Armas, drogas, carros e macacos

Comando Vermelho usa o WhatsApp para vender de tudo

Reportagem acompanhou grupos do WhatsApp que são usados para comércio entre membros da segunda maior facção do Brasil

CV movimentou R$ 20 milhões com roubos de veículos e cargas (foto:Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil)
CV movimentou R$ 20 milhões com roubos de veículos e cargas (foto:Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil)

Por Leonardo Coelho, Matheus Moura | Edição: Bruno Fonseca

Em meio a uma chuva de ofertas num grupo de WhatsApp que vão de Ipad Pro a R$ 6,5 mil até uma motocicleta Kawasaki Ninja 650 cilindradas por R$ 8 mil, um membro posta a seguinte mensagem ...

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Em meio a uma chuva de ofertas num grupo de WhatsApp que vão de Ipad Pro a R$ 6,5 mil até uma motocicleta Kawasaki Ninja 650 cilindradas por R$ 8 mil, um membro posta a seguinte mensagem: “Macaco prego fêmea super mansa muito dócil precinho pra sair hoje: 3 mil”. Logo depois, outro usuário oferece uma submetralhadora GHK Calibre 40 e uma pistola 9mm com kit rajada e lata de Glock. Total? R$ 12 mil. E novas mensagens não param de chegar no grupo Monopólio RJ Venda de Tudo. A Agência Pública teve acesso ao grupo de WhatsApp e a outros três similares nos quais são vendidos armas, animais, celulares e veículos. A reportagem apurou que administradores e membros do grupo estariam ligados à segunda maior facção criminosa do Brasil, o Comando Vermelho (CV).

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Usados como verdadeiras plataformas informais de compra, troca e venda, esses espaços têm de tudo um pouco e um pouco de tudo. A reportagem ficou meses nos grupos, que recebem centenas de publicações por dia, e conseguiu descobrir um pouco como funciona o comércio informal da organização.

Em um dia, aproximadamente 22% das ofertas de venda do maior grupo deles, que tem mais de 400 usuários, eram relacionadas a celulares, 20% a armas e munições e 18% a drogas como maconha e cocaína pura, chamada de escama de peixe.

Vendas ou pedidos de carros e motos chegam a 18% dos anúncios. Há também anúncios de ar-condicionado, Cytotec (que é usado para induzir aborto) e Ozempic. Junto a tudo isso, a venda de filhotes de macaco. A ação é crime ambiental.

O objetivo inicial do grupo Monopólio RJ Venda de Tudo, segundo usuários que se apresentam como lideranças, era de que pessoas envolvidas pudessem fazer suas negociações em paz, num ambiente seguro e monitorado. Todavia, o grupo se expandiu e hoje as negociações incluem tentativas de golpe, ofertas de produtos que não existem e pedidos de dinheiro.

Cecília Oliveira, jornalista e diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, comenta que esse tipo de grupo de WhatsApp é mais usado por membros de facções criminosas que ocupam posições menores na hierarquia. “Este é o jeito mais rápido e prático de se comunicar e mesmo havendo outras possibilidades, como o radinho, o zap tem outro alcance e possibilidade de comunicação. Porém, quanto maior a posição na hierarquia, maior o cuidado e menor o acesso, inclusive para membros do grupo.”

Em uma troca de áudios, algumas pessoas que se posicionam como sendo mais experientes dentro do CV apontam que o grupo está muito maior do que deveria, e que deve ter ali ‘alemão’ (gíria para designar pessoas de facções inimigas), policiais e todo tipo de infiltrado e que, portanto, era necessário manter um comportamento mais precavido e realizar as transações econômicas apenas pessoalmente e no “quadrado”.

O “quadrado”, segundo a reportagem apurou, é um tipo de zona franca do tráfico que existe em quase toda favela de maior porte. Nesse local, traficantes da facção ou aliados de diferentes favelas se encontram para negociar drogas, armas e carros sem medo de sofrerem emboscadas ou invasões policiais. Penha, Alemão, Jacarezinho, Salgueiro (São Gonçalo), todas essas favelas têm seu “quadrado”, que normalmente fica em alguma quadra esportiva no miolo da comunidade, onde ninguém entra ou sai de supetão e onde qualquer tentativa de passar a perna numa transação pode ser resolvida na hora mesmo, na base da bala. “O que garante a segurança para essas transações é o fato de ocorrerem dentro do território deles”, aponta Carolina Grillo, pesquisadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da UFF. Ela vê o WhatsApp como um facilitador dessas transações.

A Polícia Civil informou que “investiga a ação de organizações criminosas, e todas as suas atividades. A instituição monitora redes sociais e grupos, a fim de identificar a responsabilizar criminalmente os envolvidos”. 

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A Meta, empresa responsável pelo WhatsApp, disse que o app não permite o uso do seu serviço para fins que instiguem ou encorajem condutas que sejam ilícitas ou inadequadas e, nos casos de violação dos termos de serviço do aplicativo, o WhatsApp toma medidas em relação às contas, como desativá-las ou suspendê-las.

