Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 06/02/2026 10:02
A Falha Poética nasceu da recusa em fingir que o pensamento humano é organizado, linear e elegante o tempo todo. Eu escrevo porque penso — e pensar, quase sempre, é tropeçar.
Esse movimento que criei não busca o verso perfeito, nem a imagem lapidada até perder o pulso. A Falha Poética parte do princípio de que a vida acontece no meio da distração, do esquecimento, da quebra de expectativa, do detalhe banal que desvia tudo.
Aqui, a falha não é erro.
É método.
O poema não nasce depois do acontecimento. Ele nasce durante. Enquanto algo ainda está confuso, incompleto, mal resolvido. O texto assume isso sem pedir desculpas.
Na Falha Poética, o cotidiano entra sem cerimônia. Praia, sol, corpo, pressa, irritação, esquecimento. Nada é hierarquizado. O banal tem o mesmo peso que o pensamento. Às vezes, mais.
Os poemas não recebem títulos. São numerados, datados e situados. Funcionam como registros de um sistema instável — quase anotações de um dia que não precisava virar poema, mas virou.
O texto não conclui.
Ele cansa.
O poema que escrevi nesta madrugada é um bom exemplo disso. Ele não fala de grandes dramas. Fala de algo mínimo, quase ridículo. E justamente por isso revela o que me interessa: como a mente cria problemas, como o corpo resolve de um jeito tosco, como a realidade desmonta tudo no final.
O poema é este:
⸻
Falha Poética nº 5
Alfa Bile
Itajaí, 06.02.2026
Dia de sol e praia.
O corpo corre pro mar.
Espero ter guardado a chave.
Portão trancado.
Na volta,
preciso de um banho gelado.
Água salgada me irrita.
Enfim, casa.
E o portão?
Onde coloquei a chave?
Vou pular o muro.
Tem chave reserva em casa.
Ao pular,
a chave de casa
estava junto.
⸻
Nada aqui é simbólico demais.
Nada pede interpretação profunda.
O poema acontece no exato momento em que a expectativa cai. A falha não ensina, não moraliza, não cresce. Ela apenas expõe a pequena ironia do cotidiano: o problema criado pela própria cabeça, resolvido tarde demais.
A Falha Poética não quer impressionar.
Ela quer ser honesta.
Se algo termina, é por cansaço.
Nunca por conclusão.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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