Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 02/03/2026 10:22
Na sexta-feira, dia 27 de fevereiro, estive no ateliê do meu amigo Magru Floriano. Foi uma tarde dessas que a gente não agenda — a gente vive. Conversas longas, arte espalhada pelas paredes, memória pulsando em cada objeto, risadas soltas e reflexões que só acontecem quando existe escuta de verdade.
Entre xilogravuras, fotografias, livros e histórias de Itajaí, fui presenteado com um livro maravilhoso de poesias autorais dele: Há cais. Levei o livro para casa como quem leva um mapa. E foi ali, entre as páginas, que encontrei o poema que escolhi para o post de hoje.
Magru é desses nomes que atravessam a cidade. Poeta, escritor, historiador, jornalista, professor, pesquisador da memória itajaiense. Graduado em Pedagogia e História pela Univali, mestre em Educação pela Furb, já presidiu a Academia Itajaiense de Letras, atuou na União Brasileira de Escritores de Santa Catarina, fundou a Rádio Educativa Univali FM e construiu uma obra extensa que mistura poesia, ensaio, pesquisa histórica e artes visuais.
Mas, antes de qualquer currículo, ele é um amigo querido.
Tive a chance de conhecê-lo mais de perto quando me convidou para participar da confraria Café de Quinta — que, sejamos honestos, é de primeira (heheh). Ali, entre café quente e ideias fervendo, a palavra circula viva. E foi nesse espírito de troca que recebi o livro.
Entre tantos poemas, este me atravessou:
⸻
meu mal
foi ter o desejo
de construir com beijos
minha própria nau
para navegar em ti
soubesse eu
que teu oceano era profundo
abissal, revolto e traiçoeiro
a teria construído com palavras
porque, já disse o poeta:
“só as palavras
nascem prontas para a luta”
⸻
Quando li, senti aquele silêncio que só a poesia boa provoca.
Construir uma nau com beijos é uma imagem linda — e arriscada. É o amor como embarcação. O desejo como estrutura. A paixão como vela aberta ao vento.
Quase nunca sabemos o oceano que nos chama. Não medimos a profundidade. Não prevemos a tormenta. Apenas seguimos o impulso do que o outro desperta em nós.
E então vem a lucidez do poema: talvez a embarcação precisasse ser feita de palavras. Porque palavras enfrentam correnteza. Beijos, às vezes, não.
Há cais é um livro que carrega essa consciência: navegar é sempre risco. Nem toda travessia termina em porto seguro. Às vezes, o cais é memória. Às vezes, é aprendizado. Às vezes, é o lugar onde entendemos o que fomos.
Saí do ateliê com um livro nas mãos.
E com um mar inteiro dentro de mim.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 27/02/2026 19:37