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Os ritos da aristocracia e dos selvagens


Quando Ilha de Vera Cruz foi “descoberta” pelo Império Português, a Colônia Portuguesa na América foi considerada um quintal lusitano. Os “índios”, habitantes originários, eram seres sem alma e, portanto, sem o destino da salvação espiritual como os bichos da floresta. Como selvagens, sem nenhuma instrução sobre os comportamentos e atitudes dos “caras pálidas” e sua cultura sobre riquezas urbanas, foram ‘domesticados’, como os bichos da floresta.

Esses “seres selvagens” não se interessavam pelo que acontecia no Império e nem se preocupavam com a aristocracia. Não entendiam como funcionava e nem eram atraídos pelas formas de tomada de decisões. Ignoravam completamente que os poderes do Império e da Aristocracia acabariam por determinar os rumos de suas vidas e de suas mortes.

Os Aristocratas e todo o sistema imperial consideravam que tudo abaixo deles era uma condição para sua riqueza e para todo o poder que tinham nas mãos. Por muitas vezes havia disputas e brigas, chantagens, revoltas, duelos de espadas entre os aristocratas. Quando alguém apontava os desvios imperiais e aristocráticos, apesar de todas as formalidades que registravam os roubos do que é público, logo se defendiam: “É pura perseguição!”; “Vamos provar nos autos sacramentados nossa pureza!”; “Fazemos tudo dentro da lei, da ética, da moralidade e da sacralidade!”. Por fim a conclusão: “Sou candidato a Santo Santificado. Basta uma conversa com o Supremo, alguns ajustes aqui e acertos ali”.

Para os “seres selvagens” tudo estava longe demais. Na vida aristocrática e imperial havia aquela ‘terra dobrada” [escadas] desconcertante. Selvagens não saberiam se comportar naquela ...

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Esses “seres selvagens” não se interessavam pelo que acontecia no Império e nem se preocupavam com a aristocracia. Não entendiam como funcionava e nem eram atraídos pelas formas de tomada de decisões. Ignoravam completamente que os poderes do Império e da Aristocracia acabariam por determinar os rumos de suas vidas e de suas mortes.

Os Aristocratas e todo o sistema imperial consideravam que tudo abaixo deles era uma condição para sua riqueza e para todo o poder que tinham nas mãos. Por muitas vezes havia disputas e brigas, chantagens, revoltas, duelos de espadas entre os aristocratas. Quando alguém apontava os desvios imperiais e aristocráticos, apesar de todas as formalidades que registravam os roubos do que é público, logo se defendiam: “É pura perseguição!”; “Vamos provar nos autos sacramentados nossa pureza!”; “Fazemos tudo dentro da lei, da ética, da moralidade e da sacralidade!”. Por fim a conclusão: “Sou candidato a Santo Santificado. Basta uma conversa com o Supremo, alguns ajustes aqui e acertos ali”.

Para os “seres selvagens” tudo estava longe demais. Na vida aristocrática e imperial havia aquela ‘terra dobrada” [escadas] desconcertante. Selvagens não saberiam se comportar naquela aldeia com tantas paredes transparentes que servem para mostrar a separação entre “os de dentro” e “os de fora”. E as pinturas dos selvagens poderiam castigar os não-iniciados.

Depois de certo tempo os imperiais e os aristocratas criaram uma cerimônia para que os ‘seres selvagens’ pudessem participar de “ritos de confirmação” – as Ekloges. Essas cerimônias aconteciam com certa frequência em festejos. Eram ritos cerimoniais preparados com antecedência e cuidado nos quais os “selvagens” decidiam quais dos aristocratas receberiam condecorações depois de “danças de acasalamento” e “promessas de amizade contínua”. Quanto mais convincentes os dançarinos, mais aplausos receberiam. Os mais aplaudidos receberiam as condecorações. Os dançarinos acabavam se especializando e tinham a vida aristocrática por profissão. Muitas vezes levavam toda a família para a aldeia imperial.

Apesar das danças de acasalamento e promessas de amizade, depois das condecorações, os aristocratas escondiam o ouro que vinha das fontes luminosas da selva. Quando descobertos novamente diziam que eram perseguidos por outros dançarinos que cortejavam o poder e invejavam seu sucesso. O ouro que estava escondido, mesmo depois de os baús abertos em praça pública, era declarado como moralmente superior e eticamente inabalável: vinham dos céus em relâmpagos milagrosos! Esses dançarinos desviantes se defendiam dizendo que eram vítimas da ganância dos adversários. Seus defensores imperiais procuravam, em algum ponto da lei bíblica, algum ponto versicular para a demonização do adversário e dos esconjuros.

Os seres selvagens, ao menos em parte, gostavam mais das brigas entre os aristocratas do que se preocupavam com os destinos de sua aldeia. As cerimônias Ekloges poderiam lhes ajudar na medida que os dançarinos apresentavam novos passos. Em toda a história dos seres selvagens, a grande maioria sofreu por causas relativamente simples como a gripe ou como os bichos da floresta sem floresta, mas com direito à floresta.

 

Mestre em Sociologia Política


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