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Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria


Inventário do que Não Foi Guardado


Publicado 05/02/2026 00:00
Alterado 04/02/2026 16:05

Inventário do que não foi guardado

 

Esse poema nasceu a partir de uma música.

Mais especificamente, a partir do impacto que senti ao ouvir Bad Bunny em Debí Tirar Más Fotos.

 

Não é só uma canção sobre fotos. É uma música sobre memória, registro, tempo e aquilo que se perde quando a vida passa rápido demais. Ela fala desse erro silencioso que a gente só percebe depois: o de não ter guardado o suficiente.

 

Bad Bunny tem feito isso com frequência — usar o pop, o reggaeton e o trap como veículos para falar de identidade, pertencimento, dor coletiva e afeto. Não à toa, ele se tornou um dos maiores artistas da música global, quebrando recordes de streaming, liderando rankings mundiais e colocando o espanhol no centro da indústria musical sem pedir licença.

 

Mais do que números — embora eles sejam gigantescos — há um impacto concreto. O movimento cultural gerado por seus shows, lançamentos e projetos ajudou a movimentar a economia de Porto Rico, impulsionando turismo, empregos temporários, visibilidade internacional e orgulho identitário. Bad Bunny não exporta apenas música: ele exporta território, língua, história.

 

O álbum DTMF (Debí Tirar Más Fotos) carrega esse espírito. Há nele um resgate da memória afetiva, da infância, da família, das ruas, das festas simples, das perdas que não viram luto formal, mas ficam ali — como um gosto estranho, difícil de nomear.

 

Foi nesse atravessamento que escrevi este poema. Não como tradução da música, mas como diálogo com ela.

 

 

Inventário do que Não Foi Guardado

 

Por Alfa Bile

📍 Itajaí, 4 de janeiro de 2026

 

Os anos passam

sem permissão.

 

A sensação permanece

como um arquivo que falha.

 

Não faltou amor.

Faltou registro.

 

A pele esquece.

A memória insiste.

Nada é estável.

 

Deveria ter havido mais fotos —

não por saudade,

mas por prova.

 

Enquanto vivos,

pertencíamos uns aos outros

como se o tempo

não tivesse função.

 

Erro.

 

O tempo não guarda

o que não permanece.

 

As fotos ficam

quando a lembrança falha.

Testemunham.

 

Estantes felizes

são cemitérios organizados.

 

Ali repousam

instantes de uma família inteira,

segundos fixados

à força.

 

Resistem também

amigos madrugada adentro,

copos comuns,

risadas longas,

o mundo suspenso

por algumas horas.

 

Nada retorna.

 

O amor não desaparece —

perde nitidez.

 

O que não foi guardado

não se recupera.

 

Resta apenas

esse gosto

que não é saudade.

 

É falha.

 

 

Esse poema não fala de nostalgia romântica.

Fala de perda de nitidez.

 

Talvez seja isso que a música de Bad Bunny toca com tanta força: não o passado idealizado, mas o desconforto de perceber que o presente passou sem que a gente percebesse. Que viver não garante memória. Que amar não garante permanência.

 

A arte, às vezes, não consola.

Ela inventaria.

 

📸 ✍️ Alfa Bile

VersoLuz | Jornal Diarinho

 

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