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Quando os nossos jovens deixam de falar — e a gente precisa aprender a escutar


Quando os nossos jovens deixam de falar — e a gente precisa aprender a escutar

* Marlene Fengler

Tem coisa que não dá mais para tratar como fase, exagero ou “coisa de adolescente”. Os dados mais recentes do IBGE, divulgados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), acendem um alerta que a gente não pode mais adiar: nossos jovens não estão bem.

Hoje, três em cada 10 adolescentes brasileiros, entre 13 e 17 anos, dizem se sentir tristes com frequência ou quase o tempo todo. E quase 20% afirmam que, em muitos momentos, sentem que a vida não vale a pena. Não são números distantes, são sinais claros de sofrimento. E quando a gente traz isso para mais perto, a realidade fica ainda mais difícil de ignorar.

Como mãe, isso me toca profundamente. A adolescência sempre foi uma fase desafiadora — cheia de mudanças, dúvidas e inseguranças. Mas o que estamos vendo hoje não é só intensidade emocional. É um sofrimento contínuo, silencioso, que cresce sem que, muitas vezes, a gente perceba.

E há um dado que precisa ser dito com todas as letras: as meninas estão sofrendo mais. Quase 40% relatam tristeza frequente, e muitas já pensaram em se machucar. Isso não pode ser tratado como algo normal, nem passageiro, porque não é.

Outro ponto que chama atenção é a relação com a própria imagem. Mais de 40% dos adolescentes não estão satisfeitos com o próprio corpo. E, convenhamos, nunca foi tão difícil ser adolescente. A comparação hoje é constante. Está na palma da mão, nas redes sociais, nas vidas aparentemente perfeitas que aparecem o tempo todo, nos filtros que criam uma beleza irretocável. Mas a gente sabe: aquilo não é real. E eu acredito, sinceramente, que ninguém precisa ser perfeito para ser aceito.

Um estudo recente do Unicef mostra que a saúde mental já está entre os principais fatores de sofrimento entre jovens no mundo inteiro. Não é um problema isolado, mas isso também não pode servir de desculpa para a gente se acomodar. Pelo contrário. Isso aumenta a nossa responsabilidade.

Ao longo da minha trajetória na vida pública, seja na Escola do Legislativo da Alesc ou como deputada, tive a oportunidade de estar com muitos jovens — em escolas, projetos e encontros. E uma coisa ficou muito clara para mim: eles querem falar, mas precisam sentir que alguém está realmente ouvindo.

Talvez o que esteja faltando não seja mais discurso, mas mais presença. Mais escuta dentro de casa, mais preparo nas escolas, mais apoio para as famílias e, especialmente, mais espaços seguros onde esses jovens possam se expressar sem medo de julgamento.

A gente precisa tirar esse assunto do silêncio. Falar sobre saúde mental não é fraqueza. É cuidado, é responsabilidade, é compromisso com o futuro.

Porque, no fim das contas, não estamos falando de estatísticas. Estamos falando dos nossos filhos, dos nossos alunos, dos jovens que cruzam com a gente todos os dias. E por trás de cada número, existe alguém tentando dizer, do seu jeito: “Olha pra mim, eu preciso ser ouvido”.

* Secretária-geral da Alesc


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