Um relatório do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) identificou resíduos de agrotóxicos na água potável de 155 cidades do estado. No litoral norte, o alerta envolve cidades onde centenas de milhares de pessoas consomem essa água todos os dias, como Balneário Camboriú, Camboriú, Itajaí, Navegantes, Itapema, Penha e Balneário Piçarras.
O estudo analisou amostras da água tratada que abastece todos os 295 municípios catarinenses, com coletas feitas entre 2018 e 2023. No total, os exames encontraram 42 substâncias diferentes. O MPSC ...
O estudo analisou amostras da água tratada que abastece todos os 295 municípios catarinenses, com coletas feitas entre 2018 e 2023. No total, os exames encontraram 42 substâncias diferentes. O MPSC diz que os resultados foram enviados ao Ministério da Saúde.
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A principal mensagem do relatório é a seguinte: a água analisada fica dentro do que a lei brasileira permite hoje, mas a presença desses resíduos mostra poluição no ambiente e liga um alerta para o efeito da exposição ao longo do tempo. O Ministério Público também chama a atenção para um detalhe: além dos produtos liberados, algumas substâncias que aparecem nas amostras têm uso proibido no Brasil.
O que isso significa na prática
Quando o relatório fala em “resíduos”, não quer dizer que a água “vira veneno”, nem que a pessoa vai passar mal na hora. A própria equipe do MPSC reforça que, pelas regras atuais, a água distribuída pela rede é considerada segura para consumo e ainda é mais confiável do que água de poço ou bica, que não passa por tratamento.
O alerta maior é para a exposição crônica, que é aquela coisa do dia a dia: um pouquinho aqui, outro ali, durante anos. O MPSC explica que, quando o resíduo aparece na água tratada, é sinal de que o produto já circulou pelo meio ambiente — passou pelo solo, pela lavoura e pode ter atingido rios e mananciais antes de chegar à estação de tratamento. Ou seja, não é só a torneira que preocupa e sim o ambiente como um todo.
Onde entram as cidades da região
Na região da Amfri, o relatório aponta resíduos em cidades como Balneário Camboriú, Camboriú, Itajaí/Navegantes e Itapema. O dado que mais chama a atenção é que, além de substâncias permitidas, aparecem também registros de agrotóxicos banidos no Brasil. Em Balneário Camboriú, por exemplo, foi detectado carbofurano em 2019, produto proibido no país desde 2017. O relatório também mostra metolacloro em Camboriú, substância banida no Brasil desde 2019. Já no sistema de abastecimento que atende Itajaí e Navegantes, e em Itapema, o relatório lista resíduos tóxicos, mas sem apontar, nesse recorte, ingredientes ativos proibidos na legislação brasileira.
Debate sobre os limites
Apesar de as concentrações encontradas estarem dentro do que a legislação brasileira permite hoje, o MPSC avalia que a regra pode estar defasada. Isso porque a norma define limites para cada substância isoladamente, mas não considera o efeito da exposição contínua a várias delas ao mesmo tempo.
Segundo o órgão, a preocupação não é com efeito imediato e sim com o contato prolongado ao longo dos anos. Por isso, o Ministério Público defende que a portaria 888/2021, que estabelece os padrões de qualidade da água no país, seja revista.
O Ministério da Saúde informou que o estudo será considerado na revisão das regras e orientou estados e municípios a reforçarem o monitoramento, mesmo quando os resíduos estiverem abaixo do limite permitido.