Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 05/01/2026 07:38
A cena é simples.
Manhã. Pressa. Uma mesa posta para dois.
Duas xícaras.
Nenhuma palavra.
Um gesto automático que segue como se nada tivesse mudado.
Alguém acorda, se movimenta, prepara o café. A rotina está inteira — mas falta gente.
A ausência não grita. Ela se acomoda.
No centro dessa cena, o poema acontece assim:
⸻
Acordei apressado.
Na mesa,
duas xícaras.
Bebi sozinho.
Algo sobrou.
⸻
O poema não conta uma história longa. Ele mostra um instante doméstico, banal, quase invisível.
É justamente aí que ele dói.
Bebeu sozinho.
E mesmo assim, algo sobrou.
Talvez seja o hábito.
Talvez seja o espaço vazio onde antes havia conversa.
Talvez seja a lembrança que não foi convidada, mas sentou à mesa.
Nada é explicado.
Nada precisa ser.
A história acontece no intervalo entre o que está ali e o que não está mais.
Naquilo que permanece mesmo quando alguém se foi.
O poema termina onde a cena não termina.
A mesa continua.
O dia continua.
E a ausência também.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 06/01/2026 18:28