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A literatura portuguesa no Brasil e o acordo ortográfico


Um artigo interessante sobre o fato de o acordo Ortográfico e a “unificação” da Língua Portuguesa não terem melhorado o acesso do livro português no mercado brasileiro me chama muito a atenção: “Ao estabelecer uma ortografia unificada, o acordo ortográfico facilitaria a circulação do livro português no Brasil. Este foi, entre muito outros, um dos argumentos em favor da sua aplicação. Agora que em Portugal e no Brasil muitas editoras adoptaram o acordo, essa promessa começa já a concretizar-se? A resposta parece ser negativa.” O texto é de origem portuguesa, está num apanhado de clips sobre livro e literatura, mas não identifica o órgão publicador.

Uma afirmação de Pedro Benard da Costa, da legendadora portuguesa Cinemateca, fecha o texto – que não é pequeno, com depoimentos de editores e livreiros portugueses: “A construção gramatical é completamente diferente e há muitas palavras que não têm o mesmo sentido cá e lá.”

Pois venho escrevendo sobre isso há anos, ponderando que o acordo Ortográfico não significa que haverá, automaticamente, uma unificação da língua portuguesa em todos os países onde ela é falada, unificação no exato sentido da palavra. Existem muitas palavras que têm significado diferente aqui e em Portugal, por exemplo, mas é possível que isso aconteça na comparação com outros países, como Cabo Verde, Angola etc. Lá fora existem muitas palavras que são não usadas aqui e vice-versa. Uma reforma quase que exclusivamente de acentuação não resolveria as diferenças de significação dos vocábulos, o que não inviabiliza a leitura dos livros portugueses no Brasil. O que incomoda é a pretensão de alguns dos promotores do acordo em querer que o português seja exatamente o mesmo, independente do país onde ele é falado. Se até dentro do mesmo país há diferenças na maneira de falar o português – isso acontece no Brasil -, como esperar que a língua seja a mesma em vários países onde ela é a língua oficial, tão distantes uns dos outros? A linguística existe e vai continuar existindo sempre.

Tenho lido vários autores portugueses, como José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Miguel Torga, Saramago e o angolano Valter Hugo Mãe, que vive em Portugal, e não tenho tido dificuldade na compreensão dos textos, apesar de serem livros publicados em Portugal e, por isso, conter palavras desconhecidas para nós, brasileiros. O contexto permite que se entenda perfeitamente o assunto. Não tenho dicionário português que não seja o nosso aqui, do Brasil, mas posso pesquisar na internet, se for o caso.

Aliás, como já sabemos através dos clássicos portugueses mais conhecidos no Brasil, Pessoa e Camões, a literatura portuguesa é rica e de qualidade. Quem conhece os autores contemporâneos citados acima sabe do que estou falando, pois são autores consagrados em Portugal com obra extensa e premiada. Vale a pena conhecer. O português não é exatamente o mesmo que o nosso, há diferenças, mas não há necessidade de tradução para publicar a obra de autores portugueses aqui, porque a compreensão é completamente possível.


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