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Domingo órfão


Tem dias que são desnecessários. Não precisariam acontecer.

São dias tão ordinários que as gráficas deveriam ser proibidas de imprimi-los nos calendários.

Hoje é um dia desses.

Domingo, 11 de agosto de 2013.

Pra que esse dia inútil? Nocivo.

Poderia continuar dormindo e só acordar amanhã.

E é o dia dos pais... Mas já sou órfão e não tive filhos.

Então, eu não precisava desse dia.

Não é por egoísmo. Hoje poderia haver pra todo mundo, menos pra mim.

Eu não preciso desse dia.

O que vou fazer com ele?

Vai ser difícil rir, vai ser difícil esquecer, vai ser difícil me enternecer.

Hoje é o tipo do dia que vai ficar ecoando sem sentido. Apenas um dia que não deveria haver havido.

Pra quê? Não sou pai!...

Se fosse, queria ser o pai que foi meu amigo Ruy Fernando Barboza naquele outro domingo qualquer de alguns anos atrás, quando almoçamos com sua filha Juliana. O prato, sem dúvida, peixe ou qualquer outro fruto do mar, pois que nessa beira-mar do Sambaqui.

Coisa leve, digestiva. Mas, talvez pelo vinho ou cerveja, quem sabe caipirinha pra Juliana que ali, linda, contava de sua viagem aos interiores dos sem-fins da África; deu na inevitável modorra do depois de almoço de todos os domingos e nos deixamos escoar até a vizinha freguesia de Santo Antonio de Lisboa.

Eu, no assento de detrás, tentando imaginar quem mais sairia de São Paulo ou do Rio de Janeiro para dar aulas de teatro em Burkina Faso ou no Burundi, se não uma filha do Ruy Barboza. E ele, por paternal primazia e na responsabilidade do volante, à frente e ao lado de Juliana que, no nosso silêncio preguiçoso, divagava pelos reflexos da luz da tarde verdejando o mar manso ao longo dessa alameda costeira.

Nessas horas até a alegria das paisagens são melancólicas e na falta do que dizer se diz qualquer contrassenso. Inventasse do que reclamar para evitar que a tanta perfeição do momento torne inaceitável a perecibilidade do instante. E apenas como tentativa de fuga da inexorável realidade do suceder daquilo que acredito ter desejado imutável, eternizado como numa fotografia, Juliana tão jovem e já plena de aventuras e realizações, num suspiro de fastio indevido reclama de si dizendo-se cansada de ser tão certinha, comportada, recatada: “- Queria fazer alguma coisa fora da ordem, qualquer coisa maluca, algo de reprovável... Sei lá, ficar louca! Mas fazer o quê?”

Já estacionando o carro, com total displicência, Ruy comenta: “- Fume maconha.”

Falou com tanta naturalidade que abrindo a porta do carro Juliana embarcou no remanso da marola: “- É... Não deixa de ser uma ideia.” Depois, já fora do veículo, se dando conta: “- Que conversa é essa? Como é que me diz pra fazer isso. Isso lá é conselho que um pai dê pra sua filha?”

“- Ué! Depois de ter se metido no sem fim do mundo, o que falta? Só se for fumar maconha!” – desfeitou o Ruy.

“- Como vou poder sentir que estou contestando alguma coisa se é meu pai quem está me aconselhando a fazer isso? Você tirou todo o sentido da coisa!”

Ruy abraçou Juliana e me piscou, sorrindo naquele seu orgulho menino: “- Muito pelo contrário! Esse é o sentido da coisa.”

Assim é o Ruy Fernando Barboza com quem eu conversava de tudo, sempre com a certeza de que a conversa seria saborosa e temperada de humor, inclusive quando discordávamos. Até mesmo nas lembranças tristes de companheiros ou companheiras perdidos paras as garras truculentas da ditadura, acabávamos remando em direção às recordações alegres: um dito, uma ironia, um ato inesperado, um momento em que a vitória foi do protagonista de nossa lembrança. Momentos muito mais válidos e dignos do que os de derrota para a covardia e vileza do regime político daqueles tempos.

Para minha sorte, pouco depois de me transferir para Florianópolis, aparece o Ruy. Veio e, como eu, se apaixonou pela cidade. Um dia voltou já de mala e cuia. Depois de umas semanas aqui em casa foi morar na Armação, dali pra um apartamento na beira da Lagoa da Conceição e depois pra praia do Campeche.

Uma vez mudou-se pra Brasília, convidado para dirigir a TV do STJ. Aquilo me deixou preocupado, inseguro por mim e pelo Ruy. “Isso não vai dar certo” – dizia comigo mesmo, sabendo que não seria bom ficar sem o Ruy e tampouco pra ele se misturar com aquela gente.

Responsável por si mesmo e pela própria história voltou logo. Decepcionado.

Aqui não demorou a recuperar o humor e já não mais discordávamos. Viu de perto o que não imaginava de longe.

Depois o Raimundão o convidou para dirigir a redação da revista “Brasil de Fato”. Além de bem acompanhado em São Paulo, Ruy ia e vinha, estava lá e cá, me deixando mais tranquilo. Apesar de mais velho, muito mais experiente, jornalista, advogado e psicólogo, em sua sabedoria de preservar-se menino, fazia com que por vezes o sentisse meio que meu filho.

Por fim, nos últimos meses, pelo que conversamos por e-mail e pelo Facebook, entendi que Ruy já não ia tanto à São Paulo e a maior parte do tempo estava aqui em Florianópolis, em sua casa no Campeche. Justo nestes últimos meses foi o tempo que menos nos encontramos, mas isso não importava muito porque eu sabia que Ruy estaria aqui, na mesma porção de terra em que todos somos cercados de água por todos os lados, nos protegendo uns aos outros.

Hoje, tantos domingos depois daquele da conversa com Juliana, exatamente às 10 horas da manhã toca o telefone. A voz do amigo César Cavalcanti me confunde porque se a reconheço, o tom é despossuído de qualquer identificação com o inconfundível e efusivo cumprimento de qualquer encontro, mesmo que apenas telefônico. Previamente lamentando a notícia a me passar, diz que Ruy não está mais. Nunca mais estará.

Aquilo foi um engolir pra fora! Por um momento não consegui compreender que César seria aquele, de que Ruy estaria falando. Quase digo que ligou enganado, mas não... Não era engano. Ainda que fora de tom ou num tom abaixo, era mesmo a voz bonita do César, e mesmo que antes nunca a ouvira tão triste, não pude continuar me mentindo.

Desliguei o telefone e comecei a escrever isso aqui, inconformado com esse Dia dos Pais. Que me desculpem os pais todos, mas esse dia poderia não ter havido. Não é um dia necessário para mim que não sou pai, mas se fosse queria ser como o Ruy Barbosa.

E se hoje tivesse um pai para comemorar, queria que fosse o Ruy.

Hoje, pra mim, é um domingo órfão.


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