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Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria


Chiyo-ni e a delicadeza como resistência


Publicado 09/12/2025 08:26

Entre flores de glória-da-manhã e o brilho quieto da manhã, viveu Chiyo-ni — uma das maiores vozes femininas da poesia japonesa. Nascida em 1703, em Matto, província de Kaga (atual Hakusan, Ishikawa), filha de um montador de pergaminhos, ela começou a compor haikai aos sete anos e, aos 17, já era famosa em todo o Japão. Cresceu imersa na natureza e na espiritualidade, transformando o cotidiano em versos que unem o humano ao efêmero.

Em uma época em que a voz das mulheres era quase sempre silenciada, Chiyo-ni escolheu falar com o vento, a lua e a água. Sua força estava em não se impor, mas em florescer — na brevidade de um verso, na poeira que dança à luz. Ela não enfrentou o mundo pela dureza, mas pela delicadeza.

Certa vez, ao descrever um gesto de profunda reverência à vida, escreveu seu haicai mais célebre:

“A glória-da-manhã

capturou a corda do poço —

peço água ao vizinho.”

A imagem carrega uma força ancestral. Para não ferir a flor que abraçou seu balde, ela abre mão de sua própria água e busca auxílio. É o feminino que se inclina, que protege o mistério da vida — e, desse movimento de compaixão, faz poesia.

Chiyo-ni transformou o cotidiano em contemplação. O balde, a corda, a flor: símbolos de um labor invisível que as mulheres sustentam há séculos. Sua escrita ensina que a delicadeza não é passividade; é escuta. E escutar o mundo com atenção profunda é um ato de resistência, talvez o mais revolucionário de todos.

Quando leio seus versos, sinto que ela ainda sussurra entre as pétalas e o silêncio — lembrando que há beleza onde há presença, e que o feminino, quando floresce, transforma tudo ao redor em luz.

Nota sobre Chiyo-ni

Fukuda Chiyo-ni (1703-1775) foi uma poetisa do período Edo, monja budista aos 52 anos, adotando o nome Soen para "ensinar o coração a ser como água clara". Mentora de outras artistas, publicou coleções como Chiyo-ni Kushu em vida e criou 21 haikus com ilustrações para uma delegação coreana em 1764. Sua influência abriu portas para mulheres no haikai, antes ignoradas.

 


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