar espaço em laboratórios europeus no início dos anos 2000 e, duas décadas depois, passou a integrar a rotina de atletas de alto rendimento e de simples mortais em busca de uma melhor qualidade de vida.

No Brasil, nomes do voleibol como Camila Brait e Jaqueline, e do futebol, caso da jogadora Tamires, do Corinthians, utilizaram a tecnologia de origem alemã como complemento de preparação física, reforçando uma tendência que vem ganhando espaço em diferentes modalidades.

Inicialmente associada a processos de reabilitação médica, a eletroestimulação evoluiu para aplicações esportivas com foco em ganho de força, potência e recuperação muscular. A proposta é simples: estimular grupos musculares por meio de impulsos elétricos controlados, posicionados em diferentes partes do corpo, enquanto o atleta executa movimentos ou exercícios específicos. Esses estímulos provocam contrações musculares involuntárias que se somam às contrações geradas pelos mvimentos realizados.

O resultado é um recrutamento muscular mais amplo e intenso, aumentando força e potência, sem necessidade de ampliar o volume de treino. “Há, ainda, melhor desempenho e maior explosão muscular com menor impacto articular. Essa ideia evoluiu para o que hoje conhecemos como treinamento de eletroestimulação muscular de corpo inteiro, o WB-EMS”, diz Keko Rödrigues, cofundador e diretor de operações da rede de academias Tecfit e um dos porta-vozes da tecnologia no país.

Hoje, ela aparece em academias, centros de treinamento, clínicas esportivas e de programas de preparação física. Para atletas que convivem com calendários cada vez mais apertados, a possibilidade de otimizar resultados em sessões mais curtas de treinos, a tecnologia passou a ser vista como uma ferramenta estratégica.

Das piscinas alemãs para o esporte global

Embora a eletroestimulação exista desde a década de 1960 na medicina esportiva e na fisioterapia, a aplicação em larga escala no treinamento começou a ganhar força na Alemanha, no início dos anos 2000. Nadadores passaram a testar equipamentos que utilizavam eletrodos acoplados a roupas especiais para estimular vários grupos musculares ao mesmo tempo.

O objetivo era justamente aumentar a intensidade da ativação muscular durante os treinos sem elevar o impacto sobre as articulações. A experiência chamou atenção por permitir ganhos de força e potência sem exigir sessões mais longas de treinamento tradicional. “Existe uma história bastante difundida de que nadadores alemães começaram a experimentar eletrodos acoplados a roupas de neoprene para melhorar a potência muscular dentro da água’’, ressalta Keko. O conceito, então, passou a ser aplicado em outras modalidades como atletismo, futebol e voleibol. Estrelas do esporte, como o francês Karim Benzema, segundo maior artilheiro da história do Real Madrid, também passaram a fazer uso da tecnologia em casa, como parte de um arsenal de equipamentos para sessões de condicionamento físico com um personal trainer.

Pesquisas científicas sobre a WB-EMS apontam ganhos relevantes em indicadores de desempenho físico. Entre os resultados mais citados estão: aumento de até 27% na força máxima, crescimento de cerca de 15% na força explosiva, medida por salto vertical, melhora média de 30,07% no desempenho de força e evolução de 9,14% em testes de salto

Em uma sessão de apenas 20 minutos, a ativação muscular pode chegar a índices próximos de 100%, algo difícil de alcançar em treinos convencionais que trabalham grupos musculares de maneira segmentada. No esporte de alto rendimento, diferenças pequenas podem representar vantagem competitiva. Em provas decididas por centímetros ou frações de segundo, qualquer ganho físico passa a ser relevante.

Brait, Jaqueline e Tamirs

A tecnologia também passou a ser adotada por atletas brasileiros. No voleibol, Camila Brait utilizou a eletroestimulação como parte do processo de retorno ao condicionamento físico após a gestação da primeira filha.

Durante a gravidez, o uso do método não é permitido. Após o parto e com liberação médica, porém, o recurso pode fazer parte do processo de recuperação muscular. Além de auxiliar no retorno ao ritmo de treinos, o método contribuiu para o fortalecimento da musculatura abdominal e para a recuperação da estabilidade do core, ponto importante no pós-parto.

Jaqueline, bicampeã olímpica do voleibol brasileiro, também utilizou a eletroestimulação muscular de corpo inteiro com foco na otimização da preparação física, ao retornar de um período sabático de descanso do esporte. “Para atletas de alto rendimento, cada dia conta. Quanto mais rápido conseguem recuperar a condição física, mais tempo sobra para trabalhar aspectos técnicos e táticos”, diz Keko.

De fato, em esportes coletivos como voleibol e futebol, nos quais a preparação física divide espaço com atividades táticas e técnicas, essa otimização de tempo se tornou um diferencial relevante. A craque Tamires, do futebol é um exemplo emblemático disso. Aos 38 anos, ela retorna agora à seleção brasileira, com um condicionamento privilegiado – a última convocação da atleta ocorreu em 2024, visando as Olimpíadas de Paris.

Assim como outras tecnologias esportivas, a eletroestimulação seguiu um caminho comum: começou no alto rendimento e, gradualmente, chegou ao público geral. Entre atletas profissionais, o foco permanece na performance. Já fora do ambiente competitivo, o uso costuma estar relacionado à saúde .“A eletroestimulação muscular de corpo inteiro segue a mesma lógica de muitas tecnologias que surgiram no esporte de alto rendimento e depois foram adaptadas para o público geral”, afirma Keko. “No caso dos atletas, o objetivo principal é melhorar o desempenho, aumentando força, potência e eficiência muscular para competir em alto nível. Já para pessoas comuns, especialmente idosos, o foco passa a ser a qualidade de vida. Nesses casos, a tecnologia contribui para o fortalecimento muscular, melhora da postura, prevenção de lesões e manutenção da autonomia funcional”.

Além da preparação física, a WB-EMS também passou a ser utilizada em processos de reabilitação esportiva. Atletas que retornam de lesões podem utilizar o método para recuperar força muscular com menor carga mecânica sobre articulações ainda em recuperação.

O recurso também aparece em programas de fortalecimento voltados à prevenção da sarcopenia — perda natural de massa muscular associada ao envelhecimento. Definitivamente, essa tecnologia veio para ficar.

Foto: Facebook TecFit

 

 


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