“Para cooperar com investigações criminais, o aplicativo pode também fornecer dados disponíveis em resposta às solicitações de autoridades públicas e em conformidade com a legislação aplicável”, a empresa comentou em nota.

Apesar da declaração da empresa, os quatro grupos acompanhados pela reportagem seguem ativos no aplicativo.

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Motos, “bodes” e peças em ouro

Venda de colar de ouro em grupo de WhatsApp do Comando Vermelho (foto: reprodução)
Venda de colar de ouro em grupo de WhatsApp do Comando Vermelho (foto: reprodução)

 

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O roubo de carros e motos, ao menos no Rio de Janeiro e em São Paulo, está intimamente ligado a facções criminosas como o Comando Vermelho e, no caso paulistano, ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Na capital Fluminense, em 2024, a média foi de 84 veículos roubados por dia, enquanto em São Paulo a média foi de 330 para todo o estado.

Ofertas de veículos em diversos estados são comuns nos grupos observados pela reportagem, sempre com preços muito abaixo do valor de mercado. Um Eclipse Cross, da Mitsubishi, que sai a partir de R$ 160 mil, foi ofertado no grupo Monopólio CV por 5 mil reais. O detalhe é que ele vinha com uma barra de direção ruim e foi categorizado como “bode”, nome dado a um carro roubado que é usado para cometer atividades ilegais diversas.

Ainda que o estado do Rio tenha registrado, em março de 2025, o menor número de roubos de veículos para o mês desde o início da série histórica, em 1991, no mês anterior cerca de 800 veículos foram roubados em pouco mais de quatro dias na capital fluminense. Matérias recentes na imprensa explicitam que o aumento foi uma retaliação da facção a operações nos complexos da Penha e do Alemão.

É difícil de saber o montante exato desse comércio pela facção, mas em 2025 o secretário de Polícia Civil Felipe Curi disse ao jornal O Globo que o Comando Vermelho movimentou cerca de R$ 20 milhões em roubo de veículos e cargas, com elos que levam a carga para revenda em outros estados.

As consequências são várias, mas uma das principais é que o seguro para motoristas na cidade é um dos mais caros do país e surgiram até empresas que “facilitam” o resgate de carros roubados – através de pagamentos. O esquema, que vem sendo desarticulado pela Operação Torniquete da Polícia Civil do Rio de Janeiro, já movimentou mais de R$ 11 milhões para as empresas-alvo da investigação.

Segundo a polícia, um dos objetivos desse esquema era evitar que as empresas de seguro automotivo precisassem indenizar seus clientes com base na tabela Fipe. A investigação ainda comprovou que esse modelo impactou diretamente no aumento do número de roubos de veículos ocorridos no segundo semestre do ano passado [2024] e nos dois primeiros meses deste ano em todo o Estado do Rio de Janeiro, principalmente na capital e na Baixada Fluminense.

Para Letícia Delmindo, advogada criminalista e pesquisadora do programa de pós-graduação em segurança pública e justiça da UFF, os valores que ela observou nas mensagens enviadas pela reportagem estão muito abaixo do valor de mercado.

“Então, conclui-se que, provavelmente, esse veículo é produto de um furto, um roubo. E se ele é produto de um roubo, de um furto, você adquirir um veículo também configura crime por receptação”, explica a advogada.

Celulares e ouro

Quase 25% das ofertas vistas pela Pública nos grupos estão relacionadas ao comércio de celulares. Apesar de nenhum dos itens ter sua origem explicitada, é conhecido que o roubo desses aparelhos é um mercado aquecido no Rio de Janeiro, com elos diretos com o Comando Vermelho.

Dados recentes do ISP (Instituto de Segurança Pública) registraram aumento de 34% desse tipo de crime na cidade em comparação com o mesmo período do ano passado. Facções como o CV estão diretamente envolvidas, seja recebendo pedágios de gangues menores ou atuando em extorsões às vítimas.

Nos grupos, também são negociados chips de empresas de telefonia, circulam pedidos de ajuda com desbloqueio de iPhones e há venda de peças de celulares.

O ouro, assim como os celulares, são outros marcadores de ostentação entre faccionados. Para negociar o metal precioso, porém, eles criaram um grupo específico, ao qual a reportagem também teve acesso.

No grupo, geralmente se negociam pequenas correntes e escapulários, bem distante dos cordões com quilos de ouro pelos quais muitos traficantes de maior escalão são conhecidos. Mesmo assim, reportagens já mostraram que o CV tem atuado no garimpo de ouro, especialmente na região amazônica.

Pesquisadores já apontam há anos a existência do chamado “narcogarimpo”, o garimpo ilegal feito por organizações criminosas. O estudo “A nova corrida do ouro na Amazônia: garimpo ilegal e violência na floresta”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Mãe Crioula e com apoio do Instituto Clima e Sociedade apresenta esse novo panorama.



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