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Revivendo 3


Foi um único dia, melhor, madrugada, em que saímos para pular Carnaval num lugar chamado clube Dr. Blumenau. Foi em 1972, e eu tinha 19 anos. Na verdade, o carnaval não importava muito, e sequer entramos naquele salão. Ficamos no carro ouvindo músicas, como “Marie Jolie”, e conversamos as mais diferentes coisas. Ao invés de carnaval, naquela noite o que nos aconteceu foi, pela vez primeira, ver espocar os mais maravilhosos fogos de artifício do mundo ouvindo o ruído de uma cachoeira.

E então a vida seguiu e tanto aconteceu, mas tanto, que eu quase já não lembrava algumas coisas de quando tinha 19 anos, mas andava inquieta, querendo redescobrir onde fora esse clube Dr. Blumenau, que hoje já não existe. Então, neste feriado de carnaval, encontrei uma pessoa muito velha daquele bairro, e pesquisei com ela. E com toda a facilidade, a pessoa me explicou:

- O clube Dr. Blumenau? Era ali onde hoje é a escola!

Céus, bem onde hoje é a escola, uma escola cheia de vigilância, onde feroz guarda não deixa entrar nem um mosquito não autorizado! Naquele lugar, se cantou e se dançou no passado, e ali se podia ouvir “Marie Jolie” dentro de um carro parado, e a rua movimentada era uma estradinha sem calçamento, e grandiosos sentimentos avassaladores cabiam ali e coloriam a madrugada em cores que nunca se desvaneceram... Então era ali, ali mesmo, no lugar da escola!

Dirigi o carro até ali, aspirei profundamente, tentando sentir se ali ainda estava uma molécula que fosse daquele ar do passado – e há, sim, os sinais estão ali, como aquela árvore que ficou no meio da rua enquanto o bairro crescia no seu entorno, e um casarão rosa e outro amarelo ainda são daquele tempo. Inadvertidamente, por ali passei mil vezes sem descobrir que fora naquele lugar.

Então, pude sentir como vinham, em ondas, os sons do salão, que diziam de “Quanto riso, oh! Quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão! Arlequim está chorando pelo amor da Colombina”. Dentro daquele carro verdinho claro o universo inteiro cabia e ficava encantado com “Marie Jolie”, encantamento tão grande que já não cabia mais dentro de mim, de nós, a ponto de termos fugido dali para vermos o espocar colorido dos fogos de artifício que ainda nunca víramos!

Clube Dr. Blumenau, carnaval de 1972, começo de vida, de vidas, onde ficou tudo? As pessoas já nem lembram, mas dentro de mim as lembranças são tão fortes que aquela árvore no meio da rua e os dois casarões antigos tudo trouxeram de volta, como se o tempo não tivesse passado. E quase ninguém sabe que ali, um dia, se dançou e se pôde ser tão feliz!

Assim é o amor.

Blumenau, 03 de março de 2014.


